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Camundongo - Mus musculus. Crédito: Instituto de Ciência e Tecnologia em Biomodelos (ICTB/Fiocruz)

Por Gabriel Oliveira, Susana Melo da Costa, Maria Inês Doria Rossi e Maria Paula Bonatto (Fiocruz)

Ratos e camundongos estão, há muito tempo, envolvidos com a ciência. Não foi à toa que Oswaldo Cruz, no início do século XX, divulgou que compraria ratos para estudar a epidemia da Peste Bubônica. Muitos cariocas da época, que já sabiam identificar um bom negócio, passaram a criar ratos para satisfazer as demandas das pesquisas.

Mas… quem são, afinal, os camundongos? O camundongo é um animal muito esperto, medroso e com um grande apetite. Uma primeira coisa que devemos saber: o camundongo não é um filhote de rato! O camundongo e o rato são espécies diferentes. Assim como o lobo e o cachorro. Porém, o camundongo e o rato, há milhões de anos, tiveram um ascendente comum, um animal chamado de Antemus chinjiensis, identificado pelos pesquisadores por meio de estudos de fósseis de dentes (os molares – aqueles dentes laterais que trituram os alimentos). A partir deste ancestral, durante a evolução das espécies e por diversos motivos não totalmente esclarecidos, houve a separação das espécies, gerando o rato, chamado cientificamente de gênero Rattus, e o camundongo, chamado cientificamente de gênero Mus. O camundongo adulto é pequeno, leve e tem o formato de uma seta, principalmente considerando o focinho, sendo muito ágil com seu esqueleto flexível e com a capacidade de passar por locais muito pequenos em uma velocidade muito grande.

Os cientistas acreditam que os primeiros camundongos surgiram há cerca de 14 milhões de anos atrás, em uma região da Ásia, entre o Paquistão e a Índia. Mas esses animais não ficaram somente nessa região e se espalharam pelo mundo todo. Qual seria o principal motivo para esses animais viajarem tanto?

Primeiro, as próprias intervenções humanas, que geram desmatamento, principalmente em função da agricultura. Assim, o camundongo foi perdendo locais naturais de moradia e fontes originais de alimento. Como ele possui uma capacidade de adaptação muito grande, começou a procurar outras formas de alimento, arriscando-se e se aproximando do ser humano, bem como buscando lugares seguros para ter seus filhotes longe de predadores. Falando nisso, é importante considerar que o camundongo faz parte da dieta de quase todos os animais carnívoros. Por isso que esse animal é tão amedrontado e busca ficar o maior tempo possível escondido. O interessante é que o clima, a vegetação e o terreno em cada parte do mundo, onde esse bichinho é encontrado, são muito variados. Podemos ter regiões geladas e regiões muito quentes, como no deserto, e lá está o camundongo, capaz de se adaptar a todas a essas situações e a sobreviver criando seus filhotes nessas diferenças extremas.

Fica a pergunta: como observar diferentes indivíduos vindos de diferentes lugares? Uma diferença que podemos observar nesses animais é a cor da sua pelagem. Quando há alguma modificação no ambiente ou permanência em um novo local, esses animais sofrem adaptações para se protegerem de predadores, ficando camuflados e garantindo, assim, sua sobrevivência. Uma das diversas formas de fazer isso é pela cor dos pêlos. Por isso, existem camundongos cinza, cinza escuro, marrom e amarelado.

Eles, inclusive, conseguiram chegar a lugares cada vez mais distantes de sua origem com a ajuda dos seres humanos e de seus barcos, atravessando os oceanos. Desde a antiguidade, os camundongos tiveram uma relação muito próxima com o ser humano. Essa relação está baseada na oferta de comida para o camundongo. Onde tem comida, o camundongo está por perto. Ele come de tudo, por isso é chamado de onívoro, como nós! Prefere sementes duras, pois seus dentes da frente (incisivos) são grandes e finos e crescem o tempo todo. Então, eles precisam roer alimentos duros para desgastá-los. Este também é o motivo de serem chamados de roedores. Então, eles estão sempre em busca de alimentos e procurando o alimento mais fácil e seguro.

