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Por Melissa Cannabrava

O fact-checking se tornou uma das principais ferramentas no combate à desinformação e esse foi o tema escolhido pela nova mestra em Divulgação da Ciência, Saúde e Tecnologia pela Casa de Oswaldo Cruz, Barbara Souza, na pesquisa "Checagem de fatos em saúde: uma análise do Fato Ou Fake". Barbara encontrou algumas novidades em relação às características comuns ao analisar 78 reportagens sobre saúde do Fato ou Fake, serviço de checagem do Grupo Globo lançado em julho de 2018.

As reportagens foram divididas em duas partes: na primeira estão as matérias que tratam de medicamentos, doenças, alimentação e serviços de saúde em geral. Já a segunda é composta por reportagens resultantes de checagens de conteúdo falso relacionado especificamente à pandemia de Covid-19. 

A análise foi feita também em duas etapas, com estratégias complementares. Na primeira fase, Barbara analisou o conteúdo a partir da criação de categorias próprias emergidas dos textos. Nesta etapa, identificou e caracterizou as fontes selecionadas pelos jornalistas autores das checagens, as temáticas predominantes nas matérias e no conteúdo original alvo da checagem, as emoções mobilizadas pela desinformação e as principais estratégias de refutação usadas pelos checadores. Entre os resultados, foi observado que a maioria dos entrevistados são homens ligados a instituições da região Sudeste do país.

Para entender mais sobre a pesquisa, o público do Museu da Vida enviou perguntas e agora a mestra detalha a sua imersão pelo mundo das notícias duvidosas. Quer um spoiler? A temática política foi o mais recorrente quando o assunto era coronavírus! Agora é sua vez, Barbara Souza! Conta aí, mestra! 

@ClaudiogabrielJ
Qual a importância de pensar a discussão de verdade e mentira no meio da saúde? Até que ponto o jornalismo está preparado para isso?

Discutir essa questão é fundamental no nosso tempo não apenas no meio da saúde. Mesmo que boatos e teorias da conspiração sejam tão antigos quanto as sociedades, estamos num momento crítico com diversas particularidades que envolvem as tecnologias de informação e a globalização.
O fact-checking é uma reação do jornalismo à chamada pós-verdade, que tem as fake news como um dos sintomas, apenas. No entanto, a confiança da população nos jornalistas caiu nos últimos anos, junto com a queda de confiança em praticamente todas as instituições da democracia. É um cenário complexo e preocupante. Apesar das diversidades, inclusive financeiras (já que o jornalismo também vive frequentes crises como um negócio no capitalismo), campanhas bem-sucedidas de vacinação, com uma procura pelas doses contra Covid-19 maior no Brasil do que em vários países ricos, mostram que a comunicação em saúde tem resultados muito positivos.

@renata_fontanetto
Parabéns, mestra! Conta pra gente alguns resultados do seu estudo? Qual você gostaria de destacar?

Obrigada!!! Na análise das reportagens, eu encontrei algumas novidades em relação às características comuns em outras formas mais tradicionais que o jornalismo costuma retratar a ciência. No fact-checking realizado pelo Fato ou Fake, vi inovações no discurso jornalístico em si. O conteúdo checado e a matéria resultante das verificações não são noticiosos, ou seja, não relatam fatos. Então não tem anúncio de grandes descobertas, por exemplo. Isso é bem interessante. Além disso, observei que o fact-checking, de certa forma, atualiza o pacto de credibilidade do jornalismo com o público. Além disso, também notei um reforço da credibilidade da ciência. Jornalismo e ciência no serviço de checagem analisado são grandes aliados, mas ainda do que no jornalismo científico tradicional.

Só que, apesar de ser necessário para garantir informação de qualidade, o fact-checking parece ser insuficiente para vencer a desinformação. Acreditamos nisso porque as estratégias utilizadas para comprovar que um conteúdo era falso são frias e racionais, enquanto as fake news apelam para as emoções.
Por fim, um resultado que apareceu na comparação entre as matérias de checagem publicadas antes e durante a pandemia de coronavírus foi o seguinte: a temática política foi muito mais recorrente quando o assunto era o coronavírus. Houve uma politização do tema saúde tanto na produção de desinformação quanto na produção de checagens, como consequência óbvia.

