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Os livros de comentários, que ficam disponíveis para o registro de impressões dos visitantes sobre museus e exposições, são instrumentos importantes para que as instituições compreendam melhor sua relação com o público. Entretanto, são ainda, de certa forma, ignorados por ambos. Kamylla Passos dos Santos, museóloga e agora mestra em Divulgação da Ciência, Tecnologia e Saúde pela Fundação Oswaldo Cruz, buscou compreender a questão na dissertação "Territórios pouco explorados: os registros de visitantes em livros de comentários da Casa da Ciência e Museu Ciência e Vida". Ela analisou mais de 1.500 comentários sobre a experiência dos visitantes nas duas instituições. “O que me motivou para fazer esta pesquisa foi o grande volume de informações geradas em um livro de comentários de apenas uma exposição, e a falta de tempo e/ou interesse das instituições em, pelo menos, pesquisá-los”, explica. Kamylla
responde agora às perguntas enviadas por seguidores nas redes sociais do Museu da Vida.

Conta tudo pra gente, mestra!

Maria Fernanda Marques Fernandes (@mariafernanda.marquesfernandes): Em geral, vejo as pessoas assinando um livro como uma lista de presença. Os comentários são feitos nesse mesmo livro de assinaturas ou o livro de comentários é outro, diferente desse? E existe um mediador ou outro funcionário dos museus incentivando os visitantes a escreverem ou essa participação é totalmente livre, espontânea?

Kamylla Passos: O livro de comentários geralmente é outro, específico para esse fim. Já tive contato, em outra pesquisa, com instituições que usam livro de assinaturas e comentários em um mesmo arquivo, mas é incomum. Quanto à participação, na Casa da Ciência existe incentivo de profissionais do espaço, dependendo da exposição. No Museu Ciência e Vida, não existe esse incentivo, apenas o livro disposto de forma visível na área de entrada e saída. Na maioria dos museus que já visitei e que possuem o livro, as participações são espontâneas.

Lu Cris (@luciana.souza.1610): Como escolher o que perguntar nesses livros? É sempre um desafio pensar nas perguntas de modo que contemple as demandas da instituição e não fique maçante ao público que irá respondê-las...

Kamylla Passos: Os livros de comentários não costumam ter perguntas, principalmente nas instituições que pesquisei. O que já vi, em outros museus, foi solicitarem dados como nome e contato, por exemplo. Perguntas mais específicas aparecem em questionários elaborados pela equipe para serem respondidos pelo visitante com ou sem a ajuda de um profissional. Nesse caso, as perguntas devem partir do que aquele espaço quer saber de seus visitantes.

Lu Cris (@luciana.souza.1610): Quais informações que foram frequentemente solicitadas nesses livros estudados? O que elas contribuem para o estudo de públicos nos museus (ações educativas, agendas expositivas, planos de comunicação)?

Kamylla Passos: O público comentava, de maneira geral, sobre o que mais lhe chamou atenção. Para as instituições museológicas desempenharem melhor suas funções para o fim principal, que é/deve ser o público - e isso engloba principalmente as ações educativas, exposições e comunicação -, é fundamental que se conheça para quem o museu já está falando. Uma das maneiras é o livro de comentários, principalmente por se tratar de uma ferramenta espontânea, onde o visitante escreve o que quiser. Para contribuir efetivamente, é importante estudar esses comentários e aplicar esse estudo na prática museológica para
que esse mesmo público perceba a diferença.

Julianne Gouveia (@julianne.gouveia): O que você registrou de mais positivo na fala dos visitantes? E de negativo?

Kamylla Passos: O que foi registrado de mais positivo foi o empoderamento do público, especialmente daqueles que visitaram o Museu Ciência e Vida. Muitos dos comentários demonstravam segurança no que falavam, especialmente aqueles que faziam exigências e/ou davam sugestões para melhoria. De negativo, surgiram questões muito básicas, como falta de acessibilidade, água, ar-condicionado, extintor de incêndio etc. As instituições museológicas (museus, centros de ciência, zoológicos) precisam ultrapassar essas questões para que o público possa comentar somente sobre a sua experiência.

