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Por Renata Fontanetto

“Eu sinto que preciso explorar ainda mais essa parte da divulgação científica e mostrar para a sociedade que RPG com ciência é uma possibilidade.” O que a bióloga Virgínia Codá aprendeu desde os 13 anos com os Role Playing Games (RPGs), ela quer levar para o campo da popularização da ciência. Interação social, amadurecimento pessoal, maturidade emocional: qualidades pessoais que a nova mestra em divulgação científica conquistou devido ao dia a dia e às sessões de jogos de RPG. “Eu lembro de momentos na minha vida, envolvendo outras pessoas, que eu sabia exatamente como lidar com a situação porque já tinha passado por aquilo num jogo de RPG. Só quem joga consegue perceber a grandiosidade desse gênero de jogo”, afirma.

No mestrado da Fiocruz, quando o orientador Marcelo Vasconcellos propôs misturar RPG e divulgação científica, Virgínia percebeu que não havia pensando nessa possibilidade. O embarque no mundo dos jogos e da ciência começou com a pesquisa “O chamado do Curupira: Role Playing Games como instrumento na popularização da Ciência”, defendida no segundo semestre de 2020. Depois de defender a dissertação, ela até pensou em experimentar outras áreas da divulgação, mas a partida de RPG já estava ganha: a pesquisadora confia no potencial deste jogo como um instrumento de análise de percepção dos jogadores em relação a temas de ciência.

A narrativa d’O Chamado do Curupira, criado por Virgínia, gira em torno dos problemas ambientais que ocorrem atualmente no Brasil, o que acaba provocando a preocupação das criaturas do folclore brasileiro em relação à fauna, à flora e aos próprios seres humanos. Biopirataria, trabalho em condições irregulares, desmatamento, construções irregulares, entre outros temas, puderam ser vistos pelos participantes da pesquisa na história.

Construa o seu personagem, a narrativa, suas qualidades e atributos e junte-se ao time de Virgínia!

 

Fernando Alves: Oi, Mestra! Parabéns pela pesquisa e escolha do tema! Durante as sessões com os grupos, como foi a recepção do público ao jogo de RPG? E como foi o processo de integrar o jogo, as questões de ciência e a biologia cultural?

Virgínia Codá: Oi, Fernando! Obrigada pela pergunta! Eu fiquei receosa tanto em relação ao feedback dos participantes que já costumavam jogar RPG, quanto em relação aos participantes que nunca tinham jogado. Meu receio em relação aos que já tinham experiência era justamente se o jogo atendia às expectativas de um RPG que pessoas que jogam há anos estão acostumadas a jogar. Fiquei muito feliz em ver que eles adoraram e não se surpreenderam muito com o contato que o jogo provocava em relação à ciência, já que é natural de os RPGs terem essa característica interdisciplinar. Mesmo os que não têm esse foco em ciência, explicitamente. Já com os participantes que nunca tinham jogado RPG, meu receio era se eles iriam gostar da mecânica do jogo e dessa característica de narrativa aberta, em que os jogadores são livres para decidir o que quiserem. Eles também adoraram e chegaram a comentar que gostariam de jogar RPG mais vezes. Então, a gente percebe que, apesar de ser um gênero de jogo que parece complexo, não é difícil de ser introduzido num grupo de pessoas sem experiência. Isso, é claro, sabendo que nos primeiros minutos a sessão de jogo não vai ser tão fluida, justamente para que eles possam ir entendendo a mecânica e tirando as dúvidas. Sobre o processo de integrar o jogo e as questões de ciência e biologia cultural foi muito orgânico. Justamente por esse gênero de jogo ter a possibilidade de ser contextualizado e atual. Foi como contar uma história com acontecimentos do dia a dia do nosso país. Tirando a parte de fantasia do folclore brasileiro, todos os desafios são baseados em notícias que vemos nas mídias e que, muitas vezes, temos contato presencialmente. Outros assuntos relacionados à ciência, que apareceram na história, foram trazidos a partir dos próprios participantes e do desenrolar da narrativa, o que eu acho sensacional.