@_amarelodeserto
Oi, Barbara! Como você selecionou este material a ser analisado? Percebeu alguma similaridade entre os conteúdos classificados como fake news?

Eu fiz a coleta das reportagens analisadas com base em dois recortes: um por tema e outro por período de tempo. No primeiro, o critério para a inclusão das matérias em nosso corpus foi a presença no título ou no subtítulo de palavras que remetessem a medicamentos, doenças, alimentação, serviços ou políticas públicas de saúde, patógenos e microrganismos que afetem a saúde, ou recursos públicos para a saúde.

No segundo, o período determinado foi 31 de julho de 2018 e 31 de dezembro de 2019. Nesse intervalo consegui um volume considerado suficiente para desenvolver as análises de conteúdo e de discurso que fiz.

Sobre isso é interessante dizer que a ideia da pesquisa e o início da seleção das reportagens vieram bem antes da pandemia. Quando a Covid-19 apareceu, o volume de checagens foi tão grande que eu tive que reabrir a coleta de matérias e usar uma técnica chamada semana construída para filtrar um número de textos que ficasse em equilíbrio com o total que eu já havia juntado no tema saúde em geral pré-pandemia. 

@melmmcs
Oi, Barbara! Parabéns pelo trabalho! :) Gostaria de saber como foi a sua comunicação e o quanto o Grupo Globo colaborou com a sua pesquisa.

Eu não fiz contato oficialmente com profissionais do Grupo Globo. Optei por fazer uma pesquisa bastante independente do veículo que criou o Fato ou Fake. No entanto, eu trabalho como repórter na rádio CBN, que é da empresa. Por isso, tive contato com uma das jornalistas que estava envolvida no projeto justamente na época que eu estava finalizando a composição do corpus que eu iria analisar. Foi a Roberta Pennafort que foi por alguns meses de 2020 a representante da CBN junto à “força-tarefa” do Fato ou Fake para checar conteúdo sobre o coronavírus, ainda no início da pandemia. Ela me ajudou fornecendo os números relativos às publicações anteriores e posteriores à onda de desinformação que acompanhou a Covid-19. A contribuição dela me poupou um trabalho longo e cansativo que teria sido contar manualmente no site do Fato ou Fake a quantidade exata de publicações. Fora isso, não houve outra comunicação ou contribuição do Grupo Globo.

@andressacabrals
Existem estudos que indiquem quais públicos são mais propensos a consumir/compartilhar notícias falsas, associando fatores como poder aquisitivo, local onde mora, região do país?

Sim. Existem pesquisas - citadas nos capítulos teóricos da minha dissertação - que mostram que os fatores que explicam o negacionismo científico, a crença em fake news e teorias da conspiração, por exemplo, são muito mais complexos do que podemos imaginar num primeiro momento.
Existem explicações da psicologia, como por exemplo as teorias cognitivas: o viés de confirmação, a dissonância cognitiva e o raciocínio motivado. Também há outras motivações mais sociológicas, digamos assim. Esses fatores que influenciam no quanto as pessoas confiam ou não na ciência podem ter a ver com ideologia política, valores morais e religião, por exemplo, e variam de acordo com o tipo de conhecimento científico. Escolaridade, região e poder aquisitivo tem um peso menor nessa questão, de acordo com os estudos que encontrei. Podemos dizer que, a grosso modo, acreditamos no que escolhemos acreditar. Por isso que mentiras comprovadas continuam agradando a determinados grupos que a reproduzem.

@carolcarvalhofl
Já existem dados que mostrem se os serviços de checagem são realmente eficazes pra desmentir as fake news? ou seja, se têm impacto em larga escala sobre a população?