Ramon Souza (@ramonfeliphe): Qual dos 1.500 comentários analisados mais te instigou e por quê? Parabéns pela pesquisa! ❤️

Kamylla Passos: São muitos os comentários que me davam a certeza de que era uma pesquisa que valia o esforço de todo mundo que contribuiu para sua realização, mas destaco este: “sou deficiente auditiva e não pude acompanhar a visita ao Planetário, uma vez que, no escuro, não há como realizar a leitura labial. Sugiro a instalação de mecanismos de reprodução da fala do guia individuais, como pontos de escuta. Parabéns pela acessibilidade aos cadeirantes (MCV / jun. 2014)”. Esse comentário me instigou logo na primeira leitura e, depois de digitação de todos os comentários na planilha, análise, escrita da dissertação, ainda chama minha atenção pela clareza da definição de exclusão. Uma outra questão também muito forte nos comentários é o agradecimento por questões
básicas e primordiais, como acessibilidade, a instituições públicas mantidas com nossos impostos.

Julianne Gouveia (@_amarelodeserto): Pelas respostas, qual é a visão geral que os visitantes possuem dos museus de ciência?

Kamylla Passos: Estudei dois espaços e, a partir dos comentários, a maior parte demonstrou afetividade, em maioria, positiva. Também falaram muito sobre a equipe e as temáticas científicas retratadas nas exposições. 

Anderson Ferreira (@ferrarius.bio): Tenho a impressão de que os museus impactam especialmente as crianças. Em sua pesquisa você detectou impressões dos adultos no que se refere às crianças que eles levaram aos Museus?

Kamylla Passos: A pesquisa demonstrou, na categoria de Ciência e Aprendizagem, uma preocupação grande com a aprendizagem das crianças, como se elas estivessem ali para esse único fim. Visto que os centros de ciência são também espaços de lazer e não só de aprendizagem como uma extensão da escola, instituição museológica é independente da lógica escolar.

Sheila Mueller (@sheilamueller): A base teórica utilizada pela autora foi a de Estudos de Usuário, das Ciências da Informação?

Kamylla Passos: A base teórica utilizada, entre várias autoras das ciências humanas, foi os estudos de Laurence Bardin (1977) em análise de conteúdo - no caso, os comentários analisados a partir de sete categorias: acessibilidade, afetividade, ciência e aprendizagem, equipe, exposição, infraestrutura e papel dos espaços museológicos na sociedade.

Julianne Gouveia (@julianne.gouveia): Os livros de comentários costumam ser esquecidos pelo público. Muita gente deixa de preencher por pressa, falta de tempo e até uma certa preguiça de escrever em papel. Como esse instrumento poderia ser melhor aproveitado e mais fomentado pelas instituições, na sua opinião?

Kamylla Passos: Julianne, você está certa. As instituições não costumam aproveitar a potencialidade do livro de comentários. Quando os têm, o público também tende a não aproveitá-lo pelas razões levantadas por você e também por desconhecer o recurso, não acreditar que mudanças podem acontecer e outros motivos. Acredito que o caminho é um maior diálogo entre os profissionais com os públicos, bem como uma melhor comunicação visual para que a pessoa, sozinha, possa visualizar o livro e fazer seu comentário, dispondo, claro, recursos para tal: um espaço confortável, da altura média dos visitantes, caneta e até lápis de cor para livre expressão, inclusive de crianças.

Maria Fernanda Marques Fernandes (@mariafernanda.marquesfernandes): Outra pergunta: cada vez mais, os museus se fazem presentes nas mídias sociais, como Facebook e Instagram. Não estariam os comentários migrando dos cadernos de papel para essas plataformas digitais? Obrigada!

Kamylla Passos: Sempre me fazem essa pergunta e ela é ótima. Mas acredito que comentários em livros físicos e nas redes sociais podem ser recursos aliados. Levando em consideração que os livros são interessantes por sua instantaneidade, devendo estar disponíveis logo após o fim da exposição ou saída do museu. Além disso, nem todo brasileiro possui acesso à internet no país, ainda que grande parte dos públicos dos museus tenham, mas estamos buscando diferentes públicos.

 

(Edição: Julianne Gouveia)

Publicado em 16/8/2019.

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