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Segundo os cientistas, a vida no planeta Terra remonta a passagem por diversas eras geológicas, períodos de milhares de anos que refletem as transformações naturais na formação do globo. Alguns cientistas acreditam que podemos estar vivendo uma nova época, chamada de Antropoceno, que seria marcada pela ação desenfreada do homem no meio ambiente. Esse possível novo momento da Terra é o tema da exposição permanente do Museu do Amanhã e da pesquisa da mestra em Divulgação Científica Alanna Dahan. Bióloga de formação, Alanna foi educadora no Museu do Amanhã e tentou entender como os diferentes públicos se apropriam do tema na dissertação "Era dos Humanos: a divulgação científica na exposição principal do Museu do Amanhã". Ela conta algumas de suas descobertas na entrevista da semana do "Conta aí, mestre".

Julianne Gouveia (@julianne.gouveia): Alanna, pode explicar melhor do que exatamente se trata a teoria do Antropoceno?
Alanna Dahan:
Claro! :) Se separarmos a palavra ao meio e analisarmos semanticamente, veremos que “antropo” tem origem grega e significa ser humano. Já o sufixo “ceno” significa “eras geológicas”. Então, Antropoceno quer dizer “época dos humanos”, um termo inventado por um cientista químico chamado Paul Crutzen. Ele criou o termo para explicar sua teoria e constatação de que nós seres humanos temos a força de grandes catástrofes naturais e podemos afetar muito o planeta Terra a partir de nossos hábitos e estilos de vida. O que nós comemos, como nos locomovemos, como produzimos e descartamos lixos, como nos relacionamos entre nós e com a natureza, tudo tem um impacto muito grande ao planeta por conta do exacerbante crescimento populacional da humanidade. Hoje, somos mais de 7 bilhões de pessoas! Por conta disso a teoria do Antropoceno traz um alerta: precisamos refletir sobre o nosso futuro. Onde vamos parar com isso? Quais são as perspectivas? Como pacificar as demandas e os impactos? Essas e outras perguntas são apresentadas na exposição principal do Museu do Amanhã, que apresenta o Antropoceno a seus públicos.

Mª Fernanda Marques Fernandes (@fernandamarques81): Por que o tema é considerado controverso?
Alanna Dahan:
Porque não há um consentimento dentro da comunidade científica de que estamos de fato vivendo essa nova época geológica. Não que os impactos não aconteçam e não estejam a todo vapor, mas esse fato não necessariamente comprova o surgimento de um novo momento do planeta Terra. Há discussões sobre esse tema que o Museu do Amanhã não apresenta na sua exposição. Não é a proposta dele trazer esse questionamento.

Julianne Gouveia (@julianne.gouveia): A expo do Museu do Amanhã é super tecnológica. Como você avalia esse uso da tecnologia como proposta de aproximação do público com o tema, principalmente em termos de disseminação do conhecimento?
Alanna Dahan:
A tecnologia presente no Museu do Amanhã permite que os conhecimentos apresentados sejam sempre atualizados, mas não abrange todas as necessidades de um público diverso. Avalio que a exposição tecnológica não é acessível para públicos não letrados, para os considerados analfabetos tecnológicos e para as pessoas com alguns tipos de deficiência, como surdos, cegos, entre outros. Por conta disso, a disseminação do conhecimento possui barreiras significativas. Por outro lado, a tecnologia é um atrativo para o público adolescente e jovem.

Mª Fernanda Marques Fernandes (@fernandamarques81): Qual a metodologia usada na sua pesquisa? Os visitantes foram ouvidos?
Alanna Dahan:
Trabalhei com uma metodologia qualitativa, construindo e analisando a transposição didática do módulo da exposição do Museu do Amanhã que aborda o Antropoceno. Transposição didática é a estratégia para transformar um conhecimento científico em algo palpável, acessível a diversos tipos de público.

Mª Fernanda Marques Fernandes (@fernandamarques81): De acordo com o estudo, o que "funciona" e o que "não funciona" na exposição?
Alanna Dahan:
Minha análise não tem a intenção ou propriedade para dizer o que funciona ou não na exposição, e, sim, apontar as estratégias utilizadas pela equipe do Museu do Amanhã, trazendo até certas críticas construtivas. Por exemplo, o Museu do Amanhã apresenta o Antropoceno como se fosse uma nova "era" geológica. Na verdade, geologicamente falando, o termo certo a ser utilizado é “época”. O Antropoceno é a teoria de uma nova época geológica. Na geologia, essa mudança de conceito tem uma escala de tempo enorme, diferente uma da outra.

