
Informativo do Núcleo de Estudos da Divulgação Científica do Museu da Vida
Ano XXII - nº. 334. RJ, 6 de abril de 2026.
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“Pombal: do mangue ao mundo” é o nome da nova exposição de longa duração do Museu da Vida Fiocruz (MVF). Fruto de anos de trabalho colaborativo, envolvendo vários pesquisadores e profissionais de dentro e de fora do museu, a mostra convida o visitante a refletir sobre a relação entre saúde e ambiente. A inauguração do novo espaço de visitação do MVF integra as ações do Plano de Requalificação das construções históricas da Fiocruz. A exposição ocupa o antigo biotério da fundação, instalado em 1904 no campus de Manguinhos com o objetivo de fortalecer a pesquisa experimental na instituição. Esta é a primeira vez que o local é aberto ao público, que vai encontrar nele vídeos, áudios, jogos e atividades interativas que privilegiam a experiência analógica e a troca entre os visitantes. Saiba como e quando visitar a mostra na seção ‘Ações’ desta edição do Ciência & Sociedade, onde você também vai encontrar informações sobre novo boletim da Fiocruz voltado às relações entre saúde e clima e sobre o Abril Indígena na fundação, com uma rica programação de atividades em torno da saúde indígena. Ainda no CS deste mês, leia sobre fatores relacionados à confiança pública na ciência, sobre as lições de comunicação do Bad Bunny acerca das mudanças climáticas e sobre a presença das ciências na Música Popular Brasileira. Estes são apenas alguns dos destaques do boletim de abril, no qual você encontrará outras dicas de leituras, ações, eventos e oportunidades no campo da divulgação científica. Confira!
Leituras
Integridade gera confiança – Quando a ciência é chamada para resolver vários desafios da atualidade e, ao mesmo tempo, é questionada e ameaçada por vários setores da sociedade, compreender como construir e manter a confiança na ciência – por mais imperfeita que ela seja – é crucial. Nesse sentido, destacamos o esforço compartilhado no artigo “Public Trust in Science: A Systematic Literature Review”, publicado em março no Journal of Academic Ethics. Nele, Kalypso Iordanou, Antonis Antoniou e Maura De Vos analisam 124 estudos empíricos buscando identificar neles fatores que influenciam a confiança pública na ciência. Como esperado, os autores encontraram múltiplos fatores associados à credibilidade da ciência, os quais organizaram em três categorias principais: ligados ao (a) receptor, envolvendo características individuais relacionadas ao público, como crenças, atitudes e valores; (b) à mensagem, com aspectos associados à informação científica em si e sua transmissão, como reputação dos veículos informativos; e à (c) fonte, incluindo fatores que dizem respeito aos cientistas e às práticas científicas, como a replicabilidade e a ciência aberta. Os resultados do trabalho apontam o papel fundamental da integridade na pesquisa para fomentar e manter a confiança pública na ciência, sendo esta associada à integridade dos cientistas, as práticas científicas que apoiam a transparência e a inclusão epistêmica, ou seja, a incorporação de outros saberes e práticas no diálogo entre ciência e sociedade. Estes dados são importantes tanto para orientar práticas de pesquisa quanto de divulgação científica. Nesse sentido, vale mencionar o caso da suspeita de roubo de material biológico na Unicamp que ganhou repercussão nacional. Se por um lado, ele expõe um ato grave de falta de integridade na ciência, por outro, os devidos esclarecimento do ocorrido e punição dos envolvidos, bem como uma adequada apuração e comunicação dos acontecimentos podem contribuir para fomentar a confiança na ciência e em sua divulgação. Acesse o artigo, publicado em acesso aberto aqui.
Divulgação da ciência em meio à polarização política – Assim como toda atividade humana, a ciência é atravessada por questões sociais, culturais e econômicas. A partir da pandemia de Covid-19, por exemplo, as relações entre a prática científica e a política no Brasil ficaram mais explícitas, dado o cenário de intensa polarização. No texto “The politics of (mis)trust: reframing science communication in a polarized Brazil”, publicado em março no Journal of Science Communication, os autores relembram que a ascensão da extrema direita, consolidada com a eleição de Jair Bolsonaro em 2018, intensificou discursos negacionistas, desinformação e ataques à ciência, afetando a percepção pública e a confiança em instituições científicas. Mídia tradicional e redes sociais também desempenharam papel relevante: a cobertura jornalística frequentemente enfatizou conflitos políticos em detrimento de informações científicas, enquanto, nas redes sociais, o debate sobre vacinas foi dominado por figuras políticas, celebridades e influenciadores. Nesse quadro, o artigo propõe uma reconfiguração da divulgação científica, entendendo-a como uma prática democrática, dialógica e culturalmente situada. Entre as recomendações estão: fortalecer instituições públicas de ciência; investir na formação de cientistas e comunicadores para lidar com dinâmicas digitais e emocionais; adotar estratégias participativas e narrativas; e reconhecer a diversidade de saberes, incluindo os locais e indígenas. Leia gratuitamente, em inglês, neste link.
