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Por Melissa Cannabrava

A internet trouxe oportunidades inéditas para a área da divulgação científica no que se refere às possibilidades de alcance de públicos cada vez maiores e mais diversos. Quem sabe bem disso é David Ayrolla, criador do canal Papo de Primata e mais novo mestre em Divulgação da Ciência, Tecnologia e Saúde pela Casa de Oswaldo Cruz.

David Ayrolla defendeu a tese "Fala, galera: quem são e o que pensam divulgadores científicos brasileiros no YouTube". Crédito: reprodução

Na pesquisa "Fala, galera: quem são e o que pensam divulgadores científicos brasileiros no YouTube", o novo mestre dissertou sobre um dos fenômenos surgidos na revolução digital: a figura do divulgador científico digital, capaz de utilizar os recursos da internet para a atividade de popularização da ciência na web. David se debruçou sobre uma comunidade de criadores de conteúdo que tem crescido substancialmente nos últimos anos, responsável pelo amplo alcance da divulgação da ciência no país hoje. Ayrolla também investigou quem são essas pessoas, analisando suas histórias, trajetórias acadêmicas e profissionais, motivações, referências e influências, as dificuldades que enfrentam para atuarem como divulgadores e quais são suas percepções sobre a área da divulgação científica

Em mais um episódio da temporada de 2021 da série “Conta Aí, Mestre”, David Ayrolla responde às perguntas enviadas pelos seguidores do Museu da Vida nas redes sociais. Confira!

Julianne Gouveia (@_amarelodeserto): Olá, David! Parabéns pela pesquisa! Você entrevistou um perfil específico de divulgadores (exemplo: homens, jovens etc.)? Qual foi o critério para a escolha dessas pessoas?
David Ayrola: Quando o projeto ainda estava na fase de planejamento, nossa ideia era ter apenas uma fase qualitativa. Isso porque pesquisas desta natureza têm a profundidade que esperávamos alcançar no estudo das trajetórias pessoais e profissionais, das motivações e do que estes divulgadores pensam da área da divulgação científica. Uma vez que nosso intuito era traçar perfis de pessoas com variadas histórias e visões, o objetivo sempre foi ter o máximo de diversidade possível entre os nossos entrevistados. Por outro lado, também desejávamos que os entrevistados fossem divulgadores que atuassem em canais com números relevantes de inscrições e visualizações no YouTube, já que entendemos que a experiência e a visão destas pessoas (muitos deles vivendo atualmente do seu trabalho na divulgação científica) agregaria valor à pesquisa. Também foi um critério enfocar exclusivamente produtores ou apresentadores de canais que têm como objetivo principal a divulgação científica, excluindo propositalmente aqueles canais que veiculam conteúdos científicos eventualmente. Nós convidamos 13 divulgadores, e conseguimos entrevistar 11. Embora desejássemos uma heterogeneidade ainda maior nos perfis dos entrevistados, a própria dificuldade de montar esse corpus foi um indicativo de como algumas minorias ainda são sub-representadas na área da divulgação científica do YouTube. No desenvolver da pesquisa, resolvemos ampliar o estudo para incluir uma fase quantitativa. Nesta fase, pudemos chegar a um número maior de entrevistados. O critério adotado na qualitativa era um pouco mais aberto e tentamos fazer com o que o máximo de divulgadores científicos na plataforma respondesse ao questionário (utilizamos a técnica da bola-de-neve: postamos links nas redes sociais e pedimos que os divulgadores que foram entrevistados e que responderam aos questionários enviassem para seus contatos). Os perfis sociodemográficos dos participantes da pesquisa quantitativa e as proporções das diferenças entre eles foram bastante semelhantes aos da etapa quantitativa, reforçando a impressão de que existe a necessidade de ampliar a participação de alguns grupos na área.

 

Julianne Gouveia (@_amarelodeserto): Existe algo comum entre todos esses divulgadores quanto a dificuldades ou mesmo visão sobre a ciência? Pode falar sobre isso?
David Ayrolla: Com relação às dificuldades, muita coisa em comum. Uma dificuldade muito citada é a pouca valorização que o divulgador científico recebe das esferas políticas, do público e da própria academia. Também foi bastante citada a dificuldade que os conteúdos científicos têm para competir com materiais diversos, inclusive com pseudociências e negacionismos que infestam as redes sociais. O momento político atual do país também foi bem lembrado. Entre as mulheres entrevistadas, também foram muito citadas as dificuldades trazidas pelas discriminações que elas sofrem nas redes sociais. Entre estes preconceitos, estão sexismo, transfobia, racismo e xenofobia. O interessante é que, entre os homens, não foi mencionada qualquer dificuldade com relação a preconceitos. Já com relação às visões destes divulgadores científicos sobre a ciência, houve bastante diferenças, sobretudo na forma como eles entendem o que é e qual é o papel da divulgação científica. Há entendimentos que vão desde a perspectiva de que os divulgadores científicos precisam “corrigir” o problema do déficit de conhecimento científico da população, até a percepção de que o conhecimento científico, sendo algo que pertence a toda a humanidade, deve ser estendido a todos, e o papel do divulgador científico é facilitar essa apropriação por parte das pessoas que hoje não têm acesso a ele.

