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Confira a entrevista com Fernando Alves, autor de uma dissertação de mestrado sobre o tema.
Herói, vilão ou maluco: como a ciência e os cientistas são retratados nos filmes de super-herói? Para responder a esta questão, o mestre em Divulgação Científica pela Fiocruz Fernando Alves mergulhou na análise de filmes estrelados pelo Hulk, clássico personagem dos quadrinhos que hoje é sucesso nas telonas. Ele revisitou quatro produções do grandalhão da Marvel Comics a fim de entender como a imagem da ciência na sociedade mudou nas últimas quatro décadas: "O Incrível Hulk: Como a fera nasceu (1977)", "O Incrível Hulk: Casado (1978)", "Hulk (2003)" e "O Incrível Hulk (2008)". O resultado está em sua dissertação, defendida em 19 de junho. O pesquisador responde a perguntas enviadas pelos nossos seguidores e dá algumas pistas sobre a realidade dos profissionais de ciência, seus estereótipos na sociedade e representatividade na mídia. Fala aí, Fernando!
 
Isabela Leocadio (@isabela.leocadio.9): Quando vemos um programa de TV, jornalistas chamam cientistas de estranhos, diferentes ou até malucos. Como você vê essa visão distorcida do profissional da ciência?
Fernando Alves: Essa visão distorcida é baseada na imagem dos cientistas criada em filmes na década de 1930, em que o cientista é um ser enigmático, excêntrico e isolado, que faz pesquisas em seu covil mal assombrado no alto da montanha. Essa imagem teve influência dos alquimistas dos livros de ficção, terror e suspense. Ela continuou sendo reproduzida em filmes pelos anos 1950 e só mudou na década de 1970, quando os cientistas passam a ser mais cômicos, porém ainda diferentes da realidade: é a visão do cientista maluco, como o Doc Brown em “De volta para o futuro” e o Beakman, na série de TV “O Mundo de Beakman”. Nos anos 1990, os cientistas começam a ser representados como figuras heroicas e solucionadoras de problemas, mas ainda continuam a dividir espaço com o estereótipo do cientista maluco. Uma representação social de cientista antiga está ligada a essa imagem distorcida do profissional da ciência. Existem outras, mas são pouco utilizadas ou utilizadas para atingir certos públicos. É o caso de desenhos animados como “Phineas e Pherb”, o “Laboratório de Dexter” e “Jimmy Neutron”.
 
Cristina Portella (@crismportella): Dr. Bruce Banner, como outros cientistas, é retratado como um cara tímido, meio problemático, com dificuldade de se relacionar socialmente. Por que você acha que o cientista é, muitas vezes (ou quase sempre), retratado assim?
Fernando Alves: Podemos dizer que é um efeito dominó. Pessoas tímidas tendem a investir seu tempo em atividades que prendam sua atenção e possam ser realizadas individualmente, como ler ou estudar (sim, falo por experiência própria!). Isso pode acontecer com alguns cientistas, que também tendem a valorizar muito o próprio trabalho - isso quando as pesquisas não demandam todo o tempo deles. São circunstâncias que podem estar nas origens do estereótipo mais clássico, vinculadas ao pesquisador excêntrico, solitário ou ao cientista arrogante. Todos esses aspectos colaboram para criar uma representação de cientista, associando a ele pré-conceitos. Às vezes, a pessoa nem é tímida, só não se encaixa nas normas e expectativas sociais, e acaba recebendo um rótulo de “problemática”.
 
Anderson Ferreira (@ferrarius.bio): Uma vez que cientistas são muito diversos tanto em seus campos de atuação como em seus rostos, tipos físicos etc., como saber qual o real arquétipo de cientista para avaliar uma representação?
Fernando Alves: Não existe um real arquétipo. O profissional cientista é uma pessoa normal. O que podemos associar como uma representação são ideias preconcebidas que estão no senso comum. Nossa pesquisa usou análises anteriores para delimitar os arquétipos, ou estereótipos, mais frequentemente usados para representar cientistas em filmes. Roslynn Haynes (2003) identificou  estereótipos clássicos com características masculinas e Eva Flicker (2003), femininas. Esses estereótipos são representações usadas em filmes para que os públicos reconheçam os personagens de forma rápida e consensual. Atualmente, quando pensamos em cientista, ainda pensamos em homens brancos de meia idade com cabelos bagunçados e despreocupados com a vida social, sempre vivendo para suas pesquisas.
 
