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Por Inês Nogueira e Maria Alana Alves Rodrigues

Figura 1. Vacina anticarbunculosa Manguinhos também conhecida como vacina contra o carbúnculo hemático. Crédito: Acervo do Museu da Vida Fiocruz

Você sabia que existem vacinas para gado? O Objeto em Foco deste mês é a vacina anticarbunculosa, tecnologia produzida pelo Instituto Oswaldo Cruz na primeira metade do século 20. O produto previne o carbúnculo, doença infecciosa que, em 1908, era responsável pela morte de cerca de 50% do gado das fazendas mineiras. Também representava uma ameaça a outras regiões pecuaristas do interior do Brasil e dos demais países da América do Sul.

Um dos principais fatores que contribuiu para o desenvolvimento da vacina foi a ampliação do conhecimento acerca da própria doença, ou melhor, a diferenciação das duas formas da doença: o carbúnculo sintomático e o carbúnculo hemático.

Carbúnculo sintomático X carbúnculo hemático

Embora apresentem características semelhantes, como inchaços e rápida evolução para a morte, o carbúnculo sintomático e o carbúnculo hemático são doenças distintas, com agentes, mecanismos e formas de prevenção próprias. Mas por muito tempo, só era possível diferenciá-los melhor na análise do animal já morto (necropsia).

Durante o século 20, essas duas doenças foram categorizadas como epizootias, ou seja, epidemias que ocorriam entre a população animal não humana.

O carbúnculo hemático (também chamado de verdadeiro, bacteriano, antraz) é causado pela bactéria Bacillus anthracis. Ele afeta bovinos, ovinos e caprinos e também pode ser transmitida para os seres humanos, principalmente, a partir do contato com animais ou produtos animais infectados, pelo consumo de carne contaminada ou por via inalatória (esporos da bactéria no ar). Desde os anos 2000, o antraz voltou a ser uma palavra que gera preocupação após ser usado como arma biológica de bioterrorismo nos Estados Unidos após os ataques de 11 de setembro de 2001.

Já o carbúnculo sintomático (também chamado de peste da manqueira, quarto inchado e mal de ano) é uma doença causada pela bactéria Clostridium chauvoei. Ela acomete vários animais, principalmente, bovinos e ovinos. Tanto no carbúnculo hemático quanto no carbúnculo sintomático a principal fonte de infecção do gado é a ingestão de pasto contaminado por esporos da bactéria.

As vacinas anticarbunculosas

Figura 2. Embalagem da Vacina Contra a Peste da Manqueira. Crédito: Base Arch/COC

Ainda em meados de 1881, o cientista francês Louis Pasteur desenvolveu uma vacina contra o carbúnculo hemático. No Brasil, ela foi reproduzida e comercializada no Instituto Pasteur de São Paulo.

Como a agricultura é uma das grandes forças econômicas nacionais, desde o início da República até os dias de hoje, também houve esforço para o desenvolvimento de uma vacina contra o carbúnculo causado pelo Clostridium chauvoei.

Oswaldo Cruz, Diretor Geral de Saúde Pública e do Instituto de Manguinhos, reuniu dois pesquisadores, Ezequiel Dias e Rocha Lima, para desenvolver pesquisas sobre o carbúnculo sintomático. Após Rocha Lima conseguir cultivar colônias anaeróbicas do microrganismo, Alcides Godoy começou a chefiar o projeto de pesquisa sobre a manqueira, uma vez que a vacina anticarbunculosa (contra o antraz) já era comercializada e produzida por Dr. João Batista Lacerda.

A competência de Dr. Godoy era um dos pontos de confiança de Oswaldo Cruz. Ele estava entre os cinco nomes possíveis na linha de sucessão da direção, e já assumia este cargo como substituto na ausência de Oswaldo Cruz e Carlos Chagas. Alcides Godoy começou no Serviço de Profilaxia da Febre Amarela em 1903, quando era ainda um estudante de medicina. Além dos projetos de pesquisas sobre os carbúnculos, Godoy foi também professor do curso de aplicação do Instituto, oferecendo treinamento experimental nas áreas de microbiologia e zoologia médica, auxiliou na produção de soros antidiftérico e antitetânico, além de dosagem do soro.

