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Quatro atrizes negras dão vida às personagens de “Cidadela”, nova peça do Museu da Vida, que busca discutir questões de gênero, desconstruir preconceitos e valorizar o papel das mulheres na sociedade. Nesta série de entrevistas, vamos apresentar essas quatro mulheres incríveis, cujo trabalho vocês poderão conferir, a partir de 16 de agosto, no palco da Tenda da Ciência. A entrevista da vez é com Rebecca Gotto, que se entrega de alma e coração ao interpretar a indomável Marina Lá Se Foi.

Museu da Vida: A gente gostaria que você falasse um pouquinho da sua trajetória profissional.
Rebecca Gotto:
Tenho 32 anos e comecei aos 13, no grupo de teatro amador da escola. Foi muito importante pra mim. Tive uma infância muito caseira, não saía pra rua, só pra escola. Ficava vendo muita televisão, muita novela mexicana. E isso desenvolveu o dom que tenho de interpretar. Já atuei em vários projetos. Em 2015, ingressei no coletivo Transarte, grupo teatral formado somente por pessoas trans - eu sou uma mulher trans. Nesse grupo, passei a ver meu trabalho valorizado. Já participamos de três festivais. Apresentamos duas peças: “Mulheres de Tebas” e “A peça da Valdirene”, que conta a história da primeira mulher trans a fazer a redesignação sexual aqui no Brasil, na época da ditadura. Também trabalhamos com um diretor internacional, o Kit Headstone, com quem montamos uma peça sobre nossas vivências pessoais, "Vinde a mim como estás". Ela virou um documentário curta-metragem, lançado este ano. Mergulhei na onda dos curtas-metragens. Filmei “Lábios negros”, de minha autoria, que será lançado em breve, sobre o autorracismo, um tema sobre o qual raramente se fala, que é quando a pessoa negra não se aceita, e tem preconceito consigo mesma e com outras pessoas negras. E agora estou aqui, no Museu da Vida, construindo essa história linda, “Cidadela”, com minha dedicação total. 

Museu da Vida: Falando um pouco de Rebeca agora, quem é Rebeca na vida?
Rebecca Gotto:
É uma alegria. Sou muito sonhadora, criançona até, dou muita atenção à fantasia, inclusive quando quero criar minhas histórias. Sou uma mulher alto astral e muito de bem com a vida. Até nos momentos difíceis da minha vida lembro que tudo tem o seu lado bom. Por isso que eu amo teatro. Atuar é uma terapia pra mim: às vezes, você não está num bom momento, mas empresta seu corpo pra um personagem. Gosto disso. Atuar pra mim é um sonho, porque me entrego de alma e coração. É muito importante pra mim ser Rebeca Gotto.

Museu da Vida: Por que é importante ter mulheres negras nas ciências, nas artes, no teatro, onde elas quiserem?
Rebecca Gotto:
É fundamental que nós, mulheres negras, ocupemos todos os espaços, porque durante tanto tempo não tivemos essa oportunidade. A gente precisa mostrar que merece ocupar os espaços. Antigamente, a gente não podia fazer isso. Chegou a nossa hora de mostrar que somos iguais. Igualdade é algo que sempre esteve aí, só que muita gente virava as costas pra isso. Agora, a gente veio pra bombar, pra mostrar que direitos são iguais pra todos.

Museu da Vida: E a importância de falar também sobre mulheres trans?
Rebecca Gotto:
Com certeza! A gente tem que quebrar esse preconceito de que mulheres trans só podem ser cabeleireiras ou garotas de programa... Temos que ter um leque de opções. A gente tem que ser o que a gente quiser! Temos o direito de estar onde quisermos. Se queremos ser cientistas, atrizes ou qualquer outra coisa, temos potencial pra isso! Acho maravilhosa essa iniciativa do Museu da Vida, essa troca de conhecimentos. Estou gostando muito. 

Museu da Vida: Você pode dar um spoiler pra gente sobre sua personagem na peça?
Rebecca Gotto:
Marina Lá Se Foi veio pra causar uma revolução! Ela é aquela que não leva desaforo pra casa. Posso defini-la como uma mulher feminista, que não deixa a opinião dela ser apagada, principalmente pelos homens machistas. Ela quer afirmar o que pensa, não importa o quanto tentem impedi-la. Ela é indomável! (Na foto, Rebeca interpretando Marina. Crédito: Jeferson Mendonça - COC/Fiocruz)

 

Museu da Vida: O que pode nos contar sobre os ensaios?
Rebecca Gotto:
Muito produtivos e, ao mesmo tempo, emocionantes. Está vindo muita emoção, diversão e aprendizado por aí! Eu sinto que não é só um trabalho, uma peça. Não. Tem alma, tem muito sentimento envolvido. É muito encantador estar aqui. Nos ensaios, corremos contra o tempo, mas estamos adorando! Espero que as pessoas gostem, porque tudo está sendo construído com muito amor. É o que a gente quer: passar todas as mensagens do texto de uma forma que as pessoas saiam daqui com outra visão, uma visão libertadora, que desbloqueie determinados pensamentos.

Museu da Vida: E a interação com a equipe?
Rebecca Gotto:
Maravilhosa! Desde a profissional da limpeza até nossa diretora, todos são ótimos! Equipe melhor não poderia existir. É uma família que a gente está construindo aqui. Já até sei que vou sentir muita falta quando acabar. Entre os 200 currículos enviados, entre as 20 atrizes chamadas para o teste, ser uma das quatro selecionadas já é um prêmio. No dia do teste, eu via potencial em todas! Mas nós quatro estamos em total sintonia com nossas respectivas personagens. 

 

Publicado em 12/08/2019.

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