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 Por Julianne Gouveia e Melissa Cannabrava

É possível que vídeos de divulgação científica no YouTube estimulem, entre jovens do Ensino Médio de escolas públicas, o debate sobre a participação de mulheres nas ciências? A mestra em Divulgação da Ciência, Tecnologia e Saúde da Casa de Oswaldo Cruz Renata Fontanetto tentou responder a esta e outras questões na dissertação 'Divulgação científica e gênero: o olhar de jovens mulheres para a temática mulheres nas ciências em vlogs'.

Fontanetto se aventurou por estudos de gênero após ganhar a bolsa de jornalismo Berlin Science Communication Award (Universidade de Humboldt – Alemanha) em 2017. Na oportunidade, se aproximou de temas ligados à desigualdade de gênero na ciência e viu nascer a semente para o projeto de pesquisa que desenvolveu ao ingressar no mestrado da Casa de Oswaldo Cruz dois anos depois.

Para a dissertação, colheu dados sociodemográficos e analisou as opiniões das participantes a partir do consumo de vídeos produzidos por divulgadores científicos que fazem parte do selo ScienceVlogs Brasil (SVBr), que conta com apenas quatro canais inteiramente comandados por mulheres (em um universo de 60). Todas as jovens participantes possuíam interesse nos campos das ciências da saúde, biológicas, sociais aplicadas e humanas. A mestra Renata Fontanetto agora fala mais sobre o assunto e responde a perguntas enviadas pelos seguidores do Museu da Vida nas redes sociais. Confira!

Mayara Manhães (@maymanoli): Que pesquisa maravilhosa! Gostaria de saber se as participantes demonstraram interesse em vídeos que abordem questões de gênero dentro das ciências, em especial a participação de mulheres na produção de conhecimento científico ao longo da história. Isso aparece nos vídeos ou é demandado pelas audiências?
Renata Fontanetto: Oi, Mayara, obrigada pela pergunta! Nos grupos focais, o que a gente pôde perceber é que as participantes demonstraram muito interesse por assuntos sobre a presença da mulher na sociedade, questionando os papéis de gênero geralmente atribuídos às mulheres (atividades sociais ou funções esperadas de uma mulher e impostas pela sociedade). As jovens, todas de Ensino Médio, questionaram as áreas de atuação consideradas femininas e masculinas, e trouxeram vivências do próprio dia a dia para pautar suas opiniões. Os trechos de vídeos que exibimos nos grupos focais tiveram o potencial de despertar diversos tópicos de debate; não falamos somente sobre mulheres nas ciências. O engajamento delas acabou indo para uma discussão ampla sobre o que acontece com a mulher na sociedade em diferentes atuações, realidades, contextos de vida etc. O que eu posso dizer também é que houve, em um dos grupos, uma participante que questionou a exclusão histórica de mulheres da produção de conhecimento científico, o que despertou opiniões de outras jovens. Tivemos também uma jovem que disse ter assistido especificamente a um vídeo no YouTube sobre mulheres nas ciências, protagonizado pela cientista brasileira Zélia Ludwig. Minha resposta final para a sua pergunta seria: elas se interessaram sobre assuntos relacionados às questões de gênero e desigualdades de gênero, num contexto mais geral, e as mulheres nas ciências estão nesse bolo.

Julianne Gouveia (@_amarelodeserto): Grande mestra Renata, parabéns pela pesquisa! Gostaria de saber mais sobre como você encontrou as participantes de sua pesquisa e se a pandemia influenciou na escolha delas.
Renata Fontanetto: Obrigada, Ju! A pandemia influenciou totalmente a escolha delas. Inicialmente, quando montamos a metodologia em 2019, os grupos focais seriam com meninas e meninos dentro de uma escola, em formato presencial. Adaptamos para formato on-line devido à pandemia e eu não consegui participantes suficientes para um segundo grupo focal masculino. No total, fechamos em três grupos focais femininos, completamente on-line pelo WhatsApp. Finalizamos a coleta de dados em dezembro de 2020. Como alcançamos essas jovens? Disparando um convite para a pesquisa por meio de professores conhecidos, diretores, alunos próximos, buscando por perfis de escolas públicas do Rio de Janeiro no Facebook ou no Instagram. Ou seja, indo até as escolas ou professores no meio digital e, depois, tentando chegar aos jovens.

