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Chegou a hora de conhecer o elenco de “Cidadela”, novo espetáculo teatral do Museu da Vida, com estreia marcada para 16 de agosto, às 13h30, na Tenda da Ciência. A entrevistada de hoje é uma mulher de muita fé, determinada, que sabe o que quer e não perde o foco para alcançar seus sonhos. Professora aposentada, tem na personagem Justa Plena de Si seu primeiro trabalho profissional no teatro. Nascida no Maranhão e ex-moradora de rua no Rio de Janeiro, a atriz se define como “alguém que aprendeu a ser forte e a resistir”. No palco do Museu da Vida, interpreta “uma líder que consegue enxergar a ancestralidade e passar essa força para outras mulheres de outras gerações”. Com vocês, Loullyz Maranhão!

Museu da Vida: Quem é Loullyz Maranhão?
Loullyz Maranhão: Ela vem realmente do Maranhão, fugindo da violência doméstica que sofria. Isso fez com que ela, a mãe e um irmão menor fugissem aqui para o Rio de Janeiro. Vivemos um longo tempo na rua, um período de muita angústia. Nos momentos em que me desesperava, eu tinha uma fortaleza do meu lado, minha mãe, que me puxava pra cima e me dizia que eu precisava resistir, ter um foco, porque um dia seria diferente, haveria uma transformação. Minha mãe me fazia crer que, com Deus e determinação, eu conseguiria alcançar meus sonhos de estudar, seguir uma carreira. Nós precisávamos que alguém nos escutasse. Um dia, pedindo um lanche a uma pessoa, ela começou a conversar comigo e transformou a minha vida. Foi um primeiro divisor de águas. Essa pessoa me deu trabalho – limpar o condomínio onde ela morava – em troca de comida. Nesse condomínio, outros vizinhos me ofereceram trabalho para lavar e passar roupa. Comecei a ganhar um dinheiro, fui me fortalecendo, alugamos um quartinho, iniciei os estudos à noite, me formei professora. Durante muito tempo continuei trabalhando em casa de família, porque a oportunidade de trabalhar numa escola só viria mais tarde. Sou muito grata a Deus e hoje conto tudo o que passei não como vítima, mas como alguém que aprendeu a ser forte e a resistir. 

Museu da Vida: E como o teatro entrou na sua vida?
Loullyz Maranhão: A partir do momento em que me formei professora. Na verdade, sempre quis ser atriz, desde criança. Eu percebia essa veia, mas não tinha nenhuma condição de desenvolver isso. O que eu fiz? Como professora, sempre trabalhei com jardim da infância e eu usava a linguagem do teatro em tudo: para ensinar as cores, as formas... Usava muita música, dança... Fazia teatro de bonecos, de sombras... Eu não dominava a parte técnica, porque não tinha estudado nada sobre teatro, mas eu via as pessoas fazendo, copiava e levava pra dentro da sala de aula. Incentivei outras professoras e criamos um grupo de teatro na escola. Assim, eu conseguia exercer a atriz que eu tinha dentro de mim. Quando chegou minha aposentaria, aí falei: agora, vou usar o tempo pra estudar teatro, o que eu sempre quis. Não dava pra pagar um curso profissionalizante, mas fiz vários cursos livres de teatro e, nessas oportunidades, encontrei pessoas que, vendo meu interesse, me deram bolsas para outros cursos, workshops e oficinas. Sou muito grata. O mundo é constituído de pessoas ruins, mas é muito mais de pessoas boas. Estas é que constroem o mundo!

Museu da Vida: E como foi o teste para participar do elenco de “Cidadela”?
Loullyz Maranhão: Nas oficinas por que passei, apresentei várias peças como trabalho final, mas sempre com o propósito de aprender, dentro do processo de formação de atores. “Cidadela” é o meu primeiro trabalho profissional mesmo. É tudo o que eu sempre sonhei e acreditei. No dia em que consegui a vaga aqui, me emocionei demais; um filme todo passou na minha cabeça. Pra muitas atrizes, este poderia ser só mais um trabalho; pra mim, é um divisor de águas. Estou muito feliz de ter essa chance na minha idade. Imagina!

