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Comunicador por formação, o especialista e mestre em Divulgação Científica pela Fiocruz Mauricio Salles acumula mais de dez anos na produção de vídeos científicos sobre a vida marinha. Ele trouxe a bagagem profissional para descobrir como os pesquisadores das ciências do mar são retratados pelas reportagens dos canais da televisão aberta brasileira na dissertação ‘A ciência oceânica na TV: o caso do Arquipélago de São Pedro e São Paulo’. Mauricio tomou como estudo de caso a cobertura da ocupação científica do Arquipélago de São Pedro e São Paulo. O pequeno conjunto de ilhas localizado entre o Brasil e a África possui uma estação de pesquisa há mais de duas décadas. Dezoito reportagens foram analisadas. “Vi nessa pesquisa a possibilidade de juntar duas paixões: a divulgação científica e as ciências do mar, que é um área que eu admiro muito”, explica. O pesquisador responde a perguntas dos seguidores do Museu da Vida sobre os estereótipos das ciências do mar, seus profissionais e outros assuntos em mais uma edição do Conta Aí, Mestre. 

Renata Fontanetto (@renata_fontanetto): O que a gente pode entender por ciências marinhas? Quais áreas entram dentro dessa grande área?
Mauricio Salles:
As ciências do mar envolvem diversas áreas do conhecimento, como a oceanografia, a biologia, a física, a química e a geologia. Nas reportagens que analisei, dos 13 cientistas entrevistados, onze eram biólogos e dois eram geólogos. Entre as pesquisas que esses cientistas realizam no Arquipélago de São Pedro e São Paulo (ASPSP), posso citar como exemplo o monitoramento de animais como o tubarão-baleia, os golfinhos, polvos, lagostas e tubarões, o estudo de substâncias químicas presentes nas algas e esponjas para a produção de remédios, estudos sobre os terremotos que são bastante comuns, entre outras.

Renata Fontanetto (@renata_fontanetto): Como as ciências marinhas foram retratadas nessas reportagens analisadas?
Mauricio Salles:
Enquanto na literatura acadêmica destaca-se o estereótipo do cientista, homem, com jaleco branco e óculos de grau que trabalha em laboratórios, nas reportagens analisadas, os cientistas marinhos usam roupa de mergulho, camiseta, bermuda e óculos escuros, e aparecem trabalhando majoritariamente no fundo do mar. Entre os estereótipos clássicos, o que mais se aproxima dos cientistas das reportagens é o estereótipo do cientista aventureiro, aquele que enfrenta perigos e obstáculos naturais para obter sucesso em suas pesquisas. Os cientistas foram ouvidos sobre temas relacionados ao meio ambiente, pesquisas científicas, saúde, potencial científico do local, riscos inerentes às pesquisas marinhas realizadas no Arquipélago de São Pedro e São Paulo, seus sentimentos e emoções. Temas críticos, como financiamento das pesquisas oceânicas, estiveram ausentes das falas dos cientistas. Embora as reportagens tenham entrevistado um total de sete cientistas homens e seis cientistas mulheres, o  tempo de fala dos cientistas homens foi quase duas vezes maior do que o tempo de fala das mulheres cientistas. O preconceito envolvendo o trabalho de pesquisadoras no campo também foi verificado, bem como imagens que associam o trabalho doméstico às mulheres cientistas.

Renata Fontanetto (@renata_fontanetto): Como você escolheu as reportagens que analisou?
Mauricio Salles:
Fiz uma busca no YouTube sobre o Arquipélago de São Pedro e São Paulo e verifiquei que praticamente todos os canais da TV aberta brasileira realizaram reportagens e até séries especiais sobre o tema. Percebi então que tinha nas mãos um excelente material para pesquisa. Mas por que esse interesse tão grande das emissoras por um minúsculo conjunto de ilhas, menor do que um campo de futebol, localizado entre o Brasil e a África? É que a ocupação ininterrupta desse arquipélago dá direito ao Brasil de explorar com exclusividade, segundo leis internacionais, uma área quase do tamanho do estado da Bahia. Essa área é rica em recursos pesqueiros, minérios e, possivelmente, petróleo. Essa ocupação  é feita de 15 em 15 dias por um grupo de quatro cientistas com apoio de pescadores e da Marinha do Brasil.

Catarina Chagas (@catarinachagas): Maurício, como você avaliou as matérias? Chegou a conversar com os repórteres que as produziram? Ou com alguém que assistiu?
Mauricio Salles:
Nesse tipo de pesquisa, conversar com o repórter ou com alguém que assistiu a alguma das reportagens não foi necessário. O meu trabalho consistiu em fazer uma análise quantitativa do conteúdo das reportagens, que inclui desde os artifícios técnicos utilizados, como música e vinhetas gráficas, até os enfoques abordados nas reportagens. Entre os temas, os mais citados foram a presença de pesquisadores na ilha e os desafios da ocupação humana no Arquipélago de São Pedro e São Paulo. Todas as reportagens abordaram esses temas. Os principais enfoques das reportagens foram o científico e tecnológico, e o ambiental. Depois, fiz uma análise qualitativa dos resultados mais relevantes, o que me possibilitou discutir, por exemplo, a questão do preconceito envolvendo a mulher cientista no trabalho de campo no mar e a falta de um discurso mais crítico relacionado ao financiamento da pesquisa oceânica, por exemplo, por parte dos cientistas.

