Ir para o conteúdo
Crédito: Luana Nunes. Acervo Museu da Vida Fiocruz

 

Febre, hemoptise, dispneia e suores noturnos, / A vida inteira que poderia ter sido e não foi. / Tosse, tosse, tosse./ Mandou chamar o médico./ Diga trinta e três./ Trinta e três... trinta e três... trinta e três.../ Respire / O senhor tem uma escavação no pulmão esquerdo / e o pulmão direito infiltrado./ Então doutor, não é possível tentar o pneumotórax? / Não. A única coisa a fazer é tocar um tango argentino. - Pneumotórax, de Manuel Bandeira (1886-1968)

 

Como sugerem as palavras de Manuel Bandeira, nos anos 1930, os sintomas da tuberculose pulmonar, doença infecciosa e transmissível que afeta os pulmões, eram bastante conhecidos, mas seu tratamento não era nada simples. Segundo o médico José Rosemberg, professor de Tuberculose e Pneumologia da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo e membro do Comitê Técnico Científico de Assessoramento em Tuberculose do Ministério da Saúde, o pneumotórax artificial foi o primeiro “tratamento racional da tuberculose na longa era anterior à moderna quimioterapia”, quando a cura da doença foi finalmente alcançada.

 

Como o pneumotórax artificial era utilizado?

Em 1882, o médico italiano Carlo Forlanini criou uma técnica que ficou conhecida como colapsoterapia médica e que usava o método do pneumotórax artificial. A nova terapêutica consistia na introdução de um gás (nitrogênio) no pulmão, mais especificamente no chamado espaço intrapleural. Esse processo permitia que o pulmão entrasse em um estágio que os médicos chamavam de repouso fisiológico. Assim, pretendia-se que as lesões tuberculosas ativas parassem de sofrer traumatismos constantes provocados pela respiração, pela tosse ou por outros fatores. Esse descanso restabelecia as condições para a regressão e cicatrização das lesões.

Forlanini administrando o pneumotórax artificial.  Crédito: Imagem do Wellcome Images, site operado pelo Wellcome Trust, uma fundação de caridade global com sede no Reino Unido. Disponível em: https://wellcomecollection.org/works/v8buve6n

No período de ampla utilização da nova técnica, entre o final do século XIX e a década de 1950, os médicos que a utilizavam eram pejorativamente chamados de “insufladores”. O procedimento costumava ser feito até três vezes por semana e a manutenção da terapêutica poderia durar de dois a oito anos, em casos especiais.

A colapsoterapia com o uso do pneumotórax artificial era um procedimento rápido, porém doloroso e traumático. Isto porque uma agulha de cerca de 40 cm precisava ser introduzida nas cavidades do pulmão.

Os pacientes com tuberculose com indicação de tratamento pelo pneumotórax artificial formavam longas filas (100 a 150 doentes por dia!) nas Ligas contra a Tuberculose, nos estados e na Capital Federal. E, à medida em que chegavam, tiravam suas camisas enquanto aguardavam o momento de se deitar lateralmente, com o braço dobrado sobre a cabeça. Após uma rápida preparação e uma passada de algodão embebido em álcool feita no local da punção, a longa agulha era espetada e o gás insuflado. Assim que o primeiro paciente se erguia do leito, o próximo na fila se deitava para receber o mesmo tratamento.

Apesar de popular o uso do pneumotórax artificial alcançava êxitos relativos, com taxas de recuperação clínica atingindo não mais do que 40%. Os doentes que se submetiam ao procedimento não estavam livres de sequelas que, por muitas vezes, representavam perda ou redução da sua qualidade de vida.

Até a introdução na década de 1950 dos primeiros antibióticos capazes de eliminar a bactéria causadora da tuberculose, o pneumotórax artificial manteve-se como importante opção terapêutica. Além desta técnica, eram usados ainda outros tratamentos, como o higiênico-dietético, que preconizava a alimentação saudável, a exposição ao clima ameno, bem como a segregação e o isolamento de doentes e seus familiares.