Museu da Vida: Por que é importante ter mulheres negras no teatro, na ciência e onde elas quiserem?
Loullyz Maranhão: A mulher é muito desprivilegiada em nossa sociedade. Em termos financeiros, ela ganha um valor menor do que um homem exercendo a mesma função. No caso da mulher negra, isso é ainda mais grave, considerando a estrutura em que se formou o país, com a escravidão. Ela é vista como inferior, incapaz. Tanto que é motivo de surpresa quando uma mulher, principalmente uma mulher negra, ocupa um cargo importante. As pessoas têm até dificuldade de entender... Todas as gerações precisam conhecer o nosso poder, a nossa força que move a sociedade. Não pode mais ser como era antigamente. Mulheres faziam músicas, escreviam poemas, mas não podiam assinar com o nome delas, era preciso colocar o nome de um homem. Coincidentemente, acabo de fazer um curso de cinema e o trabalho final do grupo foi o documentário “Procuram-se mulheres”, sobre a invisibilidade das mulheres no samba, premiado em um festival em Pernambuco. Precisamos falar da importância da mulher, o que incomoda – por isso, às vezes, querem nos calar.

Museu da Vida: Isso nos leva de volta à “Cidadela”, onde as mulheres não podiam falar... Como é sua personagem na peça?
Loullyz Maranhão: Eu faço a Justa Plena de Si. Em geral, quando você compõe um personagem, vai buscar – no consciente e no inconsciente – alguém que tenha aquelas qualidades para ser seu parâmetro, sua referência... No caso da Justa, eu a comparo com a minha mãe, uma mulher forte, poderosa, sem a cultura da escola, mas com a cultura do saber, da vivência. Uma líder que consegue enxergar a ancestralidade e passar essa força para outras mulheres de outras gerações, para que elas se unam e percebam a força que têm. Justa é justamente essa mulher que fornece a base estável para que outras possam se erguer e crescer. (Na foto, Loullyz interpretando Justa. Crédito: Jeferson Mendonça - COC/Fiocruz)

Museu da Vida: Como estão sendo os ensaios?
Loullyz Maranhão: Maravilhosos em todos os aspectos: da aprendizagem, do conhecimento, da realização de um sonho. A palavra que resume tudo é gratidão: pelo trabalho, pela equipe, pela paciência, pelo apoio, pelo incentivo. Eu percebo que estou me transformando positivamente e, cada vez mais, tenho certeza de que valeu a pena minha resistência. 

Museu da Vida: E a interação com a equipe?
Loullyz Maranhão: Eu não tive filhos. Sempre considerei que os meus filhos foram os alunos que tive durante minha vida inteira, os filhos que ajudei a cuidar. Agora, em relação à equipe do teatro, pela jovialidade, pela criatividade, também os vejo como filhos que eu gostaria de ter. Eles me fazem tão bem! Não é só o teatro em si. É um trabalho humano, com muita conversa, muitas trocas. Eu sinto essa soma. Estou muito feliz. 

Museu da Vida: Muito obrigado pela entrevista! Gostaria de nos dizer algo mais? 
Loullyz Maranhão:
Sim, gostaria de agradecer. A todos os professores de teatro que fazem parte da minha história de vida, me recheando de forças para continuar... a palavra é: gratidão! Hoje faço parte da Companhia de Teatro Tumulto, que foi criada na Cidade de Deus e ministra seu curso na Cufa (Central Única das Favelas) de Madureira. Para o desenvolvimento do estudo, a estruturação e fortalecimento do meu aprendizado no teatro e também no cinema, foi fundamental o professor Paulo Gomes, da Companhia Tumulto, pelo apoio e orientação com seu livro sobre o assunto. Gratidão! 

 

Publicado em 12/08/2019.

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