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O médico Vital Brazil é um dos grandes nomes da ciência brasileira. Ele foi fundador e diretor do Instituto Serumtherapico do Butantan (SP), onde desenvolveu, no início do século XX, os soros antiofídicos específicos contra os venenos das espécies de serpentes peçonhentas brasileiras. Este ainda é até hoje o único tratamento efetivo, que salva a vida de milhares de pessoas e animais. Atualmente, o número de acidentes com serpentes venenosas ainda é preocupante, tendo as jararacas como responsáveis por 90% dos casos em todo Brasil.

Para além de seu profundo conhecimento do assunto, Vital Brazil foi também um pioneiro em comunicação e saúde, criando diversas estratégias de comunicação para divulgar e envolver os cidadãos no seu projeto científico, em uma época em que as informações pouco circulavam. A médica veterinária, colunista de ciência e meio ambiente na rádio Bandnews FM e mestra em Divulgação Científica pela Fiocruz Érica Araújo pesquisou os esforços do cientista para divulgar a ciência, o que resultou na dissertação ‘Vital Brazil e as estratégias de defesa contra o ofidismo’. “[Queria] obter evidências, por meio da pesquisa, do quanto a comunicação pública da ciência é uma imprescindível aliada da medicina, na promoção da saúde”, explica. 

Érica Araújo compartilha, na entrevista do Conta Aí, Mestre desta semana, suas descobertas sobre o assunto a partir de perguntas enviadas pelos seguidores nas redes sociais do Museu da Vida. Conta tudo pra gente, mestra!

Julianne Gouveia (@_amarelodeserto): Oi, Erica! Qual era o contexto da saúde brasileira na época do Vital Brazil? Como era o acesso às informações de saúde pela população?
Érica Araújo: Vital Brazil atuou no início do século XX, num contexto particular de crescimento da nação, em que o próprio governo republicano se levantava, e a saúde pública fazia parte de um dos pilares na construção das políticas públicas do país. Naquela época, o Brasil enfrentava diversas epidemias que ameaçavam a população, como os imigrantes que chegavam para trabalhar. Para combater essas doenças, como a peste bubônica, febre amarela, varíola etc., o governo instaurou a reforma sanitária, investindo no desenvolvimento do trabalho de médicos sanitaristas e cientistas, através da criação de laboratórios de pesquisa que, entre outras atividades, levavam informações de saúde até as pessoas. Isso acontecia, porém, numa relação vertical, mantendo um distanciamento do público. Vital Brazil inovou a comunicação pública da ciência, pois ao contrário de seus pares, manteve uma relação horizontal com a população, promoveu o diálogo, a interação, e, além de falar, ele soube ouvir as pessoas. Numa época em que a maioria da população era analfabeta e vivia no meio rural, esse cientista trabalhou pela melhoria da educação e pela participação pública na ciência, democratizando o acesso à informação científica. O ofidismo era um problema oculto, pois acometia de forma isolada os cidadãos rurais e pobres. Por isso este público foi fundamental para divulgar as informações, através do boca a boca, sobre a existência do tratamento com os soros antiofídicos, as formas de prevenção dos acidentes e a atividades do Instituto Butantan. Vital Brazil teceu uma teia da comunicação, envolvendo também outros públicos que se engajavam para que as informações chegassem a todas regiões do país. Para isso produziu diversos materiais de divulgação científica, como cartazes, cartilhas, livros, cartões postais etc., além de realizar eventos, palestras, conferências em praças públicas, cursos. Ele também capacitou professores de escolas, realizou visitas monitoradas ao Butantan, entre outras ações. As publicações nos jornais e em artigos científicos davam acesso a uma reduzida parcela de cidadãos alfabetizados e aos pares.