Mariana Fernandes: Oi, Vi! Parabéns pela pesquisa! Minha dúvida é: você acha que dependendo do público (criança, adulto, idoso) o jogo precisaria de adaptações (linguagem, conteúdo, apresentação)?

Resposta: Oi, Mari! Muito obrigada! Apesar de o jogo ter uma história principal, desafios e regras, cada sessão termina sendo única e adaptada aos jogadores. Por isso, a função do mestre do jogo (aquele que é o mediador e narrador) é tão importante. Ele pode identificar, principalmente no começo do jogo, o perfil daquele grupo. A partir disso, toda a linguagem e a abordagem serão específicas daquela sessão, construída com o grupo. Toda a parte fixa do jogo (história de fundo, desafios e personagens) foi elaborada numa linguagem informal, relacionada ao que encontramos no nosso dia a dia. Isso permite que crianças, adultos e idosos possam contextualizar o que está acontecendo. É claro que podem ser feitas alterações, de acordo com o perfil de cada grupo. O importante é passar a essência do jogo, que é justamente mostrar aos jogadores que o Brasil tem problemas ambientais seríssimos, ocasionados ou agravados por “vilões”, que, no jogo, não são detalhados em relação à forma, gênero ou cor, mas que todos tendem a visualizar como seres humanos. Talvez, a parte sobre os biomas e as características deles seja a que mais possa provocar estranhamento. Por exemplo, quase todos os jogadores não conheciam, ou conheciam pouca coisa, a respeito do bioma Pampa, do Sul do Brasil, até mesmo aqueles que tinham profissões relacionadas à biologia. Nesse aspecto, entra um costume muito comum nas mesas de RPG que é a pesquisa. É comum jogadores fazerem pausas para pesquisar a respeito de elementos do jogo, para que possam fazer suas ações ou deixá-las mais completas. Inclusive, o próprio mestre do jogo pode fazer essa pesquisa durante a sessão.

renata_fontanetto: Oi, Virginia! Por favor, você pode me explicar um pouco mais sobre o que você achou em relação ao uso dos jogos de RPG na educação?

Resposta: Oi, Re, obrigada pela pergunta! Os Role Playing Games em si já permitem essa interação entre jogo e aprendizagem, já que os jogadores, independentemente da narrativa que estejam jogando, utilizam características das áreas de física, química, geografia, biologia, história, entre outras, para fazer o cenário, desenvolver ações e até mesmo interagir com personagens. Em relação aos Jogos Sérios - que são os jogos que entretêm, mas tem como maior propósito instruir, educar e, principalmente, conscientizar sobre importantes causas do mundo real -, a quantidade de educadores utilizando essa abordagem como instrumento educativo é cada vez maior. Em especial utilizando RPGs, já que esse gênero de jogo, naturalmente, tem uma facilidade em ser interdisciplinar e contextualizado. Cada vez mais educadores optam por metodologias ativas de aprendizagem, que são aquelas em que os educandos protagonizam sua própria aprendizagem, e os Role Playing Games são instrumentos efetivos nessa trajetória. Os jogadores constroem a narrativa, enquanto compartilham e aprimoram seus conhecimentos. Vários artigos, que podem ser encontrados no Google Scholar, relatam essa efetividade, em diferentes disciplinas. Recomendo o artigo “O Roleplaying Game na sala de aula: uma maneira de desenvolver atividades diferentes simultaneamente”, de Amaral e Bastos (2011), para quem quiser ler e se iniciar no assunto.

lamaniako: Qual a melhor dica de uso do RPG na educação? Existe algum sistema mais apropriado?

