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O que ciência e YouTube têm em comum? Tudo a ver - pelo menos, para o grupo de produtores de conteúdo do Science Vlogs Brasil, que falam do assunto na plataforma de maneira descontraída através de elementos da cultura geek. O potencial das estratégias de popularização do conhecimento científico por parte do coletivo inspirou a mestra em Divulgação Científica e assessora de comunicação da Fiocruz Jacqueline Boechat a desenvolver a dissertação ‘Um Megazord contra a anticiência: a ciência e a divulgação científica no Science Vlogs Brasil’. Jacqueline analisou 16 vídeos que fazem parte da playlist de Boas-Vindas do Science Vlogs Brasil, publicados em 2016, ano de lançamento do canal coletivo. Ela compartilha agora suas conclusões sobre internet, visão da ciência e estereótipos na última entrevista de 2019 da série Conta Aí, Mestre.

Até a temporada 2020!

Natalia Flores (@nataliflores): Tô super curiosa. A pesquisa chegou a analisar como os divulgadores conceituam a divulgação científica? :)
Jacqueline Boechat: Natalia, que honra! Seu trabalho sobre o ethos discursivo do cientista dos blogs de ciências foi referência para mim. Acredito que não haja uma conceituação mais formal, mas uma visão particular de divulgação científica, que podemos inferir ao observar o papel que os divulgadores atribuem a si: de super-heróis, guardiões da ciência, levando “ciência de verdade” ao seu público e lutando contra aquilo que não é ciência, ou pelo menos, que eles não consideram como tal. Uma frase dita por um dos divulgadores foi tão simbólica, tão representativa nesse sentido, que, inclusive, deu título a minha dissertação: em um dos vídeos da playlist de boas-vindas, ao explicar o que seria o coletivo de canais, ele definiu o SVBR como “um monte de Power Rangers se juntando para controlar o Megazord e lutar contra as forças anti-intelectuais e anticientíficas do mundo”.|

Haendel Gomes (@haendel.gomes.3): Jacqueline, td bem? Pode indicar alguns pontos positivos e negativos do Science Vlogs Brasil? Obrigado!
Jacqueline Boechat: E aí, Haendel? Beleza? Uma vez que o objetivo foi analisar o sujeito do discurso como um lugar de produção e interpretação de significados, não como um indivíduo concreto, em vez de apontar pontos positivos e negativos, acho mais adequado tecer algumas observações com respeito a esse discurso. Percebi que a ciência na sua visão tradicional – objetiva, neutra, racional e como lugar de autoridade – ainda está bem presente na memória discursiva dos divulgadores. Isso os faz adotar também um discurso de autoridade e de porta-vozes autorizados para falar sobre ela, apesar da linguagem informal e descontraída. Por outro lado, já é possível identificar em alguns vídeos a preocupação de mostrar que o conhecimento científico não é infalível, não é dogmático e que se transforma de acordo com condições históricas, sociais e ideológicas.

Spectaculu • Arte e Tecnologia (@spectaculu): Que elementos dessa linguagem mais pop são comuns a todos os vídeos? Você acredita que esses recursos realmente estimulam a popularização da ciência ou, ainda assim, esses canais só falam para os "convertidos", a galera que já consumiria esse tipo de conteúdo de qualquer jeito?
Jacqueline Boechat: As referências mais nítidas são as histórias em quadrinhos, universo dos super-heróis, anime, filmes de ficção científica, aquilo que se convencionou chamar “coisa de nerd”, o que quer dizer que me senti em casa (risos). Adequar a linguagem é uma estratégia de aproximação importante, pois identifica o público com o divulgador. Por outro lado, essas referências são bastante específicas, o que significa que o discurso pode estar atingindo apenas um nicho. No discurso dos divulgadores estão presentes dois tipos de público: o que está no slogan, os que “gostam de ciência”, e um outro que não se interessa
pelo que está sendo exposto, ao qual são atribuídas generalizações e características negativas. Não percebi estratégias de captação em relação a esse último dentro do corpus escolhido para analisar.