A inovação de Godoy consistiu em isolar o microrganismo responsável pela doença em meios com glicose, já que cientistas não-brasileiros isolavam o bacilo de outra maneira. O Instituto Oswaldo Cruz leva o crédito por ser o lugar de descoberta da vacina contra o carbúnculo sintomático com gérmens vivos. A partir disso, o Instituto forneceu diversos lotes de doses de ambas as vacinas (contra a manqueira e a anticarbunculosa de Pasteur) para a Secretaria de Estado da Agricultura, Indústria e Comércio.

Com a ascensão e o aprofundamento da microbiologia e da bacteriologia ao redor do mundo, a colaboração entre pesquisadores de diferentes lugares foi essencial para esse processo de inovação. Com base em alguns trabalhos europeus de Arloing, Cornevin e Thomas, os pesquisadores de Manguinhos focaram em resolver as dificuldades que a metodologia estrangeira do projeto sobre o carbúnculo apresentava dentro das especificidades do contexto brasileiro.

Figura 3. Folheto de solicitação de vacinas ao Instituto Oswaldo Cruz. Crédito: Base Arch/COC

 

Efeitos das inovações

O desenvolvimento da vacina contra a manqueira (carbúnculo sintomático) transformou o país. Alcides Godoy iniciou os testes com alguns pecuaristas de Minas Gerais – que já haviam ajudado previamente com o envio de um animal doente para pesquisa. O sucesso era enorme e a alta circulação da vacina era justificada pela facilidade do uso: a aplicação podia ser feita pelo próprio pecuarista ou trabalhador responsável pelo gado, desde que cumprisse as instruções contidas na embalagem da ampola.

 

Figura 4: Reprodução de selo de produto fabricado pelo IOC. Crédito: Base Arch/COC

Em discussões sobre o destino dos lucros da vacina, os trabalhadores da instituição se dividiram com opiniões diferentes: alguns defendiam que o dinheiro deveria ser direcionado para a compra de materiais para os laboratórios; outros acreditavam na divisão igualitária dos lucros entre os pesquisadores envolvidos no processo como bônus salarial; Oswaldo, por fim, decidiu que essa verba pertencia aos inventores da vacina. A vacina foi, então, patenteada em novembro de 1908.

Entretanto, Alcides Godoy cedeu a responsabilidade da inovação à instituição em 1909, desde que prometessem que o dinheiro fosse aplicado em melhorias. Isso não significou que os inventores ficariam de mãos vazias, pois uma pequena porcentagem dos lucros ainda era direcionada a eles. O antigo diretor e patrono da instituição acreditava que essa solução não só agradava os seus colegas, mas também funcionava como incentivo à inovação científica.

 

Encontro de gigantes e mais uma vacina!

As “verbas da manqueira” foram usadas para além do enriquecimento da Biblioteca de Manguinhos e foram essenciais para manter a instituição pagando salários, custeando construções e garantindo a autonomia financeira.

A contratação de pessoal financiada a partir desse lucro trouxe nomes importantes: Adolpho Lutz, Gaspar Viana, Leocádio Chaves, Eurico Vilela e Astrogildo Machado. Esse último nome começou no Instituto trabalhando em parasitologia, tendo destaque em seu trabalho com Chagas em Lassance. A partir daí, suas pesquisas voltam-se para as áreas da imunologia, gerando importantes aperfeiçoamentos na técnica de preparo de soros. Nessa área específica da imunologia, inicia-se a colaboração entre Astrogildo Machado e Alcides Godoy.

Figura 5. Retrato de Alcides Godoy. Crédito: Base Arch/COC

 

 

Figura 6. Retrato de Astrogildo Machado. Crédito: Base Arch/COC

 

A parceria deu tão certo que, mais tarde, os dois pesquisadores desenvolveram uma vacina contra o carbúnculo hemático, o antraz, seguindo técnica diferente daquela criada por Pasteur. Patenteada em fevereiro de 1919, a vacina anticarbunculosa Manguinhos seguia o exemplo da vacina contra a manqueira: além de ajudar com as despesas da instituição, os inventores ficaram com 12,5% do lucro.

