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Acervo Museu da Vida Fiocruz. Foto: Luana Ferreira

O Objeto em Foco deste mês se dedica a desvendar o conjunto de itens do acervo que compõem as vitrines da recém-inaugurada exposição ‘Vida e saúde: relações (in)visíveis’. A mostra explora aspectos de diferentes dimensões, do micro ao macro, que se relacionam com nossa saúde. É o caso das relações socioambientais, como o modo em que nossa saúde é afetada pelas mudanças no planeta, até os microrganismos presentes no nosso corpo.

A exposição está aberta ao público na antiga Cavalariça. Ela também dialoga com a história do prédio onde eram realizadas as principais etapas de fabricação de soros no início do século XX, no Instituto Oswaldo Cruz. O soro é um produto que contém anticorpos – proteínas relacionadas à defesa do organismo – contra doenças ou toxinas. Eles são usados para tratar infecções causadas por alguns microrganismos e picadas de serpentes, escorpiões e outros animais.

O ambiente da exposição, o prédio e os objetos expostos nos permitem perguntar: que atividades eram realizadas neste lugar? Quem eram os profissionais que trabalham ali? Como os animais eram tratados?

 

A Cavalariça

Cavalariça construída no início do século XX faz parte do Núcleo Histórico e Arquitetônico de Manguinhos. Foto: Rogério Fernandes / Museu da Vida Fiocruz

A Cavalariça é uma edificação erguida em 1905. Esse espaço possui estrutura projetada para o manejo de cavalos usados na fabricação de soros contra a peste bubônica, que eram produzidos no Pavilhão da Peste. O prédio foi inspirado na cavalariça do Instituto Pasteur, na França, também utilizada para atividades cotidianas de cuidados com os cavalos utilizados na ciência.

Sala da sangria, onde se retirava o sangue dos cavalos para a produção de soros. Foto: Acervo Departamento de Arquivo e Documentação – COC/Fiocruz

O edifício é dividido em três alas principais: a da sangria, coberta com uma cúpula com claraboia no teto, sob a qual era extraído o sangue para a produção do soro; um salão central, que abrigava 20 baias para organizar os animais; e, por fim, a enfermaria, local onde eram realizadas intervenções cirúrgicas e procedimentos de controle e cuidados com os animais, como pesagem, aferição da temperatura e higiene.

No salão central da cavalaria, localizam-se as baias onde os cavalos se alimentavam e recebiam cuidados. Foto: Acervo Departamento de Arquivo e Documentação – COC/Fiocruz

Enfermaria era o espaço utilizado para a realização dos procedimentos médicos nos animais. Foto: Acervo Departamento de Arquivo e Documentação – COC/Fiocruz

O funcionamento da Cavalariça era bastante sustentável. Ela contava com instalações e sistemas automatizados que permitiam a limpeza do piso, lavado com frequência. O estrume dos cavalos era recolhido e armazenado em reservatórios de fermentação, servindo para a produção de adubo e gases, usados para a iluminação do próprio prédio.

 

O trabalho desenvolvido na Cavalariça

Nas vitrines que estão na exposição da Cavalariça, observamos objetos datados entre 1900 e 1940 como forma de exemplificar o cotidiano das tarefas envolvidas neste lugar. Os animais precisavam estar permanentemente limpos e com a saúde em dia.

O termômetro, assim como a balança localizada no chão da enfermaria, são indicadores da preocupação em controlar a temperatura e peso dos animais. Já a balança de precisão e o almofariz indicam o manuseio de medicamentos que, porventura, fossem necessários para o tratamento de saúde dos cavalos.

O monitoramento da temperatura era um indicador importante para o diagnóstico do estado de saúde dos animais. Foto: Acervo Museu da Vida Fiocruz
O tratamento dos animais envolvia o manuseio e a pesagem precisa de medicamentos e demais substâncias. Foto: Acervo Museu da Vida Fiocruz

Para a produção do soro, era necessário o controle do sangue, que envolvia constantemente a necessidade de exames. Para isso eram necessários instrumentos como navalhas para a raspagem dos pelos, lancetas e bisturis para realização das incisões, vidraria de laboratório específicas para cada tipo de análise, contator de células, cronômetros, assim como o uso de instrumentos como centrífugas, usadas para a separação dos elementos presentes no sangue.

Objeto utilizado nas práticas de inoculação e coleta de sangue para a produção de soros: estropo, navalha, bisturi articulado e lanceta. Foto: Acervo Museu da Vida Fiocruz

Os animais eram marcados e recebiam um número de identificação para que todas as informações a respeito da saúde deles ficassem registradas em uma espécie de diário. Ali era possível saber o momento adequado em que o animal poderia receber a inoculação e retirada de sangue.

Objeto utilizado para identificar e registrar os animais dedicados ao uso de pesquisas científicas. Os cavalos eram marcados com as iniciais da instituição e identificados com números que os distinguiam nas pesquisas e no processo de produção de soros. Foto: Acervo Museu da Vida Fiocruz

O plasma sanguíneo retirado era utilizado nas pesquisas das principais doenças da época, como peste bubônica, febre tifoide, beribéri, disenteria e tuberculose, e na produção de soro antitetânico, antidiftérico e antimeningocócico, dentre outros.

