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Em setembro, pedimos aqui no site do Museu e nas redes sociais que nossos visitantes enviassem perguntas para o novo chefe do Museu da Vida, Alessandro Batista, sobre dúvidas em relação à nova gestão e ao MV. As contribuições iriam compor uma entrevista com ele, historiador e educador que tomou posse no dia 11 de julho para um mandato de dois anos.

Pois bem, chegou o momento de conhecer, aos poucos, as questões recebidas e, claro, as respostas! Ficamos bem contentes de ver a participação do público e dos trabalhadores do Museu, que também contribuíram. Ao longo de novembro, vamos divulgar as respostas completas aqui no site e dar aquela palhinha pelo nosso Facebook. Se bater alguma dúvida, envie um e-mail para Este endereço de email está sendo protegido de spambots. Você precisa do JavaScript ativado para vê-lo. ou uma mensagem pelo Face. Vamos responder assim que possível! ;)

A seu ver, qual é o papel atual de um museu de ciência?

Alessandro Batista: Essa é uma pergunta interessante e me parece apropriado começar por ela. Por meio dela, é possível situar o fazer profissional de quem atua em museus de ciências em um mundo marcado pela aceleração da vida e pela proposição de individualização das relações sociais. Por outro lado, permite refletir sobre como o Museu da Vida vem atuando diante dos desafios da sociedade contemporânea e diante de uma projeção do ideal de um museu de ciência.
"Em nossos dias, o foco dos museus está na interatividade, na possibilidade da manipulação do que está exposto; há, claramente, uma migração de perspectiva, onde o visitante passa a ser o protagonista no processo de experimentação do espaço museu."


Por vício de formação, começo sempre as análises pela história das coisas. Acho que o papel dos museus de ciências vem se transformando bastante nas últimas décadas. Principalmente se o comparamos com os primeiros gabinetes de curiosidades de séculos atrás, ou mesmo com as grandiosas exposições universais, onde a contemplação extasiante, que hipnotizava os visitantes, lançava-os a uma perspectiva mística da ciência, quase mágica, e criava um distanciamento entre o acervo exposto e o público, numa perspectiva do objeto intocável.

Após as duas grandes guerras mundiais do século XX, o mundo passou por rápidas e imensas transformações, políticas, econômicas, sociais e culturais. Houve acelerado grau de mudança na ciência, tecnologia e, também, nos comportamentos social e cultural. Isso construiu uma realidade cotidiana radicalmente diferente daquela que existia no início do mesmo século.

Em nossos dias, o foco dos museus está na interatividade, na possibilidade da manipulação do que está exposto; há, claramente, uma migração de perspectiva, onde o visitante passa a ser o protagonista no processo de experimentação do espaço museu. “O visitante deve ser o ponto de partida e chegada para o trabalho do museu”.
A sociedade atual é complexa e vive um processo intenso de revolução nas áreas tecnológica e comunicacional. O museu de ciência, como espaço de fronteira e encontro de saberes distintos, será fruto desse novo tempo em que deve superar a dicotomia contemplação/interação. Ele deve ser um espaço onde a dialética desse binômio permita ao museu ser um espaço de debate das questões fundamentais da sociedade, da vida e da emancipação dos homens. A contemplação deve promover a interação, assim como a interação precisa da contemplação para que tenhamos uma reflexão crítica.

O museu deve ser um espaço de encontro, funcionando como um verdadeiro fórum para que as pessoas possam se expressar e debater as diferenças e convergências, se apropriando dos principais debates da ciência, influenciando o fazer científico. Precisa, também, ir ao encontro das pessoas. Não apenas metaforicamente, ao se aproximar das suas questões e linguagens, mas também fisicamente, expandindo sua atuação extramuros e virtual, processo fundamental para um país como o Brasil, com enorme desigualdade social. Poderíamos falar muito mais sobre o papel dos museus de ciências na atualidade, mas o que apresento aqui, acredito, encontra o cerne do que identifico como principal parte da questão.

Gostaria de entender melhor quais são os pontos principais de ação nos quais você vai basear a sua gestão.

"O trabalho da nossa gestão possui como pilares o comprometimento com enfrentamento das desigualdades sociais de nosso país por meio da divulgação e popularização da ciência e também por meio do próprio fazer científico."
Bem, primeiro a gestão não é só minha, e, sim, de todos que contribuíram para a construção das propostas e daqueles que aceitaram, por meio do voto, compartilhá-la. Inclusive, pretendo, também, estender a construção dela para os que constituem o museu e não têm direito a voto (entre outros, a equipe dos serviços gerais) e, principalmente, para o público visitante.

O trabalho da nossa gestão possui como pilares o comprometimento com enfrentamento das desigualdades sociais de nosso país por meio da divulgação e popularização da ciência e também por meio do próprio fazer científico. Uma gestão transparente e participativa que irá se submeter constantemente à avaliação do público e usar as tecnologias disponíveis para permitir acesso a informações.