Renata Fontanetto (@renata_fontanetto): Como você decidiu seu objeto de pesquisa? Qual foi o recorte que você deu à pesquisa?
Érica Araújo: Há mais de cem anos, Vital Brazil combateu os acidentes ofídicos e promoveu mudanças significativas que favoreceram a saúde pública e a preservação das serpentes, alicerçado em suas estratégias de divulgação científica, somadas às suas intervenções na arena social, econômica, política, cultural, entre outras. Beneficiou os cidadãos pela via da educação, da comunicação e promoveu a participação pública na ciência e tecnologia. Por meio dessa pesquisa, decidi recuperar um cientista que foi muito importante no passado e investigar quais foram suas estratégias de comunicação da ciência, os públicos que envolveu e os engajamentos alcançados em prol da defesa contra o ofidismo. Considerei que essas estratégias poderiam servir de exemplos no presente para um problema que segue sendo importante, sobre o qual temos um vazio de informações. O recorte temporal que escolhi foi de 1899 a 1920, período em que Vital Brazil permaneceu como diretor do Instituto Serumtherapico do Butantan (SP), a instituição que fundou e onde estabeleceu as bases sólidas do seu trabalho científico, até sua saída e a criação do Instituto Vital Brazil (RJ).

Renata Fontanetto (@renata_fontanetto): Quais foram suas fontes de pesquisa?
Érica Araújo: Realizei uma extensa pesquisa bibliográfica e documental, realizada nos acervos do Centro de Memória do Instituto Butantan (SP), do Instituto Vital Brazil (RJ), da Hemeroteca Digital da Fiocruz e da Hemeroteca Digital da Biblioteca Nacional. Também tive acesso a documentos enviados gentilmente por Érico Vital Brazil, neto de Vital Brazil. Além dos acervos documentais, a pesquisa consultou também algumas bases bibliográficas, como a Biblioteca Digital do Instituto Butantan, o Arquivo Público do Estado de São Paulo, a Scientific Electronic Library Online (SciELO), a Literatura Latino-americana e do Caribe em Ciências da Saúde (LILACS), a Medical Literature Analysis and Retrieval System Online (MEDLINE), Biblioteca Cochrane, Google Acadêmico e Biblioteca Digital Brasileira de Teses e Dissertações (BDTD).

Alanna Dahan (@admartinsseacucumber): @ericabichos, qual foi o seu maior desafio no levantamento de informações da vida de Vital Brazil? Além das instituições de pesquisa, a família dele te deu apoio? Houve esse contato?
Érica Araújo: Considero que tudo foi um grande desafio. Como veterinária, não tinha experiência prévia para lidar com documentos históricos digitais ou acervos, ainda sem tratamento. Este foi o caso do Butantan, onde me deram acesso a esses documentos que, como joias preciosas, com suas valiosas folhas comprometidas pelo tempo, me exigiram muito cuidado, sendo necessário o uso de equipamentos de proteção individual (EPI). Confesso que a emoção foi muito forte ao tocar as páginas de mais de 100 anos atrás, com a caligrafia de Vital Brazil, que, mesmo sendo difícil de entender, consegui transcrever para a dissertação. Precisei ainda fotografar cada um e viver uma grande ansiedade para conseguir encontrar os diversos materiais de divulgação científica que ele produziu, sendo que a maioria se perdeu. Outra expectativa foi tentar acessar um acervo que estava em transição para o Instituto Vital Brazil, mas não foi possível. Tive, porém, a honra de conhecer seu neto, Érico Vital Brazil, que me recebeu, contou diversas histórias com valorosas informações sobre seu avô e colaborou com esta pesquisa.

Mauricio Salles (@mauricio.salles): Das ações ou produtos de divulgação científica que o Vital Brazil idealizou, qual foi o mais importante?
Érica Araújo: Considero que não houve uma ação ou produto mais importante. Para plantar a comunicação num país com dimensões continentais, ao longo dos anos, Vital Brazil foi criando ações e produtos de “vulgarização da ciência”, como ele chamava na época, para alcançar o público mais amplo, não especializado, inclusive em outros países. Porém, diante dos documentos históricos, a ação que mais provocava maravilhamento do público era a demonstração prática da extração do veneno, com a possibilidade de aproximação e o contato físico com as serpentes.


“Vital Brazil abriu caminhos para a ciência moderna, e inseriu o público – a maioria, analfabeto – na esfera da ciência”

 

Renata Fontanetto (@renata_fontanetto): Alguma mídia te chamou mais atenção pelo conteúdo da divulgação científica? Qual?
Érica Araújo: Naquela época, a mídia que existia era o jornal, e, em 1909, o Correio Paulistano publicou uma interessante conferência pública que Vital Brazil realizou em São Paulo. De forma didática e atraente, ele falou sobre as espécies de cobras venenosas, as causas dos acidentes e quebrou alguns mitos: “As cobras não possuem, aliás, veneno para fazer mal ao homem e aos animais (...) necessitam, portanto, de um veneno violento que substitua as asas ou as garras dos seus inimigos ou de suas presas (...) Não é exato que as cobras agridam.” Após essas ações, continuava interagindo com o público por meio de cartas.

