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Egressa do Mestrado em Divulgação da Ciência, da Tecnologia e da Saúde, a jornalista e gestora de comunicação organizacional Erika Blaudt estudou materiais informativos de cinco campanhas oficiais sobre gravidez na adolescência. De acordo com a análise de Erika, alguns desses materiais buscavam, de fato, uma aproximação com o público adolescente e jovem, utilizando uma linguagem textual clara e objetiva, além de uma estética identificada com o grupo. Entretanto, muitas vezes, em vez de destacar as responsabilidades compartilhadas por meninos e meninas, os materiais colocavam o foco excessivamente sobre a adolescente. Outro problema observado foi a falta de conexão dos informativos com estratégias de promoção da saúde de forma mais ampla e integral. Nessa entrevista do "Conta aí, mestre", Erika não só comenta os resultados de sua pesquisa, como também apresenta sugestões para campanhas com o intuito de que os adolescentes adotem hábitos mais saudáveis e seguros quanto à saúde reprodutiva.
 
Museu da Vida: Por que a gravidez na adolescência é considerada um relevante problema de saúde pública na América Latina?
Erika Blaudt: A gravidez na adolescência é considerada um dos principais determinantes de problema tanto de ordem social quanto de saúde pública na América Latina, com implicações sociais, biológicas, psíquicas e econômicas. Morte provocada por aborto clandestino, depressão, hipertensão, partos prematuros, anemia, pré-eclâmpsia, mortalidade materna e infantil, taxas elevadas de baixo peso do recém-nascido e evasão escolar da adolescente são alguns dos problemas relacionados à gravidez na adolescência, sobretudo, entre as classes populares. 
 
O Sistema de Informações sobre Nascidos Vivos (Sinasc) registrou, em 2015, aproximadamente 550 mil adolescentes grávidas, o que correspondia a 18% do total de gestantes no país. Além disso, o relatório da Organização Mundial da Saúde (OMS) de 2018 aponta que o índice brasileiro está acima da média latino-americana, com 68,4 nascidos por mil meninas de 15 a 19 anos, enquanto esse número é de 46 nascidos por mil garotas no mundo todo.
 
A causa e o efeito da problemática são pouco explorados na elaboração dos materiais educativos das campanhas sobre gravidez na adolescência, como observei em meu estudo. Apesar da crescente produção de informação sobre o assunto, faltam abordagens efetivas junto aos adolescentes, seja pela ausência de campanhas educativas mais adequadas, seja pela falta de políticas públicas específicas para abordar a gravidez e suas implicações nessa fase da vida.
 
Museu da Vida: Quantos e quais materiais educativos sobre gravidez na adolescência você analisou na sua pesquisa?
Erika Blaudt: A análise dos materiais foi realizada por mim e outros dois profissionais, um especialista em educação em saúde e uma profissional de comunicação em saúde. Analisei oito materiais informativos de cinco campanhas oficiais, sendo um vídeo, dois cartazes, um hotsite, um gibi, um folder e duas cadernetas de saúde para adolescentes (menina e menino). Para mais informações sobre as campanhas analisadas no estudo, clique aqui.
 
Quais os aspectos positivos identificados nesses materiais?
Erika Blaudt: Nós fizemos uma série de apontamentos relacionados aos materiais quanto à sua intencionalidade, à sua forma e ao seu conteúdo. Identificamos que houve uma tentativa das instituições aproximarem o tema do público adolescente e jovem, como nos informativos da campanha carioca “Se cuida, gravidez tem hora” e da campanha “Gravidez na adolescência: é a melhor hora?”, da Secretaria Municipal de Saúde de Limeira (SP). Esse é um grande ganho pois tais campanhas educativas, embora muitas vezes envolvam recursos consideráveis (financeiros, materiais e humanos), tendem a não contribuir tanto para o resultado final, que é a conscientização sobre a gravidez na adolescência. Ainda em relação aos aspectos positivos, verifiquei que a forma e a mídia escolhidas apresentaram uma boa articulação entre a linguagem textual (clara e objetiva) e as ilustrações (que tinham uma estética claramente identificada com o grupo, com presença de cores vibrantes e alguns “ícones”, como as roupas e acessórios usados por eles).
 
E quais os aspectos negativos?
Erika Blaudt: Há fatores importantes a se considerar na criação de materiais educativos relacionados a campanhas sobre gravidez na adolescência para que elas tenham o resultado esperado. À exceção das cadernetas elaboradas pelo Ministério da Saúde, que tinham um objetivo mais amplo de acompanhamento da saúde do adolescente de forma integral, os demais materiais apresentavam como principal estratégia a atenção para as responsabilidades relacionadas à maternidade e seus impactos, desde as limitações no convívio social até as dificuldades de concluir a formação escolar. Nesse caso, é possível observar um primeiro problema em relação a esses materiais e sua intencionalidade: o foco é excessivamente colocado sobre a adolescente (menina) e não sobre os adolescentes (meninos e meninas, com responsabilidades compartilhadas). 
 
Em geral, os materiais, apesar de oferecerem acesso a informações sobre a gravidez na adolescência e suas consequências, não apresentam elementos básicos que possam ser identificados como materiais educativos. Por exemplo, não conseguem fazer a conexão com as estratégias de atenção e promoção da saúde no âmbito das quais foram elaborados; e não trazem elementos suficientes para permitir mudanças de comportamento e atitudes que venham determinar a adoção de hábitos mais saudáveis e seguros quanto à saúde reprodutiva dos adolescentes.
 
Quais as suas sugestões para aprimorar esses materiais?
Erika Blaudt: Como em toda excelência em gestão, propostas advindas da base para a gerência tendem a ter muito mais sucesso! Isso tem a ver com o pertencimento do público em relação ao assunto exposto. Importante que os órgãos oficiais do setor da saúde, nas três esferas de governo, possam promover uma ampla reformulação das estratégias de educação e comunicação voltadas à gravidez na adolescência, seus riscos e impactos, relacionando-as à promoção da saúde reprodutiva, à adequação às necessidades e à realidade do grupo em questão.
 
Para se tentar esse aprimoramento, a partir dos resultados do meu estudo, observo a importância de:
- garantir um uso mais adequado dos recursos disponíveis para o financiamento de iniciativas de educação, com priorização de ações construídas numa perspectiva dialógica, ajustadas do ponto de vista geográfico, étnico e de gênero;
- investir na aproximação entre as iniciativas de educação em saúde e a produção de conteúdos para as velhas e novas mídias, incentivando estilos de vida e escolhas saudáveis para mostrar aos jovens as vantagens e desvantagens de cada escolha; 
- estimular novos esforços de pesquisa orientados à produção de conteúdos e estratégias de prevenção e promoção da saúde mais adequados à realidade da audiência. 
 
Precisamos romper com o modelo normativo-prescritivo na comunicação e educação sobre gravidez na adolescência para estabelecer um novo paradigma com empatia e sororidade – fazendo o adolescente se sentir não apenas parte do processo, mas agente transformador de uma condição social, para o bem comum.
 
 
Erika Blaudt é autora da dissertação "Análise de materiais educativos desenvolvidos em campanhas oficiais sobre gravidez na adolescência no Brasil: implicações para a prática e a educação em saúde", defendida em 30 de julho de 2018, com orientação do pesquisador Frederico Peres.
 
Publicado em 11/12/2018.
 
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