Pretendemos integrar a gestão do museu com a da Casa de Oswaldo Cruz e a da própria Fiocruz; Valorizar e lançar mão, sempre que possível, dos nossos acervos museológico e bibliográfico; Inovar nas ações educativas e nas ações de comunicação; Fomentar a acessibilidade nos espaços e nas atividades do museu; Apoiar e aprofundar a pesquisa em todos os campos e setores do museu; Incentivar a interlocução entre arte e ciência com ludicidade e reflexão crítica em nossas ações; Aprofundar as ações territorializadas, que hoje contribuem para que o Museu da Vida seja identificado por diversos setores da Fiocruz como parceiro estratégico nas ações de saúde e pesquisa junto à população de territórios vulnerabilizados e ao público em geral.

Quais são os obstáculos para tornar os brasileiros frequentadores de museus de ciências? Ou, na sua opinião, essa cultura já existe?

Entre as dificuldades apontadas por cidadãos brasileiros que não frequentam museus está o acesso a transporte público, segundo pesquisas nacionais. Pensando nisso, o Museu da Vida disponibiliza o ônibus Expresso da Ciência. Saiba como ele funciona aqui.
Essa começarei de trás para frente. Não há essa cultura, infelizmente. Mas isso não é um problema exclusivo dos museus de ciências. Todas as pesquisas demonstram que o brasileiro não frequenta museus: as pesquisas tanto do Observatório de Museus e Centros de Ciências e Tecnologia (OMCC&T) quanto do próprio Ministério de Ciência, Tecnologia, Inovações e Comunicações confirmam esse quadro. É verdade que, nos últimos 15 anos, o número de frequentadores nos museus brasileiros aumentou, porém estamos longe de ter um peso representativo do total da população brasileira.

Os obstáculos são múltiplos e poderíamos nos aprofundar em cada um deles, mas, para não ser exaustivo, enumerarei os que considero principais sem dissecá-los.
- Acesso a transporte e locomoção aos museus (apontado como fator de maior peso pelas ausências no Museu da Vida, segundo a pesquisa realizada pelo Núcleo de Estudos de Público e Avaliação em Museus do Museu da Vida, entre 2002-2011);
- Acesso à informação sobre localização, funcionamento e sobre as atividades dos museus de ciências;
- Aumento da violência nos centros urbanos;
- Crises econômica e social do país;
- Distanciamento das exposições e museus da realidade e linguagem do público, particularmente em relação às camadas populares.

Esta última, em minha opinião, precisa de uma reflexão mais detida, o trabalho feito pelo Museu da Vida nos últimos quatro anos sobre as Ações Territorializadas produziu uma experiência e material bruto interessantes para avaliarmos essa questão.

Você considera possível pensar na criação de um museu de ciência via financiamento coletivo? Pergunto isso porque, pelo que conheço, os museus ou estão vinculados a universidades e instituições de pesquisa ou a gigantes da iniciativa privada. Meu sonho (sonhar é permitido) é abrir um centro de ciências voltado para as geociências, devido ao meu histórico com esse tipo de museu. Sei que é de fundamental importância a existência de museus ligados às instâncias públicas, mas penso que seria muito interessante se houvesse essa abertura para pessoas que não estão ligadas nem às universidades e nem aos gigantes da iniciativa privada.

Nossa visitante gostaria de um dia criar um museu de geociência via financiamento coletivo. Sonhar é possível, sim!
Sim, você está certa: hoje, a esmagadora maioria dos museus de ciências tem a sua origem e vinculação nos moldes que você apontou. Isso se explica, em parte, pela história da relação entre o Estado brasileiro, a ciência brasileira e sua divulgação, mas também porque museus, via de regra, são caros. Desde sua implementação, continuidade e sustentabilidade, sendo que em raríssimas exceções eles não são elementos capazes de produzir lucro, seja pela produção de conhecimento ou pelo entretenimento. Nas ruas da França, em maio de 1968, durante a primavera, numa das maiores manifestações estudantis da história, via-se muitas vezes a frase: “Sejamos realistas; exijamos o impossível”. Estamos em um momento histórico conturbado, onde muitos decretam o fim da utopia ou das utopias. Acredito que as utopias são imortais. Enquanto houver ser humano haverá sonho e esperança. A potência colaborativa das pessoas ao longo da história é algo surpreendente. Crie estratégias, busque apoio, norteie-se (ou suleie – depende da perspectiva política) por objetivos maiores e acredito que, sim, você pode conseguir seu intento.

Existe uma previsão para oferecimento de doutorado em Divulgação e Popularização da Ciência? (Por favor, diga que sim!)

Trabalho em equipe, dedicação, esforço e vontade. Tudo isso não falta no atual mestrado em Divulgação da Ciência, da Tecnologia e da Saúde. Um doutorado na área não está fora dos nossos planos! :)
Então, no momento não temos a perspectiva de oferecermos o doutorado. Estamos em uma fase inicial no nosso mestrado. Mas, calma, não significa que não possamos ter (esperamos mais breve do que o imaginado). Com dedicação e muito trabalho, é uma questão de tempo podermos ofertar o doutorado. Consideramos o programa uma grande vitória do nosso museu e esperamos que ele possa crescer. Fique conosco!


Atualizado em 16/11/2017
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