Nem tão Bad assim – Primeiro lugar no Spotify global, com mais de 100 milhões de ouvintes mensais, e tema de infinitos memes pelas músicas, postura política e pelo sex appeal, o cantor porto-riquenho Bad Bunny foi a grande atração do intervalo do Super Bowl deste ano, pico de audiência da TV nos Estados Unidos, e acertou mais uma: enalteceu a cultura latino-americana e ainda chamou atenção para as mudanças climáticas, como analisa o texto “Wondering How to Talk About Climate Change? Take a Lesson from Bad Bunny”, publicado no site Inside Climate News. A matéria destaca que, quando Bad Bunny subiu em postes elétricos quebrados durante sua apresentação no intervalo do Super Bowl, milhões de espectadores assistiram a um espetáculo, mas divulgadores de ciência tiveram uma lição sobre como falar de mudanças climáticas para um público amplo. “A performance, que atraiu mais de 100 milhões de telespectadores nos EUA no mês passado, destacou a fragilidade do sistema elétrico de Porto Rico, devastado por furacões agravados pelas mudanças climáticas”, frisa o texto. Como comenta um dos entrevistados, todo mundo entende música pop e, gostando ou não, vai ter contato com ela. Leia o texto na íntegra aqui.
A ciência que ecoa dos versos – As ciências e as inovações tecnológicas permeiam profundamente o cotidiano humano, uma influência que ecoa na Música Popular Brasileira. Essa conexão é o tema central do artigo "A ciência nas letras da Música Popular Brasileira", publicado na revista Ciência e Cultura, que analisa como o cancioneiro nacional se apropriou de conhecimentos científicos e marcos tecnológicos em diferentes épocas e estilos. Da canção “Pelo Telefone” (1917), de Donga e Mario de Almeida, até o álbum “Carbono” (2015), de Lenine, o autor cobre um arco temporal de 98 anos. A partir de um levantamento extensivo, com ao menos 40 letras citadas — entre canções individuais e menções a álbuns temáticos —, momentos-chave de integração entre ciência, tecnologia e comportamento social são destacados. A fronteira tecnológica aparece no impacto das telecomunicações e na mística da era espacial, enquanto o microcosmo e a energia são explorados através dos conceitos da física quântica, dos dilemas éticos e do potencial de aplicação que cercam a energia nuclear. Já as ciências da vida se inserem nas canções por meio das descobertas da medicina, da química e da biologia aplicadas ao cotidiano das pessoas. Mais do que simples citações, a análise revela como a ciência tem sido matéria-prima tanto para a reflexão cultural quanto para a criação de "mosaicos poético-científicos" na MPB, como destaca o autor. Leia o artigo completo aqui.
Ações
Museu da Vida Fiocruz abre nova exposição – Em 1904, a construção de um novo biotério em Manguinhos fortalecia a medicina experimental no instituto liderado por Oswaldo Cruz. Essa construção centenária – composta por oito viveiros, tanques e uma torre com pombal para pombos-correio – abre seus portões pela primeira vez ao público com uma exposição que convida o visitante a refletir sobre a relação entre ambiente e saúde. Lançada pelo Museu da Vida Fiocruz (MVF), a mostra “Pombal: do mangue ao mundo” trata do tema a partir das transformações ocorridas em Manguinhos desde 1900, como a destruição do manguezal da região. Instalada nos antigos viveiros, a exposição conta com atividades interativas, vídeos, áudios e jogos, que privilegiam a experiência analógica e a troca entre os visitantes. O espaço inclui recursos de acessibilidade e mobiliário adaptado para pessoas com baixa mobilidade. O novo local de visitação do MVF, uma ação do Plano de Requalificação das construções históricas da Fiocruz, funciona de terça a sexta, das 9h às 16h30, e aos sábados, das 10h às 16h. A visita é gratuita! Mais informações neste link.