Renata Fontanetto (@renata_fontanetto): Qual é a visão hegemônica desses vídeos? Você como observadora, e não como pesquisadora, sente que os vídeos estão indo na direção de uma ciência plural, diversa, sem preconceitos e crítica?
Jacqueline Boechat: Oi, Renata! Na pesquisa, o resultado apontou para uma visão de ciência mais identificada com um modelo mais tradicional, que atribui características de objetividade, neutralidade e racionalidade ao discurso científico. Como observadora e admiradora do trabalho do SVBR, venho acompanhando os esforços dos divulgadores para desmistificar essa visão mais positivista, para rachar a torre de marfim, nessa direção de uma ciência com mais diversidade e mais crítica.

Julianne Gouveia (@julianne.gouveia) Qual é o perfil dos youtubers que fazem parte do Science Vlogs Brasil? São todos cientistas, professores ou só entusiastas da ciência? Você acredita que esse perfil influi na visão da ciência oferecida por eles em seus canais?
Jacqueline Boechat: Julianne, existem entusiastas, mas a maioria é de pessoas que têm vínculo com a área científica. Até porque, para participar do SVBR, os interessados precisam apresentar produção de divulgação científica no YouTube e passar por um processo seletivo, em que são avaliados por um grupo de especialistas da USP e depois pelos participantes do canal coletivo. Só depois recebem o “selo” Science Vlogs Brasil. Esse perfil, com certeza, influencia a visão de ciência apresentada pelos canais, cujos divulgadores são atores sociais do campo científico e, por isso, carregam representações e visões de mundo particulares a esse grupo sobre a ciência e a prática científica.

Sandro Boechat (@sandro.boechat): Essa linguagem mais moderna reforça esse paradigma atual da ciência ou se ele esconde em si uma visão tradicional de ciência?
Jacqueline Boechat: Olá, irmão! Super gêmeos, ativar! A linguagem mais informal e moderna é uma estratégia para facilitar a aproximação dos divulgadores com o público, o que é bastante louvável. Apesar disso, uma conclusão que se pode tirar, pelo que os resultados da pesquisa apontam, é que os divulgadores ainda não incorporaram no discurso a visão de ciência mais atual, que a linguagem moderna e as referências contemporâneas utilizadas fazem crer.

 

Adequar a linguagem é uma estratégia de aproximação importante, pois identifica o público com o divulgador.



Glauber Gonçalves (@glaubergs): Os vídeos analisados fazem divulgação científica a partir de uma perspectiva mais contemporânea ou acabam por reproduzir modelos antigos, como o de déficit?
Jacqueline Boechat: Glauber, apesar da linguagem mais informal e do uso de referências da cultura pop, o foco está mais na distribuição de informações, de forma unidirecional, que corresponderia a um modelo de déficit. Esse é um modelo ainda recorrente no Brasil, baseado na ideia de que existiria uma insuficiência de conhecimentos científicos básicos por parte da população, que levaria a uma série de implicações negativas aos cidadãos, à ciência e à nação. Tal lacuna deveria ser suprida pelos cientistas, em uma via única de informação, do topo para as massas, com resultados medidos e comparados periodicamente. Essa concepção se afasta das perspectivas mais contemporâneas da divulgação científica, que tem foco no engajamento, segue uma linha dialógica, valoriza
experiências de públicos específicos e de não cientistas, reconhece limitações do conhecimento científico, constrói mecanismos para que cidadãos possam participar de decisões políticas relacionadas à ciência e tecnologia.