Débora Menezes (@deboratsm): Parabéns pela pesquisa, Re! Queria saber se as participantes refletiram sobre a escolha de carreiras científicas ou se mudaram seu ponto de vista a partir dos vídeos.
Renata Fontanetto: Oi, Débora, super obrigada! Não queríamos mudar o ponto de vista delas, queríamos saber quais eram os pontos de vista. Em relação às escolhas de carreiras, muitas têm interesse em cursar faculdade. Mas elas demonstraram interesse por áreas que, geralmente, já recebem mais mulheres, como ciências biológicas, ciências da saúde, ciências sociais aplicadas e ciências humanas. Para elas, a universidade pública é importante e é onde elas pretendem cursar as faculdades, especialmente na UFRRJ, Uerj e UFRJ.

Júlia (@juliadumardd): Uma mestra dessas, bicho! ��❤️ Gostaria de saber se foi possível identificar na fala dos participantes reflexos do estereótipo de que as ciências duras não são para mulheres e/ou a que ciências humanas e biológicas, especialmente na área da saúde, tem 'mais a ver' com as mulheres. Essa relação foi pautada nas conversas? Foi questionada pelos participantes? Queria saber mais detalhes.
Renata Fontanetto: Oi, Ju! Sim! Tivemos uma categoria de análise justamente sobre esse tópico, que era “Humanas vs. exatas”. Recomendo ler a dissertação porque essa passagem com a fala das estudantes é interessantíssima. Nessa categoria, a gente observou que houve participantes do segundo grupo focal que iniciaram uma reflexão sobre a divisão de trabalho por áreas. Mas o que foi mais interessante é que uma delas disse que, nas escolas, havia
incentivo para que mulheres seguissem nas exatas. Ainda assim, mesmo com o incentivo que elas possam ter recebido, elas elaboraram um raciocínio bem bacana sobre a falta de representatividade feminina nas ciências exatas e que, de fato, o rosto dessas ciências era mais masculino. Vou até trazer a fala de uma das jovens no diálogo em questão: “A gente vê, né, porque na área de humanas é mais fácil encontrar mulheres do que na área de exatas (...) Por exemplo, você queria fazer um negócio, tipo mecânica, mas não vê ninguém nessa área, tipo, uma mulher ou até mesmo uma mulher negra atuando nessa área, e algumas vezes isso te desmotiva...”. O que eu mais gosto nesse trecho é que a aluna trouxe o marcador de raça, ou seja, para ela é importante a presença de uma mulher negra na ciência. Além disso, ela deu exemplos de forma espontânea sobre as áreas que ela associa com as ciências humanas e com as exatas. A meu ver, é genial, porque, nos grupos focais, cada opinião importa – a gente não busca somente as opiniões que mais se repetiram e que estão em consonância, a gente busca também as singularidades, as divergências e as unicidades.

Alice Ribeiro (@aliceribeiro272): Olá, Renata! Parabéns pela pesquisa! Na sua visão, quais características os vídeos em DC devem cultivar para aumentar o engajamento dessas jovens, bem como fomentar o debate sobre gênero e ciência?
Renata Fontanetto: Oi, Alice! Obrigada! Então, para as jovens que participaram da minha pesquisa, temas que abordam as desigualdades de gênero na sociedade se mostraram relevantes. Indo em consonância com elas, eu diria que uma das principais características que os vídeos de DC precisam incorporar mais é a consciência de gênero, de raça e de classe. Há uma juventude muito ligada nessas questões e que gostaria de conversar mais sobre esses assuntos. Gênero, raça e classe também são ciência, há estudos profundos sobre cada um desses temas, e os vídeos não precisam abordá-los em profundidade sempre. Mas ter a consciência sobre eles e conseguir articular debates informados, fazendo conexões entre esses temas e o assunto do vídeo, é algo que requer comprometimento, estudo e vontade.

