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Um mundo novo se abriu para Thaynara Flôr Marques quando, já na adolescência, ela visitou um museu pela primeira vez durante um passeio da escola. A cientista social, professora do Ensino Básico e agora mestre em Divulgação Científica levou um pouco dessa experiência pessoal para a dissertação "O jovem e a exposição: uma análise sobre os objetos e a produção de sentidos no Museu da Vida", defendida em julho na Casa de Oswaldo Cruz (COC/Fiocruz). Thaynara buscou compreender a relação museu/escola e, para isso, entrevistou alunos do Ensino Médio da Rede Pública do Rio de Janeiro que visitaram duas exposições do Museu da Vida: "Insetos Ilustrados" (já encerrada) e Parque da Ciência. Ela responde aqui às muitas perguntas enviadas pelos seguidores do Museu da Vida sobre o assunto e levanta um debate super atual sobre educação, ciência e acesso ao conhecimento para os jovens das escolas públicas da cidade. 

Julianne Gouveia (@_amarelodeserto): Muito se fala sobre a dificuldade que a escola de hoje possui em reter a atenção dos jovens para os conteúdos, dado o modelo de educação quase analógico ainda vigente. Como você vê esse tipo de estratégia pedagógica (levar os estudantes ao museu) diante do cenário atual?
Thaynara Flôr:
Minha pesquisa demonstrou que espaços de educação não formal, como os museus, são muitos enriquecedores. São a oportunidade que os estudantes têm de ver de forma diferente os conteúdos aprendidos em sala de aula. A relação museu/escola ganha outro significado para eles. E, diante do cenário que vivemos em nosso país hoje, acho que é fundamental essa parceria se fortalecer, pois tanto a escola quanto o museu são ambientes de educação, conhecimento, pesquisa e cultura, elementos importantíssimos para a nossa formação humana, e precisam ser valorizados. 

Joaquim Nogueira (@fisjnogueira): A visita aos museus e ambientes culturais diversos pelos alunos que entrevistou é algo natural e cotidiano ou é uma experiência rara na vida deles? Existe incentivo por parte do poder público em apresentar esses novos espaços de ciência e cultura aos estudantes das redes públicas de educação do Rio de Janeiro?
Thaynara Flôr:
Um dos resultados da minha pesquisa mostrou que frequentar ambientes culturais não é algo natural para eles. Muitos, inclusive, estavam no museu pela primeira vez. Diversos estudos mostram que ainda é pela escola que eles têm acesso a ambientes culturais como este. Infelizmente, desconheço alguma iniciativa da Rede Pública de Educação do Estado do Rio que estimule este tipo de ação cultural e educativa. O que vejo são iniciativas de professores que levam os estudantes a estes lugares. Acho que um dos caminhos seria haver mais pesquisas tanto na área de educação quanto de educação em museus que possam mostrar a importância destes espaços, além da criação de políticas públicas que atendam a essa necessidade. Os jovens estudantes de escolas públicas devem ter esse direito.

Julianne Gouveia (@_amarelodeserto): Você percebeu diferenças entre os visitantes quanto a perfis etários ou de gênero relacionadas a questões como tipo de interação, melhor apreensão do conteúdo etc.? Pode falar sobre isso?
Thaynara Flôr:
É importante dizer que eu não tinha como objetivo do meu estudo perceber apreensão de conteúdo durante a visita, mas como os estudantes relacionavam o que já sabiam com o objeto na exposição. Mas os jovens, em geral, andam em grupo, e no museu não é diferente. Ao andar pela exposição, eles interagem muito com o grupo para compartilhar o que estão vendo e achando interessante. O que observei foi que, às vezes, um estudante se detinha mais em um objeto ou equipamento por ter um interesse pessoal sobre o tema abordado. Era uma postura individual por interesse e curiosidade, e não coletiva.   

Julianne Gouveia (@julianne.gouveia): Você percebeu na pesquisa algum tipo de crítica (positiva ou negativa) dos jovens sobre a natureza dos museus de ciência? Quais foram as principais impressões deles captadas?
Thaynara Flôr: Muitos estudantes que participaram da minha pesquisa tinham visitado poucos museus. Alguns nunca tinham ido a um museu de ciência. Por isso as impressões deles sobre a visita ao Museu da Vida foram positivas, estavam entusiasmados, ansiosos pelo que veriam nas exposições. No geral, as expectativas eram boas. Uma das coisas de que eles mais falaram sobre estar em um museu de ciências foi poder ter contato com instrumentos científicos, ver de perto uma célula, os mais diversos insetos, perceber na prática os conhecimentos deles da área de Biologia, Física e Química, além de conhecer mais sobre a história da saúde pública na cidade do Rio de Janeiro.  

Mariana Breyer (@mariana.breyer.90): Do que os jovens mais gostaram nas exposições? E do que eles menos gostaram?
Thaynara Flôr:
Minha pesquisa foi feita em duas exposições do Museu da Vida, a exposição "Insetos Ilustrados" (já fora de cartaz) e o Parque da Ciência. Posso dizer que o que eles mais gostaram foi de estar no museu, ver as exposições e os objetos (muitos que eles já conheciam e outros que estavam vendo pela primeira vez), além de poder participar de uma pesquisa científica. Foram experiências que eles curtiram bastante. O que menos gostaram foi de não conseguir visitar mais espaços expositivos devido ao tempo. Uma visita mediada dura três horas, em média, e o grupo visita dois espaços do museu.