 

Por dentro do aparelho de pneumotórax

O pneumotórax era formado por instrumentos que mediam a pressão do gás, os chamados manômetros. Havia um manômetro de mercúrio graduado e um manômetro de líquido graduado. E, ainda, outros componentes: um reservatório, dutos independentes do reservatório para os manômetros, dois botões reguladores, um tubo para comunicação com o reservatório, uma agulha conectada ao tubo e inserível no paciente a ser tratado, um bulbo com montagem adaptada para conectar a bomba e carregar o reservatório com gás.

Cada manômetro possuía uma abertura atmosférica independente e o aparelho ficava alojado em uma caixa, onde os manômetros eram dispostos paralelamente. O invólucro do aparelho possuía uma seção de tampa onde, uma vez fechada, ficavam alojadas a bomba e o duto com o terminal para a agulha.

 

Detalhes do regulador de pressão do Pneumotórax McKesson Appliance Company. Crédito: Luana Nunes. Acervo Museu da Vida Fiocruz

O fabricante deste equipamento foi o médico americano Elmer McKesson (1881-1935). Ele fundou a Toledo Technical Appliance Company, em 1910, para produzir equipamentos de anestesia a partir dos seus próprios projetos de design. Este modelo de pneumotórax foi criado na década de 1930, quando a empresa mudou de nome para McKesson Appliance Company e passou a se instalar na cidade de Toledo, em Ohio – Estados Unidos.

 

Como o equipamento chegou ao nosso acervo

O aparelho incorporado ao acervo museológico da Fiocruz é parte de um conjunto de instrumentos médicos doados em 2019 ao Museu da Vida Fiocruz pela família de Luís Mércio Teixeira e de Luis Carlos Vieira, respectivamente pai e filho, o primeiro pediatra e o segundo, tisiologista, ramo da medicina voltado para o tratamento da tuberculose.

 

Informações técnicas do objeto:

Materiais: metal, madeira, baquelite, couro, vidro, borracha

Dimensões: 45x23x15,5 cm

Fabricante: McKesson Appliance Company

Origem: Toledo – Ohio (Estados Unidos)

Data: [1930-1940]

Procedência: Família Luís Mércio Teixeira

 

 

Bibliografia e fontes:

BANDEIRA, MANOEL. Libertinagem. Pongetti, Rio de Janeiro,1930

CARVALHO FILHO, LOPO. Pneumothórax Artificial. Moura Marques, Coimbra, 1917

FUNDAÇÃO OSWALDO CRUZ. Casa de Oswaldo Cruz. Projeto Memória da Tuberculose. História oral - Depoimentos de médicos pneumologistas/tisiologistas. Departamento de Pesquisa em História da Saúde e Departamento de Arquivo e Documentação, Rio de Janeiro, s/d

FUNDAÇÃO GETÚLIO VARGAS. CPDOC. Dicionário Histórico e Biográfico Brasileiro. Verbete biográfico: Luís Mércio Teixeira. Disponível em: https://www18.fgv.br//cpdoc/acervo/dicionarios/verbete-biografico/teixeira-luis-mercio

UNITED STATES. PATENT OFFICE. Official Gazette of the United States Patent Office. Vol.16, n 2. U.S. Patent Office, 1940. Original da Universidade de Wisconsin - Madison. Digitalizado em 9 fev. 2011. Disponível em: https://books.google.com.br/books?id=logbAQAAMAAJ&printsec=frontcover&hl=pt-BR&source=gbs_ge_summary_r&cad=0#v=onepage&q&f=false

ROSEMBERG, JOSÉ. Tuberculose. Aspectos históricos, realidades, seu romantismo e transculturação. Boletim de Pneumologia Sanitária. v.7 n.2. Rio de Janeiro, dezembro de 1999. Disponível em: http://scielo.iec.gov.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0103-460X1999000200002

 

Créditos:

Objeto em Foco é um produto de divulgação do acervo museológico, sob a coordenação de Inês Santos Nogueira e Pedro Paulo Soares, Serviço de Museologia - Museu da Vida.

 

 

Link para o site Invivo
link para o site do explorador mirim
link para o site brasiliana

Funcionamento: de terça a sexta, das 9h às 14h30.

Fiocruz: Av. Brasil, 4365, Manguinhos, Rio de Janeiro. CEP: 21040-900

Contato: museudavida@fiocruz.br

Assessoria de imprensa: divulgacao@fiocruz.br.

Copyright © Museu da vida | Casa de Oswaldo Cruz | Fiocruz

conheça