"A teoria do Antropoceno traz um alerta: precisamos refletir sobre o nosso futuro."

Leo Nunes (@lelesk): Tem alguma coisa que você destaca mais no conteúdo audiovisual da exposição? Alguma estratégia que engaje mais o público, por exemplo, ou que seja mais interessante?
Alanna Dahan:
O módulo do Antropoceno é conhecido por ter um “boom” de informações de diferentes escalas que são apresentadas aos visitantes. Acho interessante as informações serem atualizadas constantemente e serem apresentadas no Simulador Central de uma forma bonita, esteticamente falando, e também poética, pelas imagens e textos escolhidos. O Simulador é realmente o que se destaca nessa área do Museu do Amanhã.

Museu do Amanhã (@museudoamanha): No seu trabalho como educadora, você sentia que o público conseguia entender um conceito que parece tão abstrato e distante do dia a dia como o "Antropoceno"? E sentia nelas a compreensão da urgência de mudança de hábitos?
Alanna Dahan:
Oi, museu! Rs. Percebia que o conceito do Antropoceno ficava mais claro quando o visitante fazia uma visita mediada com educadores. Inclusive, algumas pessoas que tiveram experiências de visitas livres e mediadas traziam esse feedback para nós. Sobre a compreensão da urgência, é difícil falar. As pessoas, muitas vezes, demonstravam incômodos com a consciência da proporção dos nossos impactos, mas é difícil saber como esse incômodo reverbera fora do Museu do Amanhã, após a visita.

Ana Luiza Vettorazzi (@ana.l.vettorazzi): O Antropoceno é definido como a nova era que pode trazer transformações singulares ao planeta. Em outras eras, os seres que habitavam foram dizimados por catástrofes naturais, como a queda de asteroides. Neste contexto, quais seriam os principais eventos catastróficos supostamente já desenhados (desmatamento, mudanças climáticas) que também podem trazer o risco de dizimar a vida na terra na era antropocênica? 
Alanna Dahan:
 Na verdade, não é porque definimos uma nova época ou era geológica que isso quer dizer que vão ocorrer catástrofes naturais, onde as espécies vivas serão dizimadas. A ordem, nesse caso, é inversa. Grandes catástrofes ou mudanças climáticas é que delimitam uma nova era geológica. Na teoria do Antropoceno, é a partir das mudanças climáticas que já fizemos que surge essa nova época. Claro, a partir dessas mudanças, muitas coisas ainda podem ocorrer, como maiores espaçamentos de secas e tempestades muito severas, interferindo em nossas produções agrícolas, por exemplo, além do aumento do nível do mar e aumento de sua acidez, o que pode levar ao desaparecimento de cidades costeiras e à morte de muitas espécies marinhas. Essas e outras informações são colocadas na exposição do Museu do Amanhã. Acho que vale uma visita, viu?

Carolina Vaz (@carol_vaz_balao): Para além da transformação na paisagem (estruturas em concreto, lixo etc.), que outro sintoma a humanidade vai deixar no planeta que o marcará pelos próximos milhares de anos? O que mais é irreversível além do nosso lixo?
Alanna Dahan:
 Você apontou grandes impactos da humanidade em relação à Terra, que são a construção de cidades e a produção de lixo. Acho importante refletir sobre essa diversidade de lixos, que não são só resíduos do dia a dia da população, mas, principalmente, resíduos químicos industriais, que poluem as águas dos rios e mares, as cidades e o campo. Há um sintoma, além desses apontados, que a humanidade também deixa, e esse afeta diretamente a própria humanidade, que é o aumento da desigualdade social. O que interfere diretamente nos vínculos e modos de vida das pessoas interfere intrinsecamente nas questões sociais, econômicas e políticas das cidades, reverberando na relação com a natureza. Está tudo conectado. A exposição do Museu do Amanhã tenta trazer um diálogo sobre esses pontos essenciais para que a gente possa refletir. 
 

Com edição de Julianne Gouveia.
Publicado em 27/09/2019.

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