Por Pedro Paulo Soares, Inês Nogueira e Maria Alana Alves Rodrigues

Ih, olha ali o Oswaldo Cruz numa medalha! Vamos conhecer a história por trás desse objeto? Essa medalha comemorativa simboliza uma importante manifestação de reconhecimento da classe médica brasileira aos trabalhos realizados por Oswaldo Cruz na gestão do Instituto de Manguinhos e na Diretoria Geral de Saúde Pública – cargo equivalente ao de ministro da Saúde hoje em dia.
Por ocasião do 4º Congresso Médico Latino-Americano, realizado entre os dias 1 e 8 de agosto de 1909, no Rio de Janeiro, um número expressivo de profissionais da saúde de diversos países da América Latina se reuniu para trocar conhecimentos e apresentar novidades no campo da higiene e no modo de adotar medidas uniformes para as questões sanitárias.
Durante o evento, o periódico semanal especializado em medicina e cirurgia, “Brasil-Médico”, tomou a iniciativa de reunir os maiores representantes da medicina do país com o objetivo de levantar fundos para confeccionar uma medalha de ouro como forma de homenagear Oswaldo Cruz por suas ações de saneamento na cidade. Admiravam, principalmente, como o gestor mostrou uma postura inabalável, mesmo frente à uma inundação de críticas feitas nos jornais da época e nas ruas da cidade.


As ações e campanhas sanitárias naturalmente foram muito benéficas para a cidade do Rio de Janeiro. O médico e escritor Afrânio Peixoto enalteceu o congresso como “muito mais uma festa ruidosa de inteligência que uma feira científica de utilidade humana”, ressaltando que “nós, brasileiros, oferecemos uma formosa exposição de higiene no Rio de Janeiro saneado”. Ainda assim, o processo esteve longe de ser isento de tensões. As críticas apontavam que a condução das políticas sanitárias se deu no interior de uma cultura científica e administrativa que recorreu, em diferentes momentos, a práticas coercitivas e excludentes.
O artista escolhido para o trabalho de confecção da medalha foi o escultor e gravador francês Charles Pillet (1869-1960). Há detalhes na medalha elaborada por Pillet que merecem uma atenção especial: em relevo, há uma figura de Oswaldo Cruz com a inscrição “Homenagem da Classe Médica ao Dr. Oswaldo Cruz, Rio de Janeiro, 1909”. No verso, há a reprodução, também em relevo, do Castelo Mourisco, sede do Instituto que depois se tornaria Instituto Oswaldo Cruz. Além disso, é possível observar duas legendas em latim: “O conhecimento da causa da moléstia basta muitas vezes para extingui-la”, do médico e escritor romano Celso; e um trecho retirado do poema épico “Eneida”, de Vergílio, que diz que deve ser celebrada a glória dos que em vida praticam ações dignas de memória.

Figura 4. O Dr. Oswaldo Cruz e os médicos paulistas que o foram saudar e visitar o Instituto de seu nome. Revista Careta, n. 63, 14 de agosto de 1909. Crédito: Hemeroteca Digital Brasileira da Biblioteca Nacional.

O mesmo periódico que organizou a "vaquinha" para a confecção da medalha fez um extenso relato do dia da entrega. Uma comitiva de congressistas, que partiu em um trem especial da Companhia Leopoldina para a cerimônia de entrega da medalha no Instituto Oswaldo Cruz, em Manguinhos. O dia contou com homenagens e discursos emocionados dos organizadores do congresso e membros do governo.
Além da medalha de ouro, também foram cunhadas 20 em prata, para presentear os institutos bacteriológicos estrangeiros, e mais 50 em cobre, para instituições nacionais. Oswaldo Cruz, homenageado com a medalha de ouro, recebeu um álbum com detalhes também em ouro e uma longa dedicatória com a assinatura das pessoas envolvidas com a homenagem. O dia escolhido para a entrega foi estratégico: às 9h do dia 5 de agosto, aniversário do médico brasileiro. O dia foi marcado, também, por uma extensa visita dos congressistas ao Instituto. Os jornais da época noticiaram a presença de uma multidão a caminho do Instituto Oswaldo Cruz. Já imaginou? No final, como diz o ditado, "tudo acabou em pizza": foi servida até uma colação para proveito de todos. Deve ter sido um dia e tanto!
Hoje essa medalha, entre tantas outras, está sob os cuidados do Serviço de Museologia do Museu da Vida Fiocruz. Ela é composta por ouro, um material reconhecido por ser muito resistente. Ainda assim, zelamos por sua preservação mantendo devidamente acondicionada em local arejado, limpo e bem longe de insetos. Esse comprometimento em proteger o patrimônio é tamanho que essa equipe talvez merecesse sua própria medalha um dia, não acham? Afinal, esse esforço também faz parte do legado de excelência da instituição!
Informações técnicas do objeto:
Medalha de Homenagem da Classe Médica ao Dr. Oswaldo Cruz.
Ano: 1909
Material: Ouro
Autor: Charles Pillet
Local: Brasil
Dimensões: 5 cm
Coleção: Oswaldo Cruz
Proveniência: Museu Oswaldo Cruz
Acesse na Base Museu: https://basemuseu.coc.fiocruz.br/inweb/ficha.aspx?id=1782&ns=216000&Lang=BR
Referências:
BRITTO, Nara. Oswaldo Cruz: a construção de um mito na ciência brasileira. Rio de Janeiro: Fiocruz, 1995. Disponível em: <https://play.google.com/books/reader?id=S7UXBAAAQBAJ&hl=pt-BR&printsec=frontcover&pg=GBS.PP1> Acessado: agosto, 2017.
GUERRA, E. Sales. Osvaldo Cruz. Rio de Janeiro: Vechi, 1940.
Créditos:
SOARES, Pedro Paulo; NOGUEIRA, Inês Santos; RODRIGUES, Maria Alana Alves. Objeto em Foco: Medalha da Exposição de Higiene do 4º Congresso Médico Latino-Americano. In: Museu da Vida Fiocruz.
Publicado em 29/8/2018. Atualizado em 14 de maio de 2026.


