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Por Julianne Gouveia 

Mestra se debruçou sobre os setores educativos do Museu da Vida e do Museu da Maré. Crédito: reprodução

A nova museologia, perspectiva que defende uma reflexão sobre os museus e o seu papel na sociedade, é um conceito desconhecido para muitos, mas de grande interesse para a educadora Alice Ribeiro. Com experiência de trabalho em museus de ciências, ela sentia falta de ver nestes espaços o debate sobre o assunto. Encontrou uma oportunidade de se aprofundar na questão para a dissertação “Participação em Museus de Ciências e em Ecomuseus: apontamentos a partir da Nova Museologia”, do mestrado em Divulgação da Ciência, Tecnologia e Saúde da Casa de Oswaldo Cruz. “Quis investigar as possibilidades de inserção da perspectiva nessa tipologia museal, como forma de me qualificar e aprofundar conhecimentos, bem como contribuir para o debate sobre participação em museus de ciências”, explica.

A partir de entrevistas com gestores e educadores, a mestra se debruçou sobre os setores educativos do Museu da Vida e do Museu da Maré. O objetivo era entender como a nova museologia aparece nas práticas de mediação e participação das instituições. Entre suas conclusões, está o fato de que a nova museologia pode contribuir "para a superação da perspectiva da interatividade como forma de gerar um deslumbramento acrítico pela ciência, orientando para uma maior autonomia dos sujeitos no espaço museal, para a valorização de seus saberes e interesses e para o pensamento crítico sobre ciência".

Alice Ribeiro responde agora a perguntas enviadas pelos seguidores do Museu da Vida nas redes sociais. Confira agora mais uma edição do “Conta Aí, Mestre”!

Julianne Gouveia (@_amarelodeserto): Pode explicar melhor esse contexto da nova museologia e por que escolheu esses 2 museus pra estudar na sua dissertação?

Alice Ribeiro:
Olá, Julianne! A nova museologia é uma perspectiva museológica que ganhou força a partir da década de 1970. De maneira geral, ela é marcada pela defesa da centralidade da comunidade no contexto museal, do compromisso com as questões sociais e da atuação do museu junto ao território. Assim, defende um museu mais conectado com a realidade, os interesses e as necessidades do território em que se insere, cumprindo sua função social. Quanto à escolha dos museus, eu tinha interesse em pesquisar no meu projeto inicial apenas museus de ciências. Mas, em conversa com meu orientador, entendemos que seria interessante estudar um museu de ciências e um ecomuseu - esta segunda tipologia é comumente associada à nova museologia, e serviria como uma espécie de referência prática deste paradigma. A partir daí, partimos para as bases de dados do Instituto Brasileiro de Museus (IBRAM) e fizemos um levantamento de museus de ciências e ecomuseus localizados na cidade do Rio de Janeiro. Vale dizer que, para isso, precisamos definir critérios sobre quais instituições consideraríamos “museus de ciências” e quais entenderíamos como “ecomuseus”. Olhando para a lista de museus que resultaram deste levantamento, percebi que seria pertinente escolher dois museus localizados em uma mesma região, pois isto poderia gerar um estudo de caso interessante para se pensar a relação museus-território. 

Marcelle Pita (@marcellepita): O que seria um ecomuseu e que perspectivas outras ele traz à pesquisa quando comparado ao museu de ciências?

Alice Ribeiro:
Olá, Marcelle! “Ecomuseu” foi um termo originalmente cunhado por Hugues de Varine que sintetiza os museus pautados na interrelação entre patrimônio, comunidade e território. Assim, a nova perspectiva que eles trazem é a centralidade da comunidade local na abordagem do patrimônio. Um museu como o da Maré já nasce em relação intrínseca com o território onde se insere e sua comunidade, enquanto museus de ciências, em geral, apresentam discursos que estão deslocados do território onde estão inseridos. Assim, a perspectiva de relação com a comunidade local não está dada nos museus desta tipologia, e talvez seja essa a contribuição que os ecomuseus podem trazer.

Débora menezes (@deboratsm): Gostaria de saber da Alice o quanto ela considerou próximos ou distantes da nova museologia os dois museus estudados. Parabéns!

Alice Ribeiro:
Obrigada, Débora! Então, na última pergunta do roteiro da pesquisa, eu apresentava uma conceituação de nova museologia e pedia para o(a) interlocutor(a) comentar o quanto ele(a) achava que as características apontadas se aproximavam ou não do museu em que atuava. Para os(as) interlocutores(as) do Museu da Maré, o trecho representava bem a atuação do referido museu, então podemos dizer que em sua visão este museu está alinhado a esta perspectiva. No Museu da Vida, em geral os(as) interlocutores(as) consideraram que este paradigma é parcialmente adotado pela instituição. Vale dizer que a análise possível foi sobre os discursos dos profissionais. Para responder de forma mais aprofundada à sua pergunta, são necessárias novas pesquisas, em que se possa entrar em contato com as práticas destas instituições. Infelizmente, a Covid-19 não permitiu que isso ocorresse no meu mestrado.