Saber se o fact-checking ou funciona seria muito importante, mas ainda não há pesquisas de grande alcance com essa resposta. No entanto, há indícios que revelam muitos limites de alcance e de convencimento do público. Isso porque, como vimos na resposta à pergunta da @andressacabrals, os fatores que levam à crença ou à descrença na ciência ou no negacionismo são complexos. Então, podemos inferir que quem consome fake news não consome, pelo menos não na mesma intensidade, jornalismo profissional. Infelizmente isso ainda não foi quantificado. Mas minha pesquisa me deu sinais que não me deixaram muito otimista quanto a isso. Apesar de a checagem ser importante para o jornalismo reafirmar sua legitimidade enquanto porta-voz da verdade, por assim dizer, acredito que sejam necessárias mais iniciativas contra a desinformação, como no ambiente jurídico ou no entretenimento. Por que não?

@thalescaetano_
De que forma criar e/ou espalhar fake news sobre saúde pode se enquadrar como crime?

Minha pesquisa não entrou na seara jurídica, mas o fato é que, atualmente, compartilhar fake news, por si só, não é crime. Isso porque não existe uma tipificação penal para a prática. Ou seja, divulgar notícias falsas, apenas considerando a falsidade daquele conteúdo, não constitui crime. Só que pode ser necessário avaliar o contexto e a intenção de quem faz essa divulgação.

Por exemplo, se a fake news ferir a honra de alguém, imputando a essa pessoa um crime que ela não cometeu, isso pode ser entendido como calúnia, injúria ou difamação. Isso sim está tipificado e previsto no Código Penal.

Como desinformação é ainda mais frequente durante as eleições, quanto também os objetivos dos criadores desse conteúdo são óbvios, o Código Eleitoral trata disso. Há o “crime de denunciação caluniosa eleitoral”, por exemplo. Já em relação à saúde, pode ser imputado charlatanismo ou propaganda irregular a alguém que promova a disseminação de informações relativas à tratamentos médicos falsos, por exemplo.

@debjsfurtado
Existe algum controle por parte das redes sociais de maior expressão para evitar a propagação de fake news?

Sim. Chegamos a um ponto que as empresas de tecnologia como o Facebook (dona também do Instagram e Whatsapp) e Twitter passaram se viram obrigadas a tomar alguma medida nesse sentido, especialmente por causa da pressão jurídica.

Mesmo que evitem moderar a informação que é compartilhada, as redes sociais têm excluído publicações suspeitas, por exemplo. Isso aumentou muito com a chegada da Covid-19, que deixou ainda mais evidente como uma informação falsa pode ser danosa.

O Facebook, por exemplo, tem um Conselho de Supervisão de Conteúdo desde o ano passado e aceita denúncias dos usuários sobre postagens suspeitas. Também tem um sistema automatizado, via inteligência artificial, que identifica e controla atividades que possam indicar ação de robôs, etc. O Facebook também conteúdo que possa causar violência ou comprometer processos eleitorais. Além disso, a rede social tem, desde 2018, uma política que proíbe discurso de ódio. 

@grippthays
Como as pessoas podem desconfiar que uma reportagem é falsa nessa questão das matérias de saúde?!

Em primeiro lugar, o mais importante é observar a fonte. Por mais que seja quase automático acreditar num conteúdo que chega a partir de pessoas nas quais confiamos, como amigos e parentes, é preciso ficar uma pulga atrás da orelha com tudo que chega através deles. Como o volume e a velocidade da circulação da informação é absurda nessa era das redes sociais, muita gente acaba compartilhando mensagens sem checar e sem se questionar que interesses podem estar por trás de quem começou a disparar aquilo.
Se o conteúdo parece ter a intenção de provocar alguma emoção forte, como raiva, nojo ou medo, as razões para desconfiar crescem mais ainda. Outro indício suspeito é a oferta de alguma solução caseira e/ou milagrosa para problemas sérios e antigos, como câncer e outras doenças. Uma simples pesquisa sobre o assunto no Google pode resolver. Muitas vezes aquela mensagem já foi verificada por algum jornal ou agência de checagem.

Publicado em 21 de setembro de 2021. 

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