 

Melissa Cannabrava (@melmmcs): Oi, David. Parabéns pela pesquisa! :) Você encontrou divulgadores propagando fake news? Gostaria de saber também o nível de escolaridade dessas pessoas.
David Ayrolla: No corpus da pesquisa, não. Houve algumas discordâncias sobre como combater a desinformação e qual seria o papel do divulgador nessa atividade, mas não foi identificada a prática de divulgação de fake news, pseudociências ou negacionistas entre os participantes da pesquisa. O nível de escolaridade foi predominantemente de pessoas com graduações e pós-graduações.

 

Marina Ramalho (@mari.ramalho8): Olá, David! Muito interessante sua pesquisa. Queria saber quais motivações você identificou entre esses divulgadores. Será que elas diferem das motivações de divulgadores que utilizam outros formatos/plataformas pra divulgar ciência? Ou são basicamente as mesmas? Pergunto isso porque me parece tão trabalhoso manter um canal de YouTube, então fico me perguntando se esse formato tem algum atrativo a mais para esses profissionais, que justifique tanto esforço!!! Obrigada!
David Ayrolla: As motivações elencadas pelos participantes para dedicarem tanto do seu tempo e dos seus recursos para divulgarem ciências no YouTube foram várias. O mais interessante é perceber que a maioria deles respondeu que começou na área ao perceber que poderia contribuir com a área da divulgação científica, que teve o desejo de divulgar informações sobre sua área de formação ou que teve inspirações para atuar na divulgação. Apenas alguns disseram que suas carreiras os levaram a divulgar ciências. O que isto revela? Que atuar na divulgação científica foi uma escolha, sugerindo uma genuína preocupação dessas pessoas em popularizar a ciência. Alguns são professores que começaram a publicar vídeos para ajudar seus alunos, outros são cientistas que gostariam de compartilhar o conhecimento que obtinham na academia (em alguns casos, por se perceberem no dever de fazer isso). Há cidadãos desejosos de contribuir ativamente com a ciência e pessoas de grupos discriminados ou menos favorecidos que consideram importante participar da comunidade de divulgadores para inspirar jovens a seguirem a carreira científica. Apesar de diferentes, estes motivos estão todos relacionados ao desejo de contribuir de forma positiva com a sociedade. Mas também houve quem citou interesses pessoais de crescimento profissional, de poder se sustentarem com a divulgação científica e coisas do tipo.

 

Denyse Amorim (@de.nyse9712): Muito legal, mestre! Gostaria de saber qual foi o recorte temporal que você utilizou.
David Ayrolla: Toda a história de vida dessas pessoas, do momento em que acharam interessante compartilhar (geralmente, foi quando ingressaram na área da divulgação acadêmica ou quando executaram atividades semelhantes em feiras ou eventos no colégio e na graduação), até 2020 (ano em que ocorreram as entrevistas e o questionário foi disponibilizado).

 

Renata Fontanetto (@renataftto): Oi, pessoal! Gostaria de perguntar ao @DavidAyrolla como ele construiu o roteiro de perguntas para a pesquisa: o que ele incluiu nesse roteiro? Teve alguma pergunta que trouxe momentos mais delicados para as entrevistas? Se sim, qual e por quê?
David Ayrolla: O roteiro de perguntas foi montado com o auxílio da orientadora da pesquisa, Dra. Carla Almeida. Tentamos incluir perguntas que satisfizessem às nossas perguntas de pesquisa e pudessem nos ajudar a traçar o perfil destas pessoas. Inicialmente, começamos com uma lista de perguntas que deveria ter cerca de umas 50 questões na fase qualitativa. Depois, fomos lapidando, consolidando algumas, eliminando ou substituindo outras. Terminamos com cerca de 35 questões, mas como a entrevista era semiestruturada, a quantidade de perguntas e mesmo os temas abordados variavam, de acordo com a condução do entrevistado. As perguntas do questionário utilizado na fase quantitativa foram criadas baseadas nas qualitativas, com as adaptações necessárias para este outro tipo de ferramenta de coleta de dados. Algumas perguntas foram realmente um pouco mais delicadas, sobretudo aquelas que emergiram das conversas sobre discriminação e preconceito. Alguns trechos inclusive tiveram de ser suprimidos da pesquisa a pedido dos participantes. Mas, no saldo final, esta entrevistas foram bem agradáveis. Ajudava muito o fato de eu já conhecer e ser amigo de alguns dos entrevistados, de maneira que, em alguns momentos, as entrevistas pareciam-se muito com um bate-papo ou mesmo desabafos feitos em um divã.

Publicado em 02 de dezembro de 2021.

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