Mayara Manhães (@maymanoli): Parabéns, Alice! Os dados apontam para possibilidades de colaboração entre esses dois museus e que estejam alinhadas com os princípios da nova museologia?

Alice Ribeiro:
Obrigada, Mayara! Acredito que esta colaboração é uma possibilidade que poderia, sim, ser explorada. O Museu da Vida, de alguma forma, influenciou o surgimento do Museu da Maré. Isto porque, em seus primeiros anos de atuação, o MV teve uma parceria com o Centro de Estudos e Ações Solidárias da Maré – CEASM (criador e gestor do Museu da Maré), e assim apresentou aos profissionais desta instituição “o mundo dos museus”, para usar uma expressão utilizada por uma das interlocutoras da pesquisa. Uma reflexão que poderíamos fazer hoje é: tendo os ecomuseus aprendido com os museus tradicionais, o que os museus tradicionais podem agora aprender com os ecomuseus? A pesquisa apontou que existem desafios específicos em cada tipologia, mas também desafios em comum. No que tange à participação, por exemplo, ainda que no ecomuseu exista alguma participação espontânea, ampliá-la para um maior número de moradores(as) é um desafio constante. Assim, se no conceito de ecomuseu a participação da comunidade é um princípio, isto não significa que a instituição não necessite, tanto quanto um museu tradicional, fazer uso de estratégias para ampliar esta participação. Creio que uma colaboração como a que você sinaliza seria uma importante forma de aprender com o outro, estreitar laços entre os dois museus e o território, identificar desafios em comum e criar estratégias em conjunto. O fato desses museus terem pontos de interseção em suas histórias pode ser um fator motivador e facilitador.

Renata Fontanetto (@renata_fontanetto): Oi, Alice! Parabéns pela pesquisa. Como seria essa nova autonomia dos sujeitos? Pode nos explicar qual é o problema da interatividade e por que ela não é bem vista pela nova museologia?

Alice Ribeiro:
Obrigada, Renata! A interatividade em si não é um problema, tampouco é vista assim pela nova museologia. Ela apenas não é central nesta perspectiva. Os ecomuseus e os museus e centros de ciências interativos partem de perspectivas paradigmáticas diferentes (a nova museologia e a interatividade, respectivamente). Entendo que a crítica – com a qual me afino – que alguns autores direcionam ao segundo grupo não é ao uso da interatividade, mas ao fato de que eventualmente ela é utilizada de forma a tornar a ciência um espetáculo, do qual ficam ausentes a dimensão histórica e a criticidade. Assim, a provocação colocada é se nesses museus existe espaço para questionamento do conhecimento científico, valorização de outros saberes e contextualização histórica e geográfica da construção científica. Não há problema, a meu ver, quando se faz uso de aparatos interativos para despertar o interesse pela ciência. O problema é quando a participação social é pautada exclusiva ou majoritariamente nesta interação. Neste sentido, quando falo de autonomia dos sujeitos, estou perseguindo um nível de participação em museus no qual os visitantes exerçam sua cidadania, influenciando escolhas institucionais ou trazendo saberes “em pé de igualdade” com o conhecimento científico, por exemplo, ou outras formas de exercício da cidadania que possam vir a ser pensadas.

Higor Tomaz (@higor.tomaz_): Oi Alice!! Parabéns! A nova autonomia dos sujeitos tem alguma relação com as perspectivas de Paulo Freire? Você acha que os nossos métodos de educação formal nas escolas influenciam diretamente no comportamento e experiência do público nos museus?

Alice Ribeiro:
Obrigada, Higor! Com relação à primeira pergunta, tem, sim. Ainda que haja quem questione essa visão, de modo geral, os(as) pesquisadores(as) consideram que o pensamento freiriano está na base do conceito de museu integral, elaborado no contexto da Mesa Redonda de Santiago (1972), que foi um marco importante para a disseminação das ideias associadas à nova museologia. Quanto à segunda pergunta, ainda que esta pesquisa não tenha adentrado esse tema e que, portanto, eu não possua dados para fazer esta análise, pela minha experiência profissional, eu diria que esses métodos que você cita são em parte reproduzidos em museus (ou, pelo menos, em alguns deles). O que ocorre é que, em uma perspectiva tradicional, tanto museu quanto escola possuem regras e normas de conduta, ditas e não-ditas, que indicam o comportamento desejado nestes espaços. Ainda que alguns combinados sejam obviamente necessários, no caso dos museus essas normas podem limitar expressões dos sujeitos e até mesmo inibir a entrada nestes espaços. Além disso, a perspectiva de ensino formal não deveria ser transposta para o espaço museal, mas, às vezes, acontece. Aproveitando a sua deixa, acho que Paulo Freire tem muito a contribuir com essas reflexões. É um autor, a meu ver, ainda pouco explorado pelo campo museal.

Publicado em 03 de setembro de 2021.

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