Resposta: Oi, Iamaniako! Obrigada pela pergunta! Um sistema que me ajudou bastante nessa trajetória de construção d’O chamado do Curupira foi a plataforma criada pela Eliane Bettocchi e pelo Carlos Klimick: “Incorporais” (http://historias.interativas.nom.br/incorporaisrpg/). Tive a honra de ter na minha banca de defesa a Eliane Bettocchi. A plataforma Incorporais tem esse objetivo de RPGs relacionados à educação formal, não formal e informal. Ou seja, professores podem utilizar com seus alunos, psicólogos com seus pacientes, pais e filhos... A plataforma foi crucial para que eu pudesse entender as principais características de um RPG focado na educação, tanto para que a mecânica do jogo não se tornasse complexa e maçante, como quais os principais elementos que deixam os personagens e seus poderes mais completos. O cenário precisa fazer sentido para o seu objetivo, os poderes dos personagens precisam se complementar, os desafios são abertos, mas precisam ter detalhes que provoquem estímulos nos jogadores para que eles possam buscar resolver o objetivo do jogo. Entre outros fatores. Super indico, sou uma grande fã do trabalho dos autores!

Julianne Gouveia: Olá, mestra! De que maneira esse tipo de atividade pode ser aliada da educação? De que forma ela contribuiu também para a divulgação científica?

Resposta: Oi, Julianne! Muito obrigada pela pergunta! Para a educação, os jogos de RPG são excelentes instrumentos nas metodologias ativas de aprendizagem. O jogador está, a todo momento, participando do desenvolvimento da narrativa, sendo responsável por suas ações, lidando com seu sucesso e fracasso na resolução dos desafios, aprendendo com os outros jogadores, compartilhando conhecimentos e experiências. Tudo isso com bastante entretenimento, num formato diferente da sala de aula e daquela ideia de decorar e reproduzir na prova aquelas informações. Alguns participantes da minha pesquisa chegaram a comentar, inclusive, que era explícito que “O chamado do Curupira” tinha uma finalidade educativa, mas que era interessante justamente por não parecer uma prova em que eles tinham que responder perguntas ou um jogo de perguntas e respostas. Um dos participantes chegou a comentar que lidar com os erros cometidos durante o jogo era uma forma efetiva de aprender e que não é comum de ser vista na escola, já que na escola ele só tinha resolvido os mesmos problemas de sempre. Para a divulgação científica, os jogadores têm liberdade de compartilhar seus conhecimentos prévios, além de ser um gênero de jogo interdisciplinar e em que é possível contextualizar com grande facilidade. Também, durante as sessões, os jogadores terminam relatando diversas particularidades de suas opiniões em relação ao conteúdo científico do jogo, e diversos debates são criados, até sobre os temas da ciência que são mais controversos e polêmicos.

renata_fontanetto: Gostaria de fazer uma outra pergunta: Quais resultados você encontrou em relação ao RPG que você estudou?

Resposta: Nós fizemos análise de conteúdo em todo material das sessões e dos grupos focais (que é justamente contabilizar, na fala dos participantes, a frequência em que aparecem os temas e as construções de pensamentos). Percebemos que uma opinião bastante disseminada entre os jogadores foi a de o jogo ser muito relacionado à ciência e, ainda assim, ser muito divertido. Os “joparticipantes” que nunca tinham jogado antes estavam esperando um jogo de tabuleiro em que tivessem que responder perguntas, e se surpreenderam com a abordagem do RPG, principalmente com a liberdade que eles tinham em resolver os desafios da forma que queriam.  Quando eu perguntei, durante as entrevistas, se eles conheciam o termo divulgação científica e como eles relacionavam ao que tinham acabado de experimentar, houve uma frequência grande de comentários que diziam que jogos daquele formato são interessantes para a divulgação científica por você entender a ciência na prática, como se estivesse vivendo os desafios, tendo contato com a ciência em primeira pessoa. A experiência foi bastante positiva, muito mais do que eu imaginava que seria. E isso me fez perceber que a utilização de um RPG para analisar a percepção da ciência pode ser bastante efetiva também.

Olimpíada/Fiocruz: RPG combina com #ciência? E com #educação?

Resposta: COMPLETAMENTE! Combina com Ciência, combina com educação, combina com divulgação científica. E eu fico muito feliz em fazer parte dessa trajetória de estudo sobre os RPGs, que está se tornando cada vez mais popular.

 

Publicado em 10/12/2020

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