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Mulheres grávidas infectadas pelo vírus zika devem ter ou não direito de escolher interromper a gravidez? A questão foi problematizada em pesquisa realizada pelo jornalista Washington Castilhos. Como os jornais O Globo e Folha de S. Paulo abordaram o assunto? Quais os argumentos colocados em cena? O debate serviu para ampliar e qualificar o tema na sociedade? Para responder a essas perguntas, Washington analisou matérias publicadas entre novembro de 2015, quando o governo brasileiro decretou situação nacional de emergência em saúde devido ao aumento de casos de microcefalia, e dezembro de 2016, quando o Supremo Tribunal Federal (STF) julgaria uma ação que, entre outras coisas, solicitava o direito de mulheres grávidas infectadas pelo vírus zika interromperem a gestação. Foram analisadas, ao todo, 43 matérias sobre a temática zika-microcefalia-aborto, sendo 16 em O Globo e 27 na Folha de S. Paulo. Para saber mais sobre a pesquisa, confira a segunda entrevista da série “Conta aí, mestre”, com participação dos recém-formados no curso de mestrado em Divulgação da Ciência, Tecnologia e Saúde, parceria entre a Casa de Oswaldo Cruz (COC/Fiocruz), o Jardim Botânico do Rio de Janeiro, o Mast, a Fundação Cecierj e a UFRJ.

MV: Nas matérias de jornal analisadas, quais fontes foram usadas pelos jornalistas e como se posicionaram? 
Washington:
As vozes médicas, priorizadas pela Folha de S. Paulo, mostraram-se em sua totalidade favoráveis à proposta encaminhada ao STF, enquanto os juristas, priorizados por O Globo, dividiram-se: representantes ligados ao Movimento Nacional da Cidadania pela Vida – Brasil sem Aborto posicionaram-se desfavoravelmente, enquanto juízes mais progressistas mostraram-se favoráveis. Ministros do STF ouvidos pelos dois jornais não tomaram posição. 

Os dois veículos ouviram também feministas e fontes religiosas. As vozes católicas mantiveram a tradicional posição refratária ao aborto, mas algumas vozes religiosas não católicas ouvidas por O Globo posicionaram-se favoravelmente, mostrando não haver consenso no âmbito das religiões.

Com relação às fontes feministas e outras vozes públicas favoráveis à proposta, observamos argumentos francamente mais polissêmicos, que relacionam o direito ao aborto a princípios constitucionais, como o direito à dignidade, à saúde e à liberdade, um legado do bem-sucedido debate da anencefalia, ocorrido no STF e que em 2012 resultou na descriminalização do aborto nos casos de fetos sem o cérebro formado.

As fontes ligadas a organismos internacionais, como a Organização Mundial da Saúde (OMS) e a Organização das Nações Unidas (ONU), estiveram a favor da proposta de interrupção da gravidez em caso de infecção pelo zika. O principal argumento defendido pelas fontes favoráveis foi o das desigualdades sociais e da justiça social, enquanto as fontes contrárias lançaram mão do argumento da defesa da vida.

MV: Haveria outras fontes importantes que não apareceram nas matérias?
Washington:
Observamos na cobertura jornalística o silenciamento das vozes das mulheres afetadas pela epidemia de zika. Ficamos sem saber como estas se posicionavam a respeito da proposta enviada ao Supremo, apesar de algumas matérias jornalísticas publicadas no período da pesquisa – especialmente pela Folha S. Paulo – relatarem que mulheres grávidas infectadas pelo zika estavam abortando clandestinamente, mesmo sem o diagnóstico da microcefalia. Alguns jornalistas entrevistaram os médicos dessas mulheres, que narravam os  dramas de suas pacientes. 

MV: Quando o tema aborto é discutido no contexto específico da epidemia de zika e microcefalia, os argumentos são diferentes daqueles usados na discussão do aborto de forma mais geral?
Washington:
Tradicionalmente, o argumento da defesa da vida é sempre defendido pelas fontes contrárias ao aborto. E, para manter esse argumento, vale tudo: no meio do atual debate, o papa Francisco chegou a flexibilizar o uso de métodos contraceptivos, afirmando que "aborto é crime, mas evitar uma gravidez não é um mal absoluto". Assim, vimos que as fontes pró-vida não avançaram muito discursivamente: mesmo o argumento de que aborto em caso de zika é eugenia, ou seja, uma forma de eliminar tipos humanos considerados “inferiores”, evocado por grande parte das vozes contrárias à proposta encaminhada ao Supremo em 2016, ficou subjacente ao tradicional argumento da defesa da vida.

O que observamos neste debate específico sobre aborto é que os argumentos das fontes pró-escolha e pró-direito da mulher avançaram, ao evocarem princípios constitucionais, evitando que o debate se restringisse à discussão em torno do início da vida. De certa forma, os dois últimos debates – o da anencefalia e o da microcefalia – contribuíram para a ampliação do tema na sociedade, tanto que o assunto entrou em pauta em audiência pública no próprio STF em agosto deste ano. A discussão é necessária e urgente, por se tratar de um grave problema de saúde pública.
  
MV: Na sua opinião, o que é preciso para melhorar a cobertura jornalística de temas polêmicos como esse?
Washington:
No caso da cobertura sobre aborto em caso de zika, os veículos analisados mantiveram de fora as vozes das mulheres afetadas. A grande imprensa tende a dar voz a "especialistas" de posições contrárias e que deem credibilidade às notícias, buscando alcançar uma suposta imparcialidade, silenciando, muitas vezes, vozes e temas importantes. No caso do aborto, a morte de mulheres causada pela ilegalidade é cotidiana, mas a mídia não acompanha isso. As desigualdades sociais em torno dessa situação também não recebem atenção midiática tanto quanto necessário. Há uma tendência a criar polêmica e sensacionalismos, e isso precisa ser revisto.

Washington Luis Carbone Castilhos é autor da dissertação “Qual a palavra que nunca foi dita? Vozes e discursos nas notícias sobre zika-microcefalia-aborto”, defendida em 13 de julho de 2018, com orientação da pesquisadora Carla Almeida.

Crédito das fotos: acervo pessoal e Vincius Marinho/Fiocruz Imagens.

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