Patricia Zamorano (@patricia.zamorano.5): O impacto de visitar um museu é só imediato, nos dias logo depois da visita, ou ele tem um efeito mais duradouro na vida desses jovens?
Thaynara Flôr:
Essa é uma boa questão. Como educadora, eu tendo a pensar que o efeito de uma experiência educativa e cultural não é imediato, e, sim, algo que só vai poder ser mensurado a longo prazo. Um conteúdo ou experiência leva tempo para ser sedimentado e se transformar em conhecimento, mas tenho certeza de que o impacto de frequentar ambientes culturais ao longo do Ensino Básico fará toda a diferença na vida educacional, cultural e social destes estudantes.

Gabriel Mascarado De (@gabriel.del11): Diante dos resultados obtidos, qual a sua sugestão para aumentar a capilaridade da cultura científica na juventude? Há algum projeto da Fiocruz para a expansão desse alcance?
Thaynara Flôr:
O sociólogo Pedro Demo defende que devemos tornar a pesquisa parte da nossa vida cotidiana, como uma atividade inerente ao processo de produção de conhecimento. Uma sugestão seria proporcionar que os estudantes tenham mais contato com a cultura científica no Ensino Básico. Muitos só descobrem o que é fazer ciência quando ingressam no Ensino Superior, o que é uma pena, pois o engajamento poderia ocorrer muito antes dos 18 anos. Pensar que a iniciação científica de crianças e jovens pode criar essa cultura e os levar a entender o que é fazer ciência desde cedo é algo que me estimula a continuar meu trabalho como pesquisadora e educadora. A Fiocruz, assim como outras instituições de pesquisa, possui programas institucionais, como o Programa Institucional de Bolsas de Iniciação Científica (PIBIC/CNPq), e programas de estágios para estudantes do Ensino Médio e Superior.

Maria Fernanda Marques Fernandes (@mariafernanda.marquesfernandes): Combinar ciência com entretenimento é uma estratégia para atrair os visitantes jovens?
Thaynara Flôr:
Sim, entendo que combinar estes elementos é uma forma de divulgar conhecimento com uma linguagem mais próxima dos jovens e que desperta o interesse e a curiosidade deles para os mais variados temas científicos.

Bárbara Dias (@diasb83): Quantos e quais museus de ciência, hoje, no Rio de Janeiro, possuem guiamento e atividades para grupos de estudantes e professores? Vocês poderiam fazer uma espécie de lista? Acredito que isso ajudaria muitos professores da rede pública.
Thaynara Flôr:
Bom, não sei dizer ao certo quantos museus de ciência em funcionamento hoje na cidade do Rio de Janeiro trabalham com visita mediada e atividades para grupos. Mas fiz uma pequena lista de museus que conheço: Museu da Vida, Museu do Amanhã, Museu de Astronomia e Ciências Afins (MAST), Espaço Memorial Carlos Chagas Filho (UFRJ), Museu Ciência e Vida, Casa da Ciência (UFRJ), Museu de Ciências da Terra - MCTer (somente ações itinerantes), Fundação Planetário da Cidade do Rio de Janeiro, Museu da Geodiversidade (UFRJ). Com certeza, há outros.

Rodrigo Peixoto (@mestre.turumbar): Está embutido culturalmente (dadas as diferenças) na população geral a repugnância e o asco à fauna entomológica urbana. Acha possível que eventos como esses possam ser decisivos para a desmistificação de alguns insetos inofensivos a ponto de chegarmos a mudar esse quadro?
Thaynara Flôr:
Com certeza, acho que um trabalho em conjunto dos profissionais que pesquisam estes insetos, os professores do Ensino Básico e os profissionais do museu pode contribuir para essa desmistificação, ao realizarem atividades voltadas para a população. E, claro, é preciso também pensar sempre no papel do poder público em questões de conservação e manutenção da fauna e flora locais. É fundamental cobrarmos isso das instituições públicas responsáveis.  

Elidiomar Ribeiro Da Silva (@Elidiomar): Muitas vezes, tenho a impressão de que a academia não dá o devido valor à divulgação científica. Trocando em miúdos, uma pesquisa “de bancada” tende a ser internamente mais badalada do que uma atividade ou um estudo de popularização da ciência. Você também faz essa leitura? E qual é a sua área de graduação?
Thaynara Flôr:
Eu sou formada em Ciências Sociais e, além de pesquisadora, também sou professora do Ensino Básico. Respondendo à primeira pergunta, temos que pensar o que é ciência. Para os estudantes que participaram do meu estudo, ciência está ligada aos estudos de bancada. Por isso, penso que o papel da divulgação científica é também desmistificar esse significado. Ao divulgar trabalhos das áreas de Humanas, Exatas e Biológicas, a população pode ampliar o significado do que é ciência e da visão do que é ser cientista. Popularizar e divulgar ciência é tornar esse campo mais próximo da sociedade, das pessoas que não estão diretamente ligadas a ele, mas que gostariam de saber mais, participar mais das discussões e - por que não? - contribuir com elas.

Com edição de Julianne Gouveia.
Publicado em 08/08/2019.

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