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Por Melissa Cannabrava, jornalista do Museu da Vida

No dia 11 de março de 2020, a Organização Mundial da Saúde (OMS) decretou estado de pandemia global devido ao número de casos de pessoas infectadas com o novo coronavírus (Sars-Cov-2), causador da doença Covid-19. Na ocasião, o diretor-geral da OMS, Tedros Adhanom Ghebreyesus, declarou que os países devem seguir as estratégias para "detectar, proteger, tratar e reduzir a transmissão" do vírus. A doença já está presente em diversos países, com transmissão comunitária entre as pessoas, e o ritmo de disseminação do vírus segue acelerado em muitas nações.

O estado de calamidade pública no Brasil foi declarado nove dias após as falas de Ghebreyesus, e as autoridades das áreas política e de saúde determinaram uma nova rotina em nosso país, fazendo com que a frase “fique em casa” fosse repercutida como a melhor opção para salvar vidas e não sobrecarregar o Sistema Único de Saúde (SUS). A prática do isolamento social, segundo um estudo do Imperial College London, de Londres, evitou até 120 mil mortes na Europa, continente onde alguns países já começam a relaxar medidas para conter a pandemia após registrar queda no número de mortes.

No Brasil, trabalhadores seguem suas demandas de serviços em home office, e diversas empresas adotaram plano de contingenciamento para evitar o contágio, como reforço na higienização, substituição de reuniões físicas por videoconferências, flexibilidade nas escalas para evitar aglomeração em transportes públicos e a distância de dois metros entre uma pessoa e outra. No entanto, segundo a Organização Internacional do Trabalho (OIT), o número de desempregados no Brasil pode chegar a quase 25 milhões. Neste cenário, encontram-se os trabalhadores autônomos do meio cultural, que atualmente estão sem uma solução para garantir a renda diariamente. Ao mesmo tempo em que buscam assegurar a saúde e colaboram para a não propagação do vírus, eles também estão promovendo ajuda em suas comunidades.

Alexandre Campos mora na favela do Jacarezinho e é rapper, produtor cultural e integrante do Coletivo Pac’Stão, que organizava, antes da pandemia, uma roda cultural em frente à Biblioteca Parque de Manguinhos toda segunda-feira. Conhecido como Xandy MC, o estudante de pedagogia já fez parte do Rap e Ciência, iniciativa de divulgação científica e cultural que contou com a parceria do Museu da Vida, e tem um estúdio na comunidade onde vive, chamado EndolaSom, no qual a equipe produz artistas da favela. Além de todo o trabalho que tenta manter no cenário cultural, Xandy é assessor parlamentar na Assembleia Legislativa do Estado do Rio de Janeiro (Alerj), onde acompanha a Comissão de Cultura, e conta que a cultura nunca foi protagonista quando se trata de assistência dos governos.

 

“O cenário já era bem complicado e com essa pandemia as coisas pioram ainda mais. Todos os eventos que estavam marcados foram adiados ou cancelados, o que gerou um desemprego enorme para os produtores de cultura. Muitos artistas que contavam com o dinheiro de suas apresentações hoje estão com dificuldades de arrumar uma renda, assim como os produtores de eventos não conseguem mais organizar os seus. Assim, fica difícil levar a comida para casa. Pouco se fala sobre editais do governo para beneficiar a cultura, principalmente a cultura periférica, cujos artistas estão mais vulneráveis. Existem várias recomendações da OMS que a gente tem que seguir para preservar as nossas próprias vidas, pois quem trabalha com arte dificilmente vai conseguir se aposentar como artista se não tiver um outro trabalho formal”, relata o rapper.

Vale lembrar que em junho de 2019, cinco meses antes do primeiro caso confirmado de Covid-19 no mundo, a Justiça do Rio de Janeiro proibiu as apresentações de artistas em estações e vagões de trem, metrô e nas barcas, considerando inconstitucional a lei que regulamenta essas manifestações culturais. Segundo decisão, prejudica o sossego dos passageiros, o que dificultou ainda mais o ritmo de trabalho dos artistas de rua.

 

“Com as ruas vazias, muitos estão impossibilitados de fazer suas apresentações. As pessoas não se tocam, pouco se falam. Fica mais complicado ainda. Muitos artistas já eram perseguidos nos trens, metrôs e barcas por se apresentarem. Então, a gente tem uma cidade que nunca investiu devidamente em cultura e também não tem nenhuma medida para ajudar os artistas de rua. Quem paga o aluguel? Como botar comida na mesa e ainda ter condições de ficar comprando álcool em gel?”, pergunta.

Saúde mental é preocupação para poeta do Complexo do Alemão

A pandemia atingiu em cheio o planejamento de vários coletivos, entre eles o Slam Laje, uma competição em que poetas leem ou recitam seus trabalhos, organizada por Sabrina Martina (MC Martina). Para a poeta, a chegada do vírus trouxe preocupações tão graves quanto a falta de verba para sustentar as famílias.

“A galera da cultura é hiperativa, gosta de movimento, corpo a corpo e sintonia. Estamos vivendo algo que a gente nunca imaginou. Mês que vem o Slam Laje faz 3 anos e esse vai ser o primeiro que não vamos comemorar nosso aniversário. Não estou bem com tudo isso. Mexe com a gente, sabe? O antes a gente não cuidou, o durante está rolando e o depois estará na nossa conta em termos de reativar a cultura. Estou trabalhando a questão do meu emocional. Tentando pensar positivo, ter uma boa perspectiva de vida. Minha meta é lançar livro, mas não tô me forçando a produzir, a saúde mental vem em primeiro lugar. Isso mexeu com muita gente e só quero que, quando acabar, a gente não fique tão perturbado”.

Filha de uma auxiliar de serviços gerais, Martina nasceu na Pedra do Sapo, no Complexo do Alemão, e cresceu no Morro do Adeus. Atualmente, a MC vive na Maré e, assim como Xandy, tem participado ativamente de ações para promover saúde, ajuda coletiva e prevenção, criando vaquinhas on-line para não deixar os artistas de rua passarem fome durante o período da quarentena.

 

“Alguns artistas voltaram para a casa dos pais e já há muita gente que está passando fome. Cada um dá dez reais ou o quanto puder para ir ajudando os amigos. Mesmo assim, não está tendo um bom efeito, muita gente da área cultural está sofrendo, ainda mais nós, moradores da periferia. Estamos nos articulando e planejando estratégias para conseguir minimizar isso.”

No Jacarezinho, Xandy MC e outras dez pessoas do coletivo Pac'Stão estão na linha de frente da organização de cestas básicas. “A gente criou um manifesto e uma ação. Tudo começou com um amigo nosso que organiza a Roda da Central, ele tinha sido despejado e 'tava' morando numa kombi. Conversando com outras pessoas, fomos descobrindo vários casos parecidos, enquanto outros artistas vieram na nossa direção pedindo ajuda”, conta. A partir disso, nome, endereço e telefone para contato foram e estão sendo cadastrados. Como resultado, mais de 30 famílias de artistas já receberam ajuda com uma cesta básica.

Para colaborar com as ações dos artistas, entre em contato pelo instagram do Slam Laje, MC Martina ou Rap Resistência Viva. Lembramos que as práticas de distanciamento social ainda estão sendo recomendadas pelo Ministério da Saúde, a Fiocruz e outras autoridades públicas. Se você puder ajudar as pessoas e os coletivos mencionados nesta matéria, entre em contato com eles pelos canais das redes sociais. A solidariedade é bem-vinda.

 

Publicado em 17 de abril de 2020.

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