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Por Renata Fontanetto

Registro da defesa do pesquisador! (Acervo pessoal)

Ele se diz um “historiador de nascença”. E foi lá, ainda quando criança, que o jovem Gabriel Faria começou a ouvir as histórias do pai, Jairo Rocha Faria, sobre o universo científico. Matemático, o pai de Gabriel falava sobre grandes cientistas e instituições científicas brasileiras de renome, como a Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC), criada em 1948. Corta para 2020: anos mais tarde, aquela criança, já formada em história, viaja no tempo, mais especificamente para o ano de 1949, quando a SBPC cria a revista Ciência e Cultura.

Como historiador, Gabriel mergulhou nas páginas da revista em busca da divulgação científica que aquela publicação fazia. Quais eram os assuntos divulgados pela revista? Quais autores escreviam? Existiam algumas mulheres escrevendo? Como a publicação pode ser percebida dentro do contexto científico brasileiro daquela época do pós-Guerra? Estas e outras perguntas foram respondidas pelo Gabriel, que defendeu há pouco tempo o estudo “O Papel da Divulgação da Ciência na Legitimação da Organização Científica Brasileira a partir da Ciência e Cultura (1949 - 1964)”, no mestrado em Divulgação da Ciência, Tecnologia e Saúde. Convidamos vocês, nossos seguidores, a conhecer a pesquisa de Gabriel!

Museu da Vida: Como surgiu o interesse para realizar sua pesquisa?

Resposta: Eu gosto de brincar que sou um “historiador de nascença” e o resto veio depois, mas o meu interesse especificamente por questões de ciência tem um culpado em definitivo: meu pai, Jairo Rocha de Faria. Matemático (talvez até “de nascença”), meu pai sempre gostou de me contar sobre a vida e produção dos cientistas e das instituições científicas, especialmente sobre a vinda de Richard Feynman ao Brasil, a Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência e o Instituto de Matemática Pura e Aplicada.

O meu interesse pelos aspectos comunicacionais da ciência começou quando eu escrevi a minha monografia, que teve como tema a mudança na teoria sobre a matéria de Galileu. Embora esse não fosse o meu enfoque, fiquei fascinado com as inúmeras tentativas do florentino de comunicar suas descobertas a um público mais geral, seja pela escrita em italiano do Mensageiro das Estrelas, pelo estilo barroco presente em O Ensaiador, ou pelas demonstrações públicas que Galileu faz da pedra luminescente de Bolonha, do funcionamento da luneta e sobre a flutuação de objetos sólidos.

Ao ingressar no mestrado, eu ainda precisava fazer algumas modificações profundas no meu projeto, por ele estar muito focado na questão da institucionalização da ciência. Meus orientadores, Ildeu Moreira e Luisa Massarani, me trouxeram a Ciência e Cultura, revista da SBPC, como possibilidade de objeto de estudo logo no primeiro dia de aula, o que eu aceitei de imediato. Como historiador, procurei ter o cuidado de não cair em uma mera exaltação de grandes heróis e na construção de mitos sobre a ciência. Porém, como Gabriel, eu fiquei muito feliz de poder pesquisar uma entidade científica e personalidades que estavam tão envolvidas na construção dos meus interesses e mesmo da minha identidade.

@kailanidejupiter: Muito interessante! Parabéns pela pesquisa, Gabriel. Como era realizada a circulação/distribuição da revista?

Resposta: Oi Kailani, muito obrigado! Infelizmente, as informações que achamos a respeito da distribuição da revista ainda estão muito aquém do desejado. O que sabemos em definitivo é que a Ciência e Cultura era produzida sem fins lucrativos, servia para comunicação da SBPC com seus membros e como meio de posicionamento de sua Diretoria. A revista era enviada para os sócios da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência, para instituições científicas e de fomento à pesquisa nacionais e internacionais e foi distribuída durante as Reuniões Anuais da entidade. A edição inaugural da revista fez a sua estreia em 1949, durante a primeira Reunião Anual da SBPC, em Campinas, quando foi distribuída para os cerca de 350 membros da Sociedade.

@fernandamarques81: Como a revista contribuiu para a organização da comunidade científica à época?