É necessário lembrar que a vacina de Pasteur contra o carbúnculo hemático continuava a ser produzida e circulava simultaneamente com a vacina de Manguinhos, apesar da diferença de preço e de técnicas aplicadas na produção. Ambas utilizavam os próprios organismos causadores da doença e, para atenuar a capacidade infecciosa do microrganismo, utilizavam a técnica de enfraquecimento da bactéria por meio do calor e da pressão do oxigênio nessa temperatura.

O processo de vacinação de Pasteur, no entanto, era mais complicado: eram necessárias duas doses, uma fraca e outra forte, aplicadas entre um intervalo de 10 a 12 dias. Dada a complexidade de reprodução, países latino-americanos se dedicavam a fabricar uma dose única. Porém, essas alternativas demoravam a imunizar os animais e a conservação das doses possuía uma duração curta.

É nesse contexto que a dupla de cientistas brasileiros se destaca por sua inventividade. A vacina anticarbunculosa Manguinhos foi criada a partir da mistura de esporos (ou seja, de diferentes linhagens bacterianas) com diferentes níveis de enfraquecimento. Essa técnica fazia a imunidade surgir rapidamente, entre três e seis dias após a aplicação, mantendo a proteção do animal contra a doença por pelo menos um ano. A vacina era aplicada apenas uma vez, apesar da quantidade da dose variar com a idade do animal. Como bônus, as ampolas podiam ser armazenadas por 15 meses, no mínimo.

Figura 7. Lista de relação e preço de produtos oferecidos pelo Instituto Oswaldo Cruz em 1933. Crédito: Base Arch/COC


Nem tudo são flores

A reforma do Ministério da Educação e Saúde do país em 1937 proibiu que as instituições de saúde aplicassem diretamente o lucro das vendas das vacinas no custeio dos serviços institucionais. Era necessário que o dinheiro fosse encaminhado diretamente ao Ministério e as despesas da produção seriam pagas posteriormente. Para piorar, ocorreu também a proibição da fabricação e comercialização de todos os produtos veterinários do Instituto Oswaldo Cruz. Para ter ideia do impacto financeiro na instituição, as duas vacinas veterinárias eram os dois produtos mais vendidos entre 1907 e 1939.

Esse contexto levou Godoy e Machado a criarem a firma Produtos Veterinários Manguinhos Ltda. em 1939, para continuarem a fabricação e comercialização das vacinas da manqueira, do carbúnculo hemático e da vacina contra a pneumoenterite dos porcos, sendo esta desenvolvida mais adiante. A empresa foi gerida pela família de Godoy e Machado ao longo dos anos. O primeiro endereço do laboratório foi em prédio nos fundos do Hospital Gaffrée Guinle, no Maracanã, zona norte do Rio de Janeiro. Na década de 1960, a família Godoy saiu da empresa, que ficou sob responsabilidade da família de Machado. A empresa foi vendida pelos seus descendentes.

Mesmo nessas condições, a vacina continuou salvando inúmeras vidas. Argentina e Uruguai, países vizinhos que também sofriam com a epizootia, mencionavam terem suas pecuárias nacionais salvas com a invenção e/ou inovação desses dois imunobiológicos. Curiosamente, a vacina anticarbunculosa Manguinhos que está sob a guarda do Museu da Vida Fiocruz está rotulada em espanhol e, possivelmente, fazia parte de uma remessa que iria para um dos países latino-americanos.

Dados mostram que Minas Gerais e São Paulo, na época, eram os dois estados com maior concentração de gados diversos e conduziam uma transição da economia agrária para a industrial. Sendo assim, a distribuição da vacina foi importantíssima para garantir uma transição econômica equilibrada. A inventividade de Manguinhos também foi aplaudida pelo ilustre Delfim Moreira, governador do estado de Minas Gerais até 1918.

Figura 8. População pecuária do Brasil segundo o censo realizado em 1920. Crédito: IBGE

Atualidade

Hoje, a vacina anticarbunculosa, tem regras de biossegurança próprias para sua produção, conservação e comercialização, estabelecidas entre as décadas de 1960 e 1970 pelo Ministério da Agricultura.