Julianne Gouveia (@_amarelodeserto): De que maneira você acha que uma maior representatividade de mulheres e outros grupos não hegemônicos (negros, pessoas trans, indígenas etc.) na divulgação cientifica pode funcionar como incentivo para que haja mais
diversidade no meio?

Renata Fontanetto: Na verdade, acho que essa é uma das grandes perguntas dos próximos anos para a divulgação científica e para a ciência. Muitas sociólogas e historiadoras da ciência que criticam a ciência por um viés feminista nos dizem que a ciência será muito mais diversa e fará perguntas diferentes se tivermos o olhar de diferentes grupos sociais na produção do conhecimento científico. Por quê? Quando temos apenas um grupo fazendo ciência e pensando a prática científica (historicamente, homens brancos das elites foram muito privilegiados dentro do fazer científico e ditaram as regras durante muito tempo), corremos o risco de não presenciar diversidade de pensamento. Quando temos um grupo completamente heterogêneo, mais chances temos de colorir a ciência com diferentes perspectivas e diferentes vivências. Cada ser humano traz a sua experiência de vida para dentro da ciência (porque não existe ciência neutra, mas isso é papo para uma outra pergunta). Se essas pessoas trazem suas experiências de vida, temos mais chances de presenciar perguntas de pesquisa que estejam alinhadas com a diversidade de olhares. Com essa representatividade tanto na ciência quanto na divulgação científica, mais chances temos de alcançar grupos diversos e de ir aprimorando essas duas áreas. É um sistema que se alimenta, é um ciclo, e não podemos perder a diversidade de vista e a inclusão de saberes não hegemônicos dentro da ciência e da divulgação.

Melissa Cannabrava (@melmmcs): Parabéns pela pesquisa, Re! Eu queria saber como você chegou ao tema escolhido. Como foi se aprofundar nas questões de gênero? Muitas surpresas ou os resultados já eram esperados?
Renata Fontanetto: Oi, Mel! Obrigada!! Eu cheguei ao tema porque, no ano de 2017, eu ganhei uma bolsa de jornalismo da Universidade Humboldt, chamada Berlin Science
Communication Award. Lá, eu tive que cobrir temas relacionados à desigualdade de gênero na ciência e acabei entrando no time das Cientistas Feministas , um site que reúne divulgadoras científicas do país todo e que acabou abrigando os meus textos sobre ciência e gênero. Voltei da Alemanha e, no Museu da Vida, acabei produzindo, no início de 2018, com uma equipe incrível, um Grito de Carnaval sobre mulheres na ciência, que fazia parte das entregas previstas no escopo da bolsa. O evento fez sucesso e repetimos a dose no início de 2019, numa segunda edição do Grito. Tudo isso foi semente para o meu mestrado, onde pude me aprofundar uma pouco mais na relação entre divulgação científica e gênero. A ideia do estudo partiu de duas pesquisadoras amigas do Núcleo de Estudos da Divulgação Científica (NEDC), e uma delas, Marina Ramalho, acabou sendo minha orientadora. Eu topei e me aventurei.

Estudar gênero é realmente uma paixão, mas gênero funcionou como a ponta do iceberg para o debate racial e também para o debate sobre classes sociais, numa visão feminista mais marxista mesmo. Mas é importante dizer que minha linha de pesquisa no mestrado da Fiocruz é estudos de recepção, que é uma área dentro da comunicação que investiga a forma como as pessoas dão sentido a conteúdos midiáticos. O combo formado por esses três campos – divulgação científica, gênero e estudos de recepção – trouxe muita reflexão sobre a minha visão de mundo. Eu não diria que me surpreendi. Eu posso dizer que tudo me transformou: as leituras, as participantes e os resultados. E isso é o mais precioso.

Publicado em 29 de dezembro de 2021. 

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