Novo boletim aborda relação entre saúde e clima – Ecos do Futuro é o nome do novo boletim quinzenal da Estratégia Fiocruz para a Agenda 2030 (EFA), que marca o compromisso da fundação com os Objetivos de Desenvolvimento Sustentável da Agenda 2030. Em cada edição, o boletim traz ações, colaborações e encaminhamentos relevantes da EFA, reportagens especiais que abordam clima e saúde, investigando como as mudanças ambientais afetam a saúde pública, além de sugestões de leituras, vídeos, podcasts e eventos. O boletim também tem como compromisso fomentar o debate sobre as estratégias interdisciplinares baseadas no conceito de Uma Só Saúde (One Health), que liga a saúde humana, animal e ambiental, entre outras pautas. A ideia é que o Ecos do Futuro seja um espaço para a troca de ideias, o fortalecimento de redes e o incentivo à cultura institucional focada no desenvolvimento sustentável. Faça sua inscrição para receber o boletim gratuitamente em aqui.
Abril Indígena na Fiocruz – Ao longo de todo o mês de abril, o campus Manguinhos da Fiocruz no Rio de Janeiro será palco de diversas atividades que buscam fortalecer o diálogo sobre saúde indígena, com protagonismo indígena. A programação inclui mostra de filmes, rodas de conversa, lançamento de podcast e cobertura especial do Acampamento Terra Livre. As ações, promovidas pelo Museu da Vida Fiocruz e pela Cátedra Oswaldo Cruz de Ciência, Saúde e Cultura, integram o 2º Abril Indígena. Mais informações neste link.
Eventos
Chamada para apresentação de trabalhos no EBDC – O 4º Encontro Brasileiro de Divulgação Científica (EBDC) acontecerá de 5 a 7/9, em São Paulo, no Instituto Principia. Nesta edição, as discussões girarão em torno do tema central “Sul como Centro”. As inscrições para submissão de trabalhos estarão abertas de 7 a 19/4, nas modalidades “artigo completo” e “resumo expandido”, podendo ser resultado de pesquisa acadêmica ou relato de experiência. Confira o edital completo no site do EBDC.
Mudanças climáticas e museus de ciências – De 24 a 29/8 acontece no Museu de Astronomia e Ciências Afins (Mast) o Encontro Internacional de Práticas Educativas em Museus de C&T - Mudanças Climáticas em pauta. O evento visa abordar a centralidade dos desafios e potencialidades da educação museal e da divulgação científica para a solução de problemas sociocientíficos em diferentes níveis de abrangência. Até 10/4 é possível se inscrever no edital social do evento, que isenta os contemplados da taxa para participação. Mais informações aqui.
I Congresso Brasileiro de Filosofia da Ciência – Termina em 30/4 o prazo para submissão de comunicações do evento, que ocorrerá na USP de 13 a 17/7, presencialmente, e em 18/7, remotamente. Dentre os temas contemplados estão “Tópicos de história da ciência”, como história filosófica da ciência e epistemologia histórica, e “Filosofia das ciências da vida”, como filosofia da ecologia e filosofia da biomedicina. Saiba mais.
Oportunidades
Últimos dias de inscrição para especialização a distância – A Universidade Nacional de Quilmes (UNQ), instituição argentina pioneira na educação a distância na América Latina, recebe, até o dia 13/4, inscrições para a especialização Comunicación, Gestión y Producción Cultural de la Ciencia y la Tecnología. O curso é virtual, com carga horária total de 378h, e visa formar profissionais para a criação de conteúdos e produtos culturais de base científica e tecnológica em diversos formatos. Confira os detalhes neste link.
Tem uma sugestão de notinha para a próxima edição do boletim Ciência & Sociedade? Oba! Envie para o e-mail <
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Ciência & Sociedade é o informativo eletrônico do Núcleo de Estudos da Divulgação Científica do Museu da Vida (Casa de Oswaldo Cruz/Fiocruz). Editores de Ciência & Sociedade: Carla Almeida e Marina Ramalho. Redatores: Luís Amorim e Rosicler Neves. Projeto gráfico: Barbara Mello. Informações, sugestões, comentários, críticas etc. são bem-vindos pelo endereço eletrônico <
Publicado em 13 de março de 2026.