Camundongos podem ser domesticados e até usados como animais de estimação. No entanto, podem se tornar animais muito incômodos e competidores com os seres humanos, quando, por exemplo, encontram uma grande oferta de comida. Eles amam celeiros cheios de grãos estocados, em fazendas, ou mesmo o cais do porto de navios! Quando há grande oferta de alimento, há uma grande proliferação desses animais. Assim, esse animal também começou a ser um problema para os seres humanos, pois, além de destruir a possibilidade de consumo dos alimentos, podem transmitir doenças.

Outro ponto que atrai os camundongos é a forma como tratamos o lixo nas cidades. Quanto mais acumulamos lixo próximo às nossas casas e terrenos, mais estamos oferecendo alimentos aos camundongos, que procuram comida o tempo todo! Então, da mesma forma: mais lixo, mais alimento, mais filhotes e maior a possibilidade de ocorrer a transmissão de doenças.

A importância dos estudos científicos com camundongos

Crédito: Instituto de Ciência e Tecnologia em Biomodelos (ICTB/Fiocruz)

Toda essa história muda quando, no início do século XX, alguns criadores começaram a observar a procriação desses animais em cativeiro. Essa forma de reprodução deu certo. Então, os cientistas descobriram que, em laboratório, mantendo o bem-estar dos animais, ou seja, oferecendo boa água, comida, uma cama para fazer ninho e cuidando da saúde desses animais, eles podiam auxiliar os pesquisadores no estudo de graves doenças que acometem o ser humano.

Antes de um remédio ou vacina ser aplicado em humanos, há muitos riscos à nossa saúde que precisam ser conhecidos e descritos. Hoje, com o avanço de tecnologias e áreas como genética e biologia molecular, sabe-se que nosso código genético é muito semelhante ao do camundongo, o que nos ajuda a verificar cada detalhe das influências de novos medicamentos: para quem e em que condições cada um deve ser usado.

Assim, vacinas, antibióticos, analgésicos e outros medicamentos têm sido estudados e aplicados no ser humano somente após longos testes com os camundongos. De acordo com os princípios éticos, a legislação e as normas do Brasil, o compromisso dos cientistas é que o uso de animais em laboratórios deve oferecer a esses seres condições de vida muito semelhantes às de seu habitat, evitando quaisquer tipos de sofrimentos além da situação da pesquisa em si. A ideia é que se trabalhe para que um dia não se precise mais utilizar animais nesses processos.

No momento, centenas de camundongos estão ajudando o ser humano a encontrar uma vacina para o novo coronavírus, que causa a doença Covid-19, a pandemia que está acometendo toda a humanidade. Essa é mais uma razão para que façamos nossa reverência a esses valiosos parceiros da medicina e da saúde.

A vocês camundongos, nossa eterna gratidão!

E mais: O Museu da Vida (MV/COC), em colaboração com o Laboratório de Biologia Celular (IOC) e o Instituto de Ciência e Tecnologia em Biomodelos (ICTB/FIOCRUZ), está preparando pra vocês a Oficina “O camundongo, que bicho é esse?”.

Para ler mais: 

Susana Melo da Costa, Maria Inês Doria Rossi, Alexandre Andrade Evangelista, Gabriel Melo de Oliveira. Origin, Phylogeny and Natural Behavior of Mice: What is Their Influence on Welfare During their Maintenance in the House Facilities? Am J Biomed Sci & Res. 2019 - 5(5). AJBSR.MS.ID.000946. DOI: 10.34297/AJBSR.2019.05.000946. Link: https://biomedgrid.com/fulltext/volume5/origin-phylogeny-and-natural-behavior-of-mice-what-is-their-influence-on-welfare.000946.php

Alexsandre Andrade Evangelista, Susana Melo da Costa, Maria Inês Doria Rossi, Gabriel Melo de Oliveira. Wild Mouse & Laboratory Mouse: Historical Aspects, Genetic Selection and Welfare. Revista da Sociedade Brasileira em Ciência de Animais de Laboratório 2019 - 7(2).RESBCAL. ISSN 2238-1589. Link: https://www.sbcal.org.br/download/download?ID_DOWNLOAD=101.

 

Publicado em 10 de junho de 2020.

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