Como pode perceber, o trabalho na ciência envolve pesquisa a partir do criterioso controle e análise das informações. Mas a ciência não é feita somente pelos cientistas. Sem dúvida, são os pesquisadores os orientadores do trabalho desenvolvido, porém, ao compreender o trabalho desenvolvido na Cavalariça, podemos refletir sobre as diferentes participações que envolvem o trabalho científico.

Assistentes de laboratório e auxiliares de biotérios eram os profissionais responsáveis pelos cuidados não só com os animais, mas todo o acompanhamento necessário para que os procedimentos fossem bem-sucedidos.

 

Animais na pesquisa científica

O soro antimeningocócico do Instituto Pasteur utilizava o método muito semelhante ao utilizado pelo Instituto Oswaldo Cruz no início do século XX. Foto: Acervo Museu da Vida Fiocruz

Cientistas do mundo inteiro têm buscado métodos alternativos ao uso de animais em pesquisa. Para muitas atividades já é possível substituir etapas ou procedimentos por modelos sintéticos. Mas apesar do avanço tecnológico, o desenvolvimento de muitos produtos como soros, vacinas, medicamentos e teste para diagnóstico de doenças ainda necessita de estudos e experimentos em animais.

Além disso, o Brasil conta atualmente com uma legislação que regulamenta as atividades que envolvam o uso dos animais na pesquisa. Essa legislação controla, estabelece regras e o compromisso ético que envolvem o cuidado com o bem-estar, a redução do número de animais utilizados, o aperfeiçoamento de estratégias para que animais sofram o mínimo possível e a criação de métodos alternativos para substituí-los.

Para a produção de soros, era necessário uma série de medidas para que a quantidade de plasma retirado não prejudicasse os cavalos. Animais de grande porte são utilizados para a obtenção de soro desde o final do século XIX. Eles são capazes de produzir uma volumosa quantidade de plasma com anticorpos sem que os animais fossem prejudicados no processo. Havia um acompanhamento médico-veterinário constantee alimentação balanceada. Foto: Arquivo Histórico do Instituto Butantã.

 

Informações técnicas dos Objetos:

Termômetro
Materiais: metal e vidro
Dimensões: 15 cm

Balança de precisão
Materiais: madeira, metal e vidro
Dimensões: 41 x 40 x 19 cm

Suporte para pesos com 15 pesos e pinça
Materiais: madeira, metal, tecido, acrílico
Dimensões: 6 x 14,2 x 10 cm

Pistilo
Materiais: louça e madeira
Dimensões: 7,5 x 2,5 cm

Almofariz
Material: louça
Dimensões: 8 cm

Estropo
Material: madeira
Dimensões: 30 x 4 x 1,5 cm

Bisturi articulado
Material: metal
Dimensões: 12 cm

Navalha
Material: metal
Dimensões: 12 cm

Lanceta
Material: metal
Dimensões: 15,4 x 1,5 x 0,5 cm

Centrífuga manual
Materiais: metal, madeira e tinta
Dimensões: 36 x 18 x 13 cm

Marcador de intervalos
Materiais: metal e plástico
Dimensões: 11 x 10,5 x 8 cm

Contador de células
Materiais: metal e plástico
Dimensões: 5 x 31 x 7 cm

Pipeta de Thoma
Materiais: vidro, borracha e plástico
Dimensões: 47 x 1 cm

Albuminômetro
Materiais: vidro, madeira e cortiça
Dimensões: 20,0 x 4,3 ø cm (acompanha capa com 20,0 x 3,0 ø cm)

Marcador de gado IOC
Materiais: metal e madeira
Dimensões: 58 x 13 x 8 cm

Marcador de Gado nº 0
Materiais: metal e madeira
Dimensões: 8,5 x 50 cm

Soro antimeningocócico
Fabricante: Instituto Pasteur (França)
Materiais: madeira, papel, plástico e metal
Dimensões: 7 x 2,5 cm

 

Outras leituras:

BENCHIMOL, Jaime. Manguinhos do sonho à vida: a ciência na Belle Époque. Rio de Janeiro: Fiocruz /COC, 1990.

DIAS, Ezequiel Caetano. O Instituto Oswaldo Cruz, resumo histórico (1899-1918). Rio de Janeiro: Manguinhos, 1918.

FONSECA, Olympio da. A Escola de Manguinhos. Contribuição para o estudo do desenvolvimento da medicina experimental no Brasil. In: FALCÃO, Edgard de Cerqueira. Osvaldo Cruz Monumenta Histórica, Tomo II. São Paulo: [s. n.], 1974.

OLIVEIRA, Benedito et al. Um Lugar para a Ciência. A formação do campus de Manguinhos. Editora Fiocruz. Rio de Janeiro: 2003.

REIS, Renata. A "grande família" do Instituto Oswaldo Cruz: a contribuição dos trabalhadores auxiliares dos cientistas no início do século XX. Tese apresentada ao Programa de Pós-Graduação em Educação da Faculdade de Educação da Universidade Federal Fluminense. Niteroi, 2018.

 

Créditos:

Objeto em Foco é um produto de divulgação do acervo museológico sob a coordenação de Inês Santos Nogueira e Pedro Paulo Soares

Serviço de Museologia - Museu da Vida Fiocruz

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