Vanisia Cristina (@cristinavanisia): Houve uma oscilação ou apenas valorização da imagem do cientista?
Fernando Alves: Ocorreu oscilação, sim. Nos filmes do Hulk de 1977 e 1978, os cientistas são bons. A ciência tem o intuito benéfico e não prejudica a sociedade em grande escala. Porém, nos filmes de 2003 e 2008, aparecem cientistas vilões, loucos, obcecados, e a ciência sendo usada para prejudicar a sociedade. O conceito que explicamos na dissertação é o "Princípio do Poder Duplo": a ciência não é boa nem ruim, depende dos usos que são feitos dela. Os filmes, ao mesmo tempo em que mostram os cientistas como heróis das narrativas, também mostram os perigos quando esses cientistas não são supervisionados. O Hulk do filme de 1977 só nasce porque o Dr. Banner é imprudente na sua busca por uma solução para sua pesquisa. No filme de 2003, existem conflitos entre cientistas bons e ruins. E, no filme de 2008, a mesma ciência que cria o Hulk é usada por um cientista obcecado para criar o vilão, Abominável.  
 
Mª Fernanda Marques Fernandes (@fernandamarques81): Os filmes de super-heróis ajudam a construir ou a desconstruir mitos em relação à ciência e aos cientistas?
Fernando Alves: Vai depender do olhar de quem assiste. Os filmes de super-heróis são produtos de entretenimento, que possuem ciência e cientistas em papéis narrativos importantes. Os mitos em relação à ciência e aos cientistas existem e são explorados neles. Eles também demonstram que a ciência é falha, como no caso em que as armaduras do Homem de Ferro são usadas contra ele, ou até mesmo na criação do robô vilão Ultron, episódios mostrados em outros filmes do universo Marvel. No entanto, é através de ideias inovadoras dos cientistas bons que as soluções aparecem: a criação do Capitão América ou a sobrevivência da sociedade de Wakanda. Os filmes de super-heróis mostram que existem cientistas bons e ruins, ciência usada para o bem e para o mal.
 
Anderson Ferreira (@ferrarius.bio): Se puxarmos pela memória, existe uma imagem do cientista no cinema. Então, será que valeria a pena estudar a representatividade (de mulheres, de negros etc.) dos cientistas nas obras de ficção?
Fernando Alves: Com certeza. Não só estudarmos a representatividade desses grupos, mas também a ciência e os cientistas nessas sociedades e suas criações. O filme “Estrelas além do tempo” fala da representatividade da mulher negra. Um dos grandes cientistas do nosso tempo presente é o geógrafo Milton Santos, brasileiro, negro e das ciências sociais - campo que tem dificuldade para se estabelecer como ciência, especialmente no Brasil. Vale a pena estudar a representatividade dos povos nativos, da cultura científica fora da esfera europeia, fora da heteronormativadade masculina branca. O próprio Alan Turing era homossexual, e isso não o fez menos cientista. Estudar outras representatividades na ficção é super válido e necessário!
 