Resposta: Olá Fernanda, obrigado pela pergunta! Para responder a sua pergunta, acho importante mencionar que a revista Ciência e Cultura tinha um conceito de divulgação científica distinto de como o compreendemos nos dias atuais. Ela procurava englobar tanto uma comunicação com o público em geral, quanto a comunicação (não especializada) entre cientistas de diferentes especialidades, ou com um público instruído, mas considerado “amador” em ciência. É dentro dessa comunicação entre pares que podemos observar as principais contribuições para  a organização da comunidade científica: a divulgação das principais pesquisas de cada área e dos principais debates presentes na comunidade científica, no período analisado, para os membros da entidade. A SBPC compreendia (e ainda compreende) o caráter interdisciplinar da ciência como central para a mobilização da comunidade científica. Ao comunicar os resultados das pesquisas para um público científico, a revista ajudou a aproximar cientistas de diferentes especialidades e a promover o desenvolvimento de trabalhos inéditos pela sua interdisciplinaridade. A Ciência e Cultura também publicou artigos e editoriais relativos às questões em voga na comunidade científica à época, como a organização da carreira de cientista, a liberdade de pesquisa e o financiamento público da ciência. Essas iniciativas me parecem ter sido essenciais para a organização da comunidade científica em torno de demandas e perspectivas específicas.

@fernandamarques81 - Quais os principais temas abordados nos artigos da revista naquela época?

Resposta: Devido ao momento de fundação da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência e da revista Ciência e Cultura, no pós-Segunda Guerra Mundial, nós observamos um grande interesse da revista em tratar do que havia de mais desenvolvido em energia nuclear no país e no mundo. O domínio dos biólogos na entidade e na revista também é notável, e os temas que mais aparecem dentro da área são os da Genética e Biologia Evolutiva, sobretudo relacionados às pesquisas realizadas por André Dreyfus e Theodosius Dobzhansky. A relação entre ciência e política é um tema retratado dentro de diversos enfoques na revista, mas sempre pautado através da necessidade de liberdade de pesquisa, ou seja, a não intervenção da política em assuntos de ciência. Dentro do campo da biologia, por exemplo, esse tema aparece muito relacionado às críticas ao cientista soviético Trofim Lysenko, que usou a influência política para defender a teoria lamarckista (da herança de caracteres adquiridos) na genética e agricultura da URSS.
Outro tema essencial para o momento é o debate a respeito dos investimentos entre “ciência pura” e “ciência aplicada”. Em 1958, com a criação da Comissão Supervisora do Plano dos Institutos (COSUPI), o governo federal passa a focar os seus investimentos nos institutos tecnológicos, em detrimento dos órgãos de financiamento às pesquisas científicas, como o CNPq e a CAPES, que sofrem pesados cortes orçamentários. Esse período traz artigos de Maurício Rocha e Silva, Paulo Sawaya, José Goldemberg, Guido Beck e José Leite Lopes defendendo a impossibilidade de divisão da pesquisa científica nos campos binários da “ciência” e “tecnologia”. Essa divisão e o enfoque do financiamento público em pesquisas tecnológicas levariam ao que Leite Lopes usa como título para seu artigo no tema: uma “Ciência empobrecida e tecnologia de segunda classe”.

Julianne Gouveia: Olá, mestre Gabriel! Parabéns pela pesquisa! Como era o panorama da divulgação científica no Brasil à época da criação da revista? Ela trouxe algo de novo pra esse contexto?

Resposta: Olá, Julianne, muito obrigado! O momento de criação da Ciência e Cultura é justamente um de recuperação da importância da divulgação científica dentro do cenário nacional, após uma diminuição dessas atividades no Brasil durante o Estado Novo. O fim da Segunda Guerra representa um momento generalizado de interesse e valorização da ciência por parte dos governos e populações. A fundação da própria SBPC é um exemplo de como isso se manifestou no Brasil, além da criação de outras instituições, como o atual Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq), a Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (CAPES) e o Centro Brasileiro de Pesquisas Físicas (CBPF). Em relação à divulgação, podemos apontar não só a Ciência e Cultura, como a criação do suplemento Ciência para Todos, presente no jornal A Manhã, e a criação da revista mensal Ciência Popular, ambos em 1948, como exemplos do desenvolvimento da atividade no Brasil.

A Ciência e Cultura - acredito que por não objetivar lucros - traz uma característica muito particular de exposição do funcionamento das instituições científicas, dos pormenores da realização da pesquisa e das necessidades para o desenvolvimento da ciência e da carreira de cientista no país. Essas questões recebem uma atenção e tratamento na publicação que não parecem estar presentes na divulgação científica presente na grande mídia.

@LyraSid: Parabéns, Mestre Gabriel. Me diz aí, quais foram os principais autores identificados nesse período de análise? Você sabe dizer qual era a percentagem de mulheres autoras e pessoas não brancas?