Renata Fontanetto (@renata_fontanetto): Por que você escolheu os vídeos de boas-vindas e não vídeos de canais mais famosos do Science Vlogs?
Jacqueline Boechat: Um dos conceitos que usei como base para a análise foi o de contrato de comunicação (da Teoria Semiolinguística de Charaudeau), que é um acordo tácito entre os sujeitos de um ato de linguagem. Isso significa que ambos se reconhecem mutuamente e estabelecem convenções sobre o que se deve ou não falar ou fazer para atingir uma determinada finalidade discursiva. Na playlist de boas-vindas do Science Vlogs Brasil, os divulgadores explicitaram melhor os termos do contrato de comunicação que estavam propondo: sua visão de ciência, do papel deles mesmos como divulgadores científicos e a imagem projetada por eles para o público. Então, para mim, a playlist de boas-vindas funcionou como uma espécie de carta de intenções.

Renata Fontanetto (@renata_fontanetto): O que você achou mais curioso nos seus resultados?
Jacqueline Boechat: Não chega a ser uma curiosidade, mas foi uma surpresa. No início da pesquisa, eu achava que os canais da área das ciências exatas e biológicas fossem quase a totalidade no SVBR, mas descobri que há proporcionalmente uma quantidade expressiva de vlogueiros nas áreas das Ciências Humanas (filosofia, sociologia, história, entre outras). Isso, à primeira vista, não fica evidente, uma vez que as humanidades estão espalhadas, fazendo parte de vários canais.

Carolina Sacramento (@carolinacsacramento): Os vídeos analisados têm acessibilidade embutida, ou pelo menos alguma perspectiva de incorporar recursos de acessibilidade para incluir pessoas com deficiência?
Jacqueline Boechat: Carol, eu não notei nenhum recurso de acessibilidade embutida nos vídeos. Quanto à incorporação desses recursos, isso é indispensável, seja nas novas tecnologias de comunicação ou nos espaços formais e informais de divulgação científica, não só para o Science Vlogs Brasil, mas para quem assume o compromisso de divulgar ciência. Não se faz democratização da informação e do conhecimento se não houver inclusão, assegurando que haja condições e oportunidades iguais para o maior número de pessoas possível, respeitando o direito à informação de todos os grupos.

Ana Cristina Boechat (@anacristina.boechat.1): Você acha que essa proposta de explicar ciência de forma mais descontraída é alcançada nos canais e/ou vídeos disponibilizados no coletivo Science Vlogs Brasil? E o que você sugere para que esse coletivo seja mais divulgado?
Jacqueline Boechat: Com certeza, Cris, a linguagem é bastante informal e descontraída. Acredito que eles já tenham um plano de comunicação e divulgação bem estabelecido e que qualquer sugestão que eu possa dar já tenha sido posta em prática. No entanto, uma estratégia que sempre é bem-vinda é fazer parcerias com as redes de educação pública e particular do país.

Roberto Takata (@rmtakata): Pretende expandir a pesquisa para comparar com canais de temática divergente da corrente principal da ciência - os canais de fringe science, pseudociências e os de curiosidades sem grandes esforços de apuração?
Jacqueline Boechat: Oi, Takata! Não era ainda algo que eu havia pensado, mas certamente é um assunto fascinante, que pode gerar uma multiplicidade de abordagens, quer pelo ponto de vista da pesquisa em comunicação, como em divulgação científica.

Renata Fontanetto (@renata_fontanetto): Qual seria um próximo passo a ser dado nesta pesquisa caso você a levasse para o doutorado?
Jacqueline Boechat: Há diversos caminhos a serem explorados nessa temática dos vlogs de ciência, mas tenho curiosidade e vontade de estudar o ponto de vista do público. Em primeiro lugar, gostaria de conhecer quem é esse público que gosta de ciência - suas características, faixa-etária, formação, gênero, localização geográfica, classe social -, por que se identificam com o discurso do Science Vlogs Brasil e, quem sabe, propor uma estratégia para alcançar aqueles que não fazem parte desse grupo.

Edição: Julianne Gouveia

Publicado em 11/10/2019

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