Maria Fernanda Marques Fernandes (@mariafernanda.marquesfernandes): Nas suas análises, você identificou nos filmes alguma questão relacionada às mulheres na ciência?
Fernando Alves: Sim, especialmente com os estudos da pesquisadora Eva Flicker. Ela faz um levantamento de mulheres cientistas em filmes de ficção científica e sinaliza os estereótipos femininos mais comuns em filmes. E tem também a pesquisadora Roslynn Haynes, apontando, porém, estereótipos mais gerais de cientistas, que, por consequência, estão mais relacionados aos homens. São doze ao todo, seis femininos e seis masculinos. Os indicados por Flicker (2003) são: (1) a mulher velha, (2) a mulher masculina, (3) a especialista inocente, (4) a conspiradora do mal, (5) a filha ou assistente e (6) a heroína solitária. Os de Haynes (2003) são: (1) o alquimista/cientista malvado, (2) o cientista herói, (3) o cientista tolo, (4) o pesquisador inumano (sem sentimentos), (5) o cientista aventureiro e (6) o cientista desamparado. Esses estereótipos vão aparecendo com o passar do tempo. Assim como as mulheres lutaram por mais liberdades e direitos através da história, as personagens femininas cientistas foram atuando com mais protagonismo nos filmes. Porém, ainda se tem um longo caminho a ser percorrido. Na minha análise, comparando as produções do Hulk em 1977, 1978, 2003 e 2008, vemos que a imagem da cientista mulher não mudou. Ela ainda é representada em papéis de apoio aos personagens cientistas masculinos, que assumem todo o protagonismo da narrativa. Filmes mais atuais, como “Pantera Negra”, “Mulher Maravilha” e “Capitã Marvel”, começam a demonstrar mudanças significativas, não só ao terem protagonistas femininas, mas cientistas mulheres com participação importante nas narrativas.
 
Anderson Ferreira (@ferrarius.bio): Qual o impacto da representação do cientista no cinema para a escolha da profissão de uma pessoa? 
Fernando Alves: Relevante. Segundo a pesquisadora Jocelyn Steinke, devido à falta de representação da mulher cientista no cinema, muitas meninas descartam a possibilidade de seguirem carreiras vinculadas à ciência. Para ela, a falta de representação feminina em filmes é um dos motivos de, por muito tempo, as profissões científicas e tecnológicas serem dominadas por homens. Como o universo científico dos filmes é dominado por personagens masculinos, os meninos entendem que é uma alternativa viável para eles. Por outro lado, as meninas não possuem modelos representativos de cientistas mulheres e se afastam para profissões demonstradas como "para mulheres" em filmes e nas mídias de massa. Não é à toa que, com as mudanças das décadas de 1980 e 1990 no protagonismo da mulher cientista no cinema, em filmes como “Twister”, “Contato” e “Alien”, aumentou a procura de mulheres por especialização em profissões científicas. Isso demonstra que filmes, séries e imagens fortes na mídia impactam na escolha profissional de uma pessoa não apenas na ciência, mas nos esportes e em outras práticas.
 
Yasmin de Albuquerque (@yasmiin.de.albuquerque): Você acredita que essa mudança histórica [do acesso aos saberes] influenciou a busca por mais conhecimento científico por parte do público? Acredito que você percebeu que conceitos científicos estão mais presentes nos filmes de hoje, não só do Hulk.
Fernando Alves: Sim, com certeza. Com o surgimento da internet, a comunicação ficou mais ávida, mais abundante. Os públicos se comunicam, pesquisam e têm muita informação disponível. Antes, tudo era concentrado em livros e artigos lacrados dos centros de pesquisas ou desatualizados em bibliotecas. A ciência evoluiu e continua evoluindo, e cada vez mais fazendo parte do cotidiano. Os produtores de filmes estão cientes de que as pessoas não são mais facilmente 'mesmerizadas' pelo que assistem. Os públicos querem debater, teorizar nas redes sociais, saber se o que estão assistindo faz sentido. Uma das descobertas da pesquisa é a consolidação da ideia - também de outros pesquisadores - de que os filmes não são mais só fantasia, verdade alternativa, distopia. Os filmes são Tecnologias de Testemunho Virtual para possibilidades iminentes na nossa sociedade. Procuram diminuir a distância entre ficção e realidade, ao ponto de tornar conceitos fictícios em plausíveis e levantar questionamentos em quem assiste. Como diria “Arquivo X”, será que a verdade está lá fora?
 
Com edição de Julianne Gouveia.
Publicado em 12/07/219.
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