Resposta: Muito obrigado pelas perguntas, Sid! Os principais autores encontrados no período foram membros importantes da Sociedade ou cientistas de reconhecimento nacional ou internacional em seus campos, como Paulo Sawaya, Erasmo Garcia Mendes, Maurício Rocha e Silva, José Reis, José Leite Lopes, Gastão Rosenfeld, José Goldemberg, José Ribeiro do Valle, Moacyr Freitas Amorim e Leopoldo Nachbin. Eu identifiquei um total de 199 autores que publicaram na revista neste período, sendo 21 (10,5%) dessas mulheres. Eu, infelizmente, não fiz o levantamento dos dados relativos à etnia dos autores que publicaram na revista. Acredito que esses sejam dados importantes para uma análise do tipo, especialmente quando falamos em perfil dos autores, mas que também são de difícil coleta em estudos históricos.

@renata_fontanetto: Olá, Gabriel, tudo bem? Por favor, gostaria de saber qual foi a visão ou as visões de ciência encontradas por você no projeto editorial da revista.

Resposta:  Oi, Renata! Eu não encontrei um projeto editorial propriamente dito para a primeira fase da Ciência e Cultura, que foi analisada em meu estudo. Acredito que essa - e outras questões de edição e organização da revista - tenham se dado devido à direção do corpo editorial somente por cientistas nesses anos iniciais. O que conseguimos observar no primeiro editorial da revista, que apresenta a SBPC e brevemente a Ciência e Cultura, e nos artigos e editoriais do período que tratavam do mesmo tema, foi uma visão de ciência neutra e amoral, no sentido de que ela não poderia ser culpabilizada por quaisquer danos concretos ou riscos, que se dariam por “maus usos” desta. Também de uma ciência benéfica, no sentido de que o progresso da ciência seria um motor - ou mesmo o único possível - do progresso social e econômico do país.

@Felipedeab: Olá Gabriel! Também sou historiador da divulgação científica, e estou pesquisando jornais impressos em Mato Grosso e Mato Grosso do Sul. Conta aí como as mulheres cientistas aparecem nas publicações que você estudou! Um abraço!

Resposta: Oi, Felipe, fico muito feliz de ver outro historiador na área da divulgação! As mulheres definitivamente aparecem em menor número na revista, o que era esperado dentro do recorte histórico, mas a presença delas tem alguns aspectos importantes.

As mulheres apareceram como autoras de artigos, como figuras homenageadas - Irène Joliot-Curie tem dois perfis publicados na seção Homens e Instituições - e mesmo integraram o corpo editorial, como é o caso de Gallia Solodovnikov, Eva Maria A. Kelen e Olga B. Henriques. O Maurício Rocha e Silva chega a afirmar na revista, em 1958, que a participação feminina nas Reuniões Anuais já havia superado a da Associação Britânica para o Progresso da Ciência, mas eu não consegui fazer essa análise dentro da minha pesquisa.

Carol: Olá, Gabriel, eu gostaria de ouvir mais sobre o quão presente são as mulheres na revista, quando elas começam a aparecer e em quais enquadramentos. Eu apreciaria também suas impressões sobre o impacto dessa presença nos anos iniciais da revista. Valeu mestre ✌️

Resposta: Oi Carol, muito obrigado pela pergunta! As mulheres aparecem desde o primeiro ano da publicação, sendo Sylvia Oliveira Andrade de Ornellas, do Instituto Biológico de São Paulo, a primeira autora a publicar na Ciência e Cultura identificada pela pesquisa. Ornellas pesquisava a química de proteínas, foi a primeira pesquisadora a utilizar a técnica da cromatografia em papel no Brasil e é sobre esse avanço que ela publica na revista, logo em 1949. A respeito da presença total de mulheres, eu identifiquei 365 nomes de autores e autoras no período analisado, das quais apenas 22 (6% desse total) eram mulheres. Desses 22 artigos, como mencionado, observamos 21 entradas únicas e somente uma cientista mulher apareceu mais de uma vez no período analisado: a Maria Ignês da Rocha e Silva. O enquadramento que mais aparece dentro desses artigos é o de Ensino da Ciência, com 14 dos 22 artigos sendo classificados dessa forma. É difícil medir o impacto específico das mulheres que publicaram e participaram do corpo editorial da revista, mas eu gostaria de realizar um estudo voltado para a questão de gênero dentro da Ciência e Cultura e da Sociedade em breve. É um assunto que muito me interessa e acho que essa entrevista para o Museu da Vida deixa bem claro que não sou o único, o que sempre me anima para novas pesquisas!

 

Publicado em 18 de setembro de 2020.

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