 

"É importante o repórter ouvir todos os atores sociais que fazem parte do tema e entender que a ciência não vive 'isolada em um castelo'."

 

Renata Fontanetto (@renata_fontanetto): Por que você escolheu focar no Arquipélago de São Pedro e São Paulo? Você já foi lá? Se já foi, como descreveria a sensação de mergulhar por lá para uma pessoa que nunca mergulhou?
Mauricio Salles:
Em 2006, editei um vídeo para o projeto de doutorado em biologia marinha do pesquisador Fernando Moraes sobre o ASPSP. Esse vídeo ganhou o prêmio de melhor documentário científico do Mercosul em um evento promovido pela UFRJ, coordenado pelo nosso querido professor Ildeu Moreira. Portanto, além de ser um tema marcante na minha vida, acredito que o ASPSP seja um local muito importante para a ciência nacional, e - por que não dizer? - para o Brasil. Não, eu nunca fui ao Arquipélago de São Pedro e São Paulo, mas sei que o mergulho lá é perigoso devido às fortes correntezas na região.

Fernanda Monteiro Gama (@monteiranda): Minha curiosidade é: quais seriam os "futuros remédios" [da foto da postagem de chamada]? :D
Mauricio Salles:
Algumas pesquisas realizadas no Arquipélago de São Pedro e São Paulo buscam encontrar substâncias químicas, presentes em algas e esponjas, por exemplo, que possam ser utilizadas na produção de remédios contra o câncer e outras doenças.

Julianne Gouveia (@julianne.gouveia): Que diferenças você percebeu entre os canais da TV aberta sobre a visão da produção científica brasileira relativa à vida marinha? Algum se focou mais nessa questão da "aventura" que os demais? Caso sim, a que você credita esse posicionamento?
Mauricio Salles: A ideia da pesquisa não foi fazer uma comparação entre os canais, até porque houve canal que produziu mais de 50 minutos de conteúdo e outros bem menos. O que eu posso afirmar é que todas as reportagens abordaram o tema “desafios da ocupação humana do Arquipélago de São Pedro e São Paulo”. Esses desafios incluem terremotos, ondas gigantes, tubarões, fortes correntezas marinhas, distância do continente, bicadas das aves, saudade de casa, entre outros. As reportagens também utilizaram vários recursos técnicos como música, vinhetas gráficas, imagens aéreas, submarinas e de arquivo para reforçar ainda mais esse clima de aventura. Eu credito esse posicionamento a uma tendência das emissoras de priorizar a espetacularização das reportagens científicas, em detrimento a, por exemplo, mostrar os processos científicos, as incertezas, as metodologias e os resultados das pesquisas científicas.

Edu Carvalho (@eduardo.carvalho.942): Mauricio! Como podemos ampliar a abordagem do tema sem que a visão aventureira seja o princípio/norte?  E como nós, produtores de conteúdo, podemos ficar mais atentos ao que foi estudado e publicado para tornar pauta?
Mauricio Salles:
Para responder a sua pergunta, vou primeiro explicar a metodologia da minha pesquisa. Utilizei como metodologia o protocolo de análise de conteúdo de telejornais desenvolvido pela Rede Ibero-americana de Monitoramento e Capacitação em Jornalismo Científico, com algumas adaptações. Com isso, pude verificar todos os temas e enfoques que foram abordados nas reportagens. Fiz a quantificação de todos os assuntos presentes nas reportagens e classifiquei cada um deles de acordo com um desses seis enfoques: científico e tecnológico, político e econômico, militar, ambiental, social e histórico. A partir dessa quantificação, pude verificar, por exemplo, o quanto o enfoque social foi pouco abordado nas reportagens. Os pescadores, por exemplo, que são um grupo bastante relevante para a ocupação científica do Arquipélago de São Pedro e São Paulo, só foram entrevistados em uma reportagem, e, mesmo assim, o tempo de fala deles foi de 11 segundos (enquanto os cientistas falaram mais de 15 minutos nas reportagens). Nesses 11 segundos, os pescadores reclamaram da grande quantidade de tubarões (cuja pesca é proibida no arquipélago), o que atrapalha a pesca de atum na região. Com essa fala, percebi que nenhuma das 18 reportagens analisadas explorou a controvérsia envolvendo, de um lado, os pescadores e, de outro, as políticas públicas e os cientistas que defendem a proibição da pesca do tubarão. Essa controvérsia renderia uma boa pauta. Aliás, o Brasil está vivendo essa controvérsia atualmente com a tentativa do Ministério da Agricultura de tentar liberar, junto ao Ministério do Meio Ambiente, a proibição de algumas espécies de peixes ameaçadas. Enfim, acho importante o repórter ouvir todos os atores sociais que fazem parte do tema e entender que a ciência não vive “isolada em um castelo” - ou seja, existem vários enfoques, como os que eu já citei aqui, dentro de uma reportagem com conteúdo científico.


Com edição de Julianne Gouveia.
Publicado em 06/09/2019.

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