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À primeira vista, o Fórceps Demelin, que faz parte do acervo do Museu da Vida, causa estranheza. A invenção do fórceps representou uma revolução para a obstetrícia. Utilizado entre os séculos XIX e XX, foi fundamental para auxiliar mulheres em trabalho de parto, reduzindo o tempo de exposição delas às dores deste momento tão delicado e especial.

Recentemente, celebramos o Dia do Obstetra (12/04). Esta data homenageia os profissionais e a constituição da ciência obstétrica, que significou uma alteração profunda nas competências e nos saberes específicos sobre a capacidade reprodutiva das mulheres. O arsenal cirúrgico é um dos maiores símbolos do poder do médico obstetra. No século XIX, a utilização do fórceps foi um dos marcos para o desenvolvimento da obstetrícia, e tinha o objetivo de diminuir o tempo de sofrimento causado pelo parto.

Muitos não devem conhecer, mas o fórceps é um instrumento obstétrico usado para facilitar a expulsão do feto do canal vaginal no momento do parto. O fórceps é necessário quando o feto entra em sofrimento, está em posição anormal ou quando o trabalho de parto é prolongado. Em mãos habilidosas, o fórceps foi um dos mais importantes instrumentos obstétricos.

A utilização desse objeto era também uma alternativa para não ser realizada a cesariana, visto que as mulheres corriam muitos riscos de infecção quando expostas a esse procedimento antes dos métodos de assepsia conhecidos hoje.

Modelos de fórceps. Créditos: Catalogue Collin et Cie, 1935.

Fórceps Demelin

O fórceps é uma espécie de pinça feita de metal, com duas grandes hastes em formato de colher. Desde sua criação no século XVII, passou por inúmeras modificações em sua estrutura, materiais e tamanhos, de forma a atender as especificidades da anatomia feminina. Nosso Objeto em Foco da vez é o instrumento criado pelo médico francês Lucien Alfred Alexandre Demelin (1861-1948), em 1899. Ele foi professor associado da Faculdade de Medicina de Paris e chefe da maternidade Port Royal, com muitos trabalhos na área da obstetrícia e ginecologia.

O fórceps deveria ser inserido no canal vaginal separadamente e conectado a uma articulação em sua parte inferior. A articulação do fórceps Demelin era do tipo convergente, em que as hastes eram paralelamente ligadas por meio de parafusos. Demelin utilizou essa modificação na articulação do fórceps por acreditar que as hastes em paralelo poderiam reduzir a força de compressão na cabeça do feto.

Nas colheres deste modelo, são utilizadas fitas de tecido, com aproximadamente 2 metros, que serviam para fazer tração e facilitar a saída do fórceps. Acessórios de tração já tinham sido utilizados em fórceps, mas o modelo desenvolvido por Demelin produziam uma tração mais suave e flexível. A resistência de tração chegava a 80kg!

Método de tração axial com cordas amarradas ao fórceps durante um parto. Este método agressivo é de uma época em que a cesariana era considerada de alto risco as mulheres. Atualmente, o uso do fórceps obstétrico possui regras muito claras. Leva-se em consideração a experiência do obstetra, e seu uso se dá em situações em que sua eficácia se mostra superior à cesárea para aliviar o sofrimento fetal e reduzir o esforço materno. Créditos: POULLET, 1883.

O fórceps Demelin também se diferenciava em outros quesitos. Era mais leve do que outros utilizados na mesma época. Com diferença de 200g em seu peso final, facilitava a utilização por parte do médico.

O uso do fórceps em partos

O instrumento era utilizado quando, no momento do parto, já se podia visualizar a cabeça do feto. Inseridas separadamente, a parte inferior era colocada entre o colo do útero e a cabeça do feto e a outra na parte superior. A habilidade do médico ao manusear o instrumento era essencial para que o procedimento não oferecesse mais riscos para a mãe e o bebê.

A popularização do uso do fórceps se deu durante o século XX, quando os médicos começaram a realizar os partos em enfermarias e com o advento dos anestésicos nos procedimentos de parto. Sob o efeito de anestesias, as contrações da mulher eram diminuídas, comprometendo o controle da força no processo de expulsão do feto. Essa mudança de concepção sobre a aceleração do parto com a ajuda de instrumentos e anestésicos é conhecida como processo de medicalização e instrumentalização do parto.

Este conhecimento ao longo do tempo atraiu um número cada vez maior de mulheres devido ao tipo de atendimento oferecido, como o cuidado com a higiene, o uso da anestesia e as operações obstétricas que, quando bem realizadas, resolviam rapidamente partos complicados e muito dolorosos.

O fórceps ainda pode ser utilizado hoje, em situações especiais. Mas, apesar das vantagens citadas, seu uso pode acarretar problemas graves para a mulher e o feto. A utilização do fórceps causava mais dor, perda de sangue e lacerações na genitália da mulher. Para o feto, as consequências podiam ser as lesões no nervo facial e no crânio, além de hemorragias e fraturas diversas.

Informações técnicas sobre o Objeto:

Forceps Demelin com laços

Data: [1899]

Fabricante: Okidure (França)

Material: metal e tecido

Dimensões: 40,5 x x18 cm

Outras leituras:

HIBBARD, Bryan, The obstetrician’s armamentarium: historical obstetric instruments and their inventors. San Anselmo, California: Norman Publishing, 2000. Disponível em: https://books.google.com.br/books?id=NkLYuno1QDIC&printsec=frontcover&hl=pt-BR&source=gbs_ge_summary_r&cad=0#v=onepage&q&f=false

MARTINS, Ana Paula Vosne. A ciência obstétrica. In: Visões do feminino: a medicina da mulher nos séculos XIX e XX [online]. Rio de Janeiro: Editora Fiocruz, 2004, pp. 63-106. Disponível em: https://books.scielo.org/id/jnzhd/pdf/martins-9788575414514-04.pdf

MATTOS, Letícia Maria da Silva. O uso da cultura material como fonte para a história da medicina. Anais do 2° Encontro Internacional História & Parceria. Rio de Janeiro, 2019.Disponível em: https://www.historiaeparcerias2019.rj.anpuh.org/resources/anais/11/hep2019/1571090689_ARQUIVO_4a9d84c4a6aca70c69b30a1b4725a8e4.pdf

Créditos:

Objeto em Foco é um produto de divulgação do acervo museológico sob a coordenação de Inês Santos Nogueira e Pedro Paulo Soares

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