A vacina anticarbunculosa Manguinhos é uma das marcas da autossuficiência nacional em imunobiológicos graças à colaboração internacional entre pesquisadores e cientistas. Além disso, representa a importância dos incentivos para a pesquisa, que contribuiu não só para a ciência veterinária, mas também para a saúde humana, uma vez que, após o controle da mortalidade dos gados, a carne voltou ao prato dos brasileiros com maior segurança.

 

Informações técnicas do objeto:

Objeto: Vacina Anticarbunculosa

Fabricante: Instituto Oswaldo Cruz

Origem: Rio de Janeiro, Brasil

Época: [1930]

Material: Caixa de madeira, com pregos na extremidade; Embalagem das ampolas é papel policromado; Ampolas de vidro transparente.

Dimensões: 10 x 1,60 cm (ampola sem embalagem)

Procedência: Museu Oswaldo Cruz

Acesse na Base Museu: https://basemuseu.coc.fiocruz.br/inweb/ficha.aspx?id=1928&ns=216000&Lang=BR

 

Referências:

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BENCHIMOL, JL., coord. Febre amarela: a doença e a vacina, uma história inacabada. Rio de Janeiro: Editora FIOCRUZ, 2001. 470 p. ISBN 85-85676-98-1. Available from SciELO Books: <http://books.scielo.org>.

BLOG DOS INVENTORES. Vacina Contra o Antraz. Registros e Patentes | Como Patentear, 15 jan. 2012. Disponível em: <https://inventores.com.br/vacina-contra-o-antraz/>.

CHAMAS, Claudia Inês. A Propriedade Intelectual e a Vacina Contra a Peste Da Manqueira. Revista Brasileira de Inovação, v. 5, n. 1, p. 203-218, 2006.

FIORAVANTI, Carlos. Radiografia do campo: em 1920, primeiro Censo Agropecuário do Brasil identificou a transição da economia agrícola para a industrial. Revista Pesquisa

FAPESP, edição 289, mar. 2020. Disponível em: <https://revistapesquisa.fapesp.br/radiografia-do-campo/>.

GODOY, Alcides. Nova vacina contra o carbúnculo sintomático. Memórias do Instituto Oswaldo Cruz, v. 2, p. 11-21, 1910.

MORAES, Alice Ferry de. Informação e inovação na vacina da peste da manqueira. Informação & Sociedade: Estudos, João Pessoa, v. 18, n. 3, p. 97-103, set./dez. 2008.

PONTE, Carlos Fidelis da. Pesquisa versus Produção em Manguinhos: constrangimentos e perspectivas de desenvolvimento tecnológico em uma instituição pública. Rio de Janeiro, 2012. Tese (Doutorado em Políticas Públicas e Estratégias de Desenvolvimento). Instituto de Economia, Universidade Federal do Rio de Janeiro, Rio de Janeiro, 2012.

RIBEIRO, Maria Alice Rosa. Lições para a história das ciências no Brasil: Instituto Pasteur de São Paulo. História, Ciências, Saúde-Manguinhos, v. 3, p. 467-484, 1996.

SCHANG, Pedro J. A los ochenta años de la vacuna anticarbunclosa de Pasteur. Academia Nacional de Agronomía y Veterinaria, 1961.

TAVEIRA, Albino A. Resumo histórico da vacina contra o carbúnculo sintomático (peste da Manqueira). Fundo Instituto Oswaldo Cruz, seção Serviço de Administração, série Administração Geral, caixa 13, maço 2. 26 out. 1944. Disponível para consulta no Arquivo da Casa de Oswaldo Cruz.

ZABALA, Juan Pablo; ROJAS, Nicolás Facundo. La producción de vacunas en el Instituto Bacteriológico del Departamento Nacional de Higiene: racionalidades sanitaria, comercial y científico-técnica (1913-1921). Astrolabio. Nueva Época, n. 29, p. 2-34, 2022.

 

Créditos:

RODRIGUES, Maria Alana Alves; NOGUEIRA, Inês Santos. Objeto em Foco: Vacina Anticarbunculosa. In: Museu da Vida Fiocruz. Publicado em 27 de março de 2026.

 

Publicado em 27 de março de 2026.

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