Renata Fontanetto (@renata_fontanetto): O Vital Brazil contava com parcerias na hora de realizar essas divulgações? Você conseguiu perceber outras instituições que chegavam junto?
Érica Araújo: Vital Brazil envolveu diferentes públicos no seu projeto científico, sendo pioneiro na prática da ciência cidadã, que atualmente é considerada como uma atividade de divulgação científica participativa. Seus maiores parceiros foram os cidadãos rurais, mas os políticos também tiveram uma participação fundamental, financiando e promovendo diversas ações. Ele recebia visitas no Butantan de célebres personalidades, como presidentes – inclusive de outros países -, reis, artistas, que difundiam seu trabalho científico. Seus pares fazem parte de um outro público que foi muito importante nesse processo. Vital Brazil alcançou o engajamento de instituições governamentais, empresas privadas e de outras instituições científicas, como o próprio Instituto Oswaldo Cruz, além de instituições internacionais. 

Renata Fontanetto (@renata_fontanetto): Quais outros cientistas ou cidadãos comuns colaboraram com ele nessa divulgação? Há alguma mulher cientista por trás desse trabalho?
Érica Araújo: Vou destacar aqui Adolfo Lutz, que foi o primeiro cientista a validar e divulgar a pesquisa de Vital Brazil. Aliás, foi ele que inventou a ferramenta de contenção das serpentes, amplamente utilizada, que ficou conhecida como laço de Lutz. Depois, colaboraram os pesquisadores que trabalharam no Butantan, professores de escolas, entre outros, sendo os cidadãos rurais os que mais difundiram o conhecimento. Sobre uma mulher cientista, vou pesquisar mais a respeito, mas, nos documentos históricos, infelizmente não identifiquei a presença de nenhuma mulher trabalhando com ele, “apenas cordiais citações no ambiente familiar, cuidando dos seus 18 filhos” (risos).

Julianne Gouveia (@julianne.gouveia): Como você avalia que a divulgação científica pôde evoluir a partir das iniciativas do Vital Brazil?
Érica Araújo: Vital Brazil abriu caminhos para a ciência moderna e promoveu a democratização da ciência, transformando cidadãos analfabetos em cientistas amadores. Traduziu o conhecimento científico para despertar o interesse, e nessa interação, interpretou a linguagem simples do povo rural, tornando científicos os recursos extraídos da medicina popular. Dessa forma, criou raízes fortes na divulgação científica, que dão frutos até hoje por meio das duas instituições que fundou e edificou (Instituto Butantan e Instituto Vital Brazil).Vital Brazil se tornou um “visible scientist”, uma figura pública que, atuando de modo transdisciplinar, entremeou e divulgou várias áreas do conhecimento durante seus estudos sobre o ofidismo, ligando a medicina - toxicologia, imunologia - com a biologia – herpetologia, ecologia -, a sociologia etc. Esses sucintos exemplo já mostram suas significativas contribuições. No entanto, seu nome não está nos livros de divulgação científica. Sendo assim, existe um vasto campo a ser explorado por futuros pesquisadores diante das valorosas ações que ele desenvolveu nessa área e da relevância em evidenciar ainda mais esse importante cientista brasileiro nos mais diversos espaços.  

Maria Belen (@ma.belen.au): Nos dias de hoje, que entendemos que estamos na era da comunicação, você acha que, falando desses temas, a população está mais ou menos informada que na época de Vital Brazil? Como passam a informação hoje?
Érica Araújo: Hoje, vivemos num cenário mais urbano, com bombardeio de informações, e estamos mais distantes do contato com a natureza - portanto, das serpentes também. No contexto atual, mesmo na era da internet, com a maior parte da população alfabetizada e diversos pesquisadores atuantes, temos um vazio de informações sobre as serpentes e o ofidismo. O cenário atual é de pessoas menos informadas, políticas públicas e informações epidemiológicas ineficientes, os acidentes ofídicos subnotificados e a população mais afetada sem oportunidades de diálogo, sendo negligenciadas. 

(Edição: Julianne Gouveia)